Publicidade
Expandir publicidade
[fotografo] Pixabay [/fotografo]
É muito frustrante para uma mulher que atua na política, que luta pela igualdade de gênero e que trabalha com denunciantes na defesa de direitos, não conseguir falar.
Trabalhar com política sempre me colocou em ambientes dominados por homens, quase sempre homens brancos e mais velhos. Isso nunca me afastou e eu nunca tive medo de engravatados, mas, quando comecei, eu nunca pensei que ser mulher determinaria tanto algumas coisas na minha atuação até o dia que fui parar em Brasília.
Eu já tinha ouvido muitos relatos de outras mulheres sobre a selva que é o Congresso Nacional e sobre o que é ser mulher ali dentro. A primeira vez que estive lá, em 2012, o senador com quem me reuni não olhou para mim durante toda a reunião, dirigindo-se o tempo todo somente ao meu colega (homem) e, ao final, me entregou seu cartão de visita referindo-se a mim como se eu fosse secretária do meu colega. Lembro ainda de ficar assustada com olhares vindos sem qualquer discrição ao andar pelos corredores. Entendi o que outras mulheres diziam sobre se sentir um pedaço de carne ali dentro.
Voltei para o Congresso Nacional em 2019, com a missão de dialogar com diversos parlamentares sobre as Novas Medidas contra a Corrupção. Era uma maratona de reuniões de gabinete em gabinete. Do Psol ao PSL, passando pelo PT, PSDB, Novo, PSB, PDT e tantos outros partidos. O desafio era criar pontes e abrir diálogo para combater a corrupção de forma sistêmica com o compromisso de todos: esquerda, direita, progressistas e conservadores.
Eu me preparava muito para essas reuniões. Dialogar com diferentes ideologias e campos opostos exige muita coerência e certeza do que defendemos, além de jogo de cintura e paciência. Porém, meu preparo ia além, porque sendo mulher a exigência é muito maior. A gente se preocupa com a roupa que veste e se está dando brechas a mal entendidos. E todo esse esforço pode ser em vão. Mesmo séria, até sisuda, eu fui assediada por parlamentares diversas vezes. Recebi risinhos, elogios exagerados e que não tratavam do meu trabalho, abraços pegajosos e cantadas, algumas disfarçadas outras escancaradas, e até mensagens ousadas. Com o tempo eu decidi, silenciosamente, que em alguns gabinetes eu não entraria mais sozinha e só com um colega homem.
Certo dia, no meio dessa maratona, acordei animada porque conseguimos a agenda de um deputado muito conhecido e com um posto importante em um partido relevante para ajudar a despolarizar o debate anticorrupção no país, que foi capturado por um discurso populista e de ódio. Um amigo meu, que também é próximo do deputado, tinha me alertado sobre algumas desconfianças dele em relação ao nosso trabalho e eu estava determinada a convencê-lo da importância da pauta para combater as desigualdades no Brasil e trazê-lo como um aliado dessa luta.
Fomos em três para a reunião: eu, o diretor-executivo da minha organização e minha colega que era responsável por advocacy na época. Meu diretor me deu espaço e pediu para que eu tomasse frente. O deputado nos escutou, interagiu, debateu e elogiou nosso trabalho e tudo que eu apresentei. Se mostrou muito mais interessado do que eu esperava. Lembro que o abraço dele ao tirarmos a foto ao final da reunião, que fazíamos em todos os gabinetes, na hora de se despedir foi um pouco alongado e me chamou atenção. Mas logo pensei que era coisa da minha cabeça e foquei no que tínhamos conseguido ali. Saí do gabinete dele com a sensação de dever cumprido, sabe?! Tínhamos conseguido abrir um diálogo importantíssimo com uma liderança fundamental. Além disso, tinha uma satisfação pessoal minha porque aquele era um deputado por quem eu tinha muito respeito e admiração. Eu acreditava na forma que ele fazia política e poder trabalhar e construir mudanças ao lado de quem admiramos é gratificante. Celebrei com os colegas e com a equipe o fato e segui para a próxima reunião.
Mal tínhamos entrado no próximo gabinete quando recebi uma mensagem do deputado no meu celular. Vi a notificação de um número não salvo e a foto dele e estranhei. Não é tão comum deputados falarem diretamente com a gente, ainda mais quando ainda não há um relacionamento consolidado. Normalmente somos nós que vamos atrás deles ou os assessores que nos procuram. Agradeci o contato, falei da importância da pauta novamente e me coloquei à disposição. Ele não escreveu para o meu diretor nem para minha colega que estiveram comigo na reunião.
Não satisfeito com meu agradecimento, ele enviou novas mensagens. Havia uma insistência e interesse dele em continuarmos a conversa durante a noite. Estranhei e demorei um pouco para entender o que estava acontecendo, talvez até por não querer acreditar no que estava acontecendo.
19:10 – Queria te ouvir mais. Muita coisa pra fazer. Volto amanhã para [nome da cidade retirado], mas fico hoje à noite aqui. Que hotel você está? Posso ir até aí
22:01 – Chamada de voz perdida
22:40 – Acordada? Me liga. Não durmo cedo, me liga se estiver acordada.
Eu pensei em inventar uma desculpa, dizer que estava cansada e que tinha que trabalhar cedo, mas quando vi ele me ligando a minha reação imediata foi desligar o celular. Era um misto de decepção com indignação. O interesse todo dele mais cedo não era na nossa pauta ou agenda. O orgulho que eu tive do meu desempenho profissional estava totalmente equivocado. ‘Pô, até você? Logo você?’, eu pensava inconformada. Eu apostava naquele cara, eu achava que ele fazia uma política diferente. Eu achava que ele era um aliado não só do meu trabalho, mas da luta por direitos e, inclusive, pela igualdade de gênero. Pensei na família dele, na esposa dele que é uma mulher que eu admiro muito.
E pensei na sutileza da abordagem dele, das mensagens, da segurança dele. Não havia o menor sinal de uma preocupação do lado dele de eu divulgar as mensagens. Ele sabia bem a posição de poder que ocupava e como ele era importante para o meu trabalho. Não cedi, mas também não tive coragem de enfrentá-lo. Na manhã seguinte, quando liguei meu celular respondi dando a desculpa de que tinha ficado sem bateria e disse na minha próxima ida a Brasília marcaríamos uma nova reunião no gabinete dele. Ele respondeu, no mesmo minuto, dizendo que foi uma pena, mas que gostaria de me ver em breve. Aquilo me rasgava por dentro.