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Em seus 17 anos de existência o Congresso em Foco se dedicou mais à produção de informação jornalística – incluindo pesquisas, dados e análises – do que de opinião. Apesar de sempre termos garantido amplo espaço às opiniões de terceiros, poucas foram as vezes em que publicamos editoriais com a nossa visão particular dos acontecimentos.
Numa dessas raras oportunidades, alertamos que a vitória do então candidato Jair Bolsonaro em 2018 era o pior que nos poderia acontecer. Conhecíamos de perto o personagem. O belicoso deputado federal foi muito bem pago pela população durante quase três décadas para oferecer em troca praticamente nada além de shows midiáticos, sangria de dinheiro público e acusações criminais (essas últimas, infelizmente, jamais tratadas pelo Judiciário com o rigor que exigiam). Consideramos à época uma obrigação moral nos manifestar daquela forma ao ver grande parte da sociedade seduzida por um político despreparado, que fez fortuna operando numa linha bem distante da que se pode esperar de quem detém mandato popular. Um mito de pés de barro, como mostramos em extensa reportagem ainda em julho de 2017.
Impressionante que, mesmo assim, haja a cada instante uma nova razão para perceber que o atual presidente da República é ainda mais nefasto do que poderíamos imaginar. Isso nos impõe agora o dever de externar um pensamento que os fatos confirmam mais e mais: o afastamento de Jair Messias Bolsonaro da Presidência da República é passo obrigatório e urgente para o país ter uma gestão minimamente eficaz da pandemia e afastar-se da insegurança jurídica causada por quem não tem limites para ameaçar a democracia, atentar contra a Constituição e transformar a nação num cemitério da racionalidade, da humanidade e do respeito ao outro.
Bolsonaro chegou ao Palácio do Planalto após uma vitória eleitoral indiscutível, embora apoiada em uso provavelmente indevido de plataformas digitais e na operação de poderosas bolhas de desinformação. Recebeu os votos de 39% dos eleitores. Empossado, teve até aqui exatos 821 dias para buscar a reconciliação com os demais 61%, que optaram por se abster ou por votar nulo, em branco ou no candidato adversário. Afinal, deveria ser o presidente de todos os brasileiros e brasileiras.
Faltou-lhe a capacidade de agir de modo republicano até quando se tratou de proteger a população da covid-19, algo que ele jamais compreendeu ou que fingiu não entender. Um ano atrás, já estava claro para este site o tamanho do problema. Como não poderia estar isso evidente para o presidente da República, que dispõe de inúmeros assessores pessoais qualificados e de uma burocracia eficiente para mantê-lo informado sobre tudo?
O desprezo pela vida ganhou diferentes manifestações nas atitudes e palavras da autoridade constitucional, legal e politicamente qualificada para liderar as ações de enfrentamento da pandemia. Muitos outros chefes de governo, pelo mundo afora, minimizaram os riscos e cometeram equívocos na gestão da crise sanitária. Não se trata, aliás, de tema ideológico. A inépcia coloca do mesmo lado políticos de esquerda como Lopez Obrador (México) e extremistas de direita como Jair Bolsonaro e Donald Trump, cuja derrota eleitoral recente se deveu em grande parte à sua incapacidade para cuidar da saúde dos norte-americanos.
Desconhecemos, contudo, algum caso de chefe de governo que tenha cometidos tantos erros e de forma tão cruel. Bolsonaro chocou o mundo ao anunciar o cancelamento da compra de vacinas. Recusou-se a negociar sua aquisição com outro fabricante, alegando entre possíveis efeitos colaterais a eventual transformação das “vítimas” da vacina em jacarés. Lançou campanha de propaganda para incentivar as pessoas a desafiarem normas sanitárias adotadas globalmente. Desdenhou da dor de um povo enlutado ao blasfemar contra um suposto “país de maricas”. Chegou a comemorar a morte de uma pessoa que morreu enquanto testava a vacina Coronavac (um caso de suicídio, sem nenhuma relação com a eficácia do produto). Não para de promover aglomerações. Insiste em defender um “tratamento precoce” que, além de ineficaz, pode contribuir para matar quem o utiliza. Demorou mais de um ano para criar um comitê de crise.
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