Vídeos que alcançam milhões de pessoas, buscas que sugerem conteúdos do adversário e ferramentas de inteligência artificial que tratam os candidatos de forma diferente. Esses são alguns dos indícios reunidos pela campanha de Lula (PT) para sustentar que Flávio Bolsonaro (PL) estaria sendo favorecido nas redes sociais.
As suspeitas fazem parte da ação em que a coligação petista pede ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a cassação da chapa de Flávio. Os advogados apontam maior distribuição de publicações favoráveis ao senador, facilidades na produção de propaganda com inteligência artificial e restrições a conteúdos de Lula. Também questionam gastos com tecnologia e anúncios financiados do exterior.
A Meta, responsável pelo Instagram, Facebook e WhatsApp, reconheceu falhas que afetaram a campanha petista e diferenças no funcionamento de sua inteligência artificial. A empresa, porém, nega favorecimento político e atribui os problemas a erros técnicos. A coligação tenta demonstrar que esses episódios, considerados em conjunto, configuram abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação.
Na segunda-feira (19), apoiadores de Lula e organizações da sociedade civil realizaram um protesto em frente à sede da Meta, na avenida Faria Lima, em São Paulo. Sob o lema "Meta, não se meta", os manifestantes cobraram transparência sobre os algoritmos, fim das restrições a conteúdos políticos e igualdade de tratamento entre os candidatos. Os participantes tentaram entregar um manifesto à empresa, mas, segundo os organizadores, foram impedidos pelos seguranças.
Mais visualizações, mesmo com menos seguidores
Na primeira semana do segundo turno, Flávio tinha 13,6 milhões de seguidores no Instagram, contra 16,4 milhões de Lula. Mesmo assim, seus vídeos curtos registraram, em média, 15,64 milhões de visualizações, diante de 5,91 milhões dos publicados pelo presidente.
A proporção de curtidas e comentários entre as pessoas que assistiam aos vídeos era praticamente igual nos dois perfis. Para a coligação, isso sugere que a diferença poderia estar principalmente na distribuição dos conteúdos pelo Instagram, que pode recomendá-los inclusive a pessoas que não seguem os candidatos.
Os números, porém, não comprovam manipulação. Compartilhamentos e outros fatores também podem explicar o desempenho.
A petição cita ainda Nikolas Ferreira (PL-MG), um dos principais apoiadores de Flávio. Um vídeo do deputado publicado em 20 de outubro teria alcançado 103,2 milhões de visualizações em aproximadamente nove horas. A campanha quer saber quanto dessa audiência veio de recomendações automáticas.
Busca por Lula teria indicado perfil de Flávio
Segundo mensagens internas da Meta divulgadas pela Folha de S.Paulo e citadas na ação, o Instagram teria sugerido o perfil de Flávio nas buscas, enquanto o de Lula enfrentava dificuldades para aparecer até em pesquisas pelo nome exato.
No WhatsApp, o canal "Tropa do Flávio" teria sido recomendado a usuários que procuravam "Exército do Lula".
Na prática, alguém interessado em encontrar publicações de um candidato poderia receber sugestões relacionadas ao adversário. A coligação quer saber se houve falhas isoladas ou aplicação desigual dos critérios de recomendação.
Inteligência artificial: Flávio 22, sim; Lula 13, não
A campanha também questiona o funcionamento das ferramentas de inteligência artificial. Segundo testes apresentados ao TSE, a Meta AI permitia criar determinadas peças eleitorais com referências a "Flávio 22", mas recusava solicitações equivalentes com "Lula 13".
A Meta reconheceu a falha e explicou que seus filtros nem sempre identificavam corretamente referências formadas por um primeiro nome e um número eleitoral. Segundo a empresa, o problema também permitia gerar imagens com "Luiz" e o número de Lula. A companhia informou que corrigiu o erro e negou favorecimento político.
Lula teria enfrentado mais restrições
Enquanto questiona o alcance das publicações adversárias, a coligação relata dificuldades para divulgar propaganda petista. Em setembro, a Meta desativou por engano a conta de anúncios de Lula. Em outubro, houve problemas para impulsionar publicações. Um levantamento citado na ação reuniu ainda 1.121 relatos de restrições, redução de alcance ou banimento de perfis favoráveis ao presidente.
A Meta reconheceu problemas técnicos, mas negou que fossem direcionados à campanha. Afirmou que a conta ficou desativada por pouco mais de uma hora, que uma falha posterior atingiu anunciantes de diferentes países e que a campanha de Flávio também relatou problemas com anúncios. Segundo a empresa, parte das restrições a conteúdos ligados a Lula decorreu do cumprimento de regras eleitorais e determinações judiciais.
As suspeitas já motivaram decisões do TSE. Em 15 de outubro, o ministro Marco Aurélio Bellizze determinou medidas para assegurar tratamento igualitário às candidaturas nas plataformas da Meta, sob pena de multa diária de R$ 500 mil. A decisão, de caráter preventivo, foi confirmada por unanimidade pelo Plenário, sem reconhecimento definitivo de manipulação.
Em outra ação, o corregedor-geral eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva, determinou a preservação de dados de Nikolas Ferreira e Pablo Marçal e proibiu tratamento privilegiado na distribuição de seus conteúdos. Na terça-feira (20), Bellizze reuniu representantes da Meta e das duas campanhas para cobrar esclarecimentos sobre o cumprimento das determinações anteriores.
Rede de perfis e pagamentos sob suspeita
A denúncia também aponta uma rede de 255 perfis que, segundo estudo do Instituto Democracia em Xeque, participou da circulação de 1.204 publicações, muitas delas produzidas com inteligência artificial, e acumulou 58,6 milhões de visualizações em um mês.
Parte dos conteúdos circulou simultaneamente por diferentes contas. A coligação identifica conexões com políticos do PL e páginas que utilizam o nome de Flávio. Os advogados também destacam que o senador participou de seminários partidários sobre comunicação digital, convocou militantes a ocupar as redes e teve seu perfil marcado em publicações da rede investigada. Esses elementos são apresentados como indícios de participação.
Na frente financeira, o PT questiona pagamentos de R$ 600 mil feitos pela candidatura à Elytron. Segundo reportagem do Intercept Brasil, citada na petição, a empresa ofereceu no exterior ferramentas digitais para criar contas falsas, disseminar boatos e influenciar disputas políticas.
A ação também menciona estudo do NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que identificou 1.613 anúncios político-eleitorais pagos em moeda estrangeira, pelos quais a Meta teria recebido até R$ 2 milhões.
Por que pedir a cassação de Flávio?
A legislação eleitoral permite cassar o registro ou o diploma de uma candidatura beneficiada por abuso de poder, mesmo quando a irregularidade é praticada por terceiros. Não é necessário demonstrar que o candidato ordenou pessoalmente cada ato para aplicar essa sanção.
A campanha de Lula sustenta que Flávio recebeu vantagens econômicas e de exposição indevidas. Para justificar a cassação, porém, o TSE terá de reconhecer abuso eleitoral grave e benefício à candidatura. Falhas técnicas e diferenças de audiência, isoladamente, não bastam.
A inelegibilidade por oito anos, também solicitada pela coligação, exige comprovação de responsabilidade pessoal pela prática do abuso. Já a eventual cassação alcançaria Flávio e seu vice, Alfredo Gaspar.
Para sustentar a acusação, o PT pede acesso aos registros internos da Meta e do X. Quer saber se o desempenho das publicações decorreu do comportamento dos usuários e de problemas técnicos ou de critérios de distribuição aplicados irregularmente. O Ministério Público Eleitoral já ressaltou, em manifestação anterior citada na ação, que a igualdade exigida pela legislação é de regras e critérios, não de resultados.
Processo: Aije 0603276-73.2026.6.00.0000