Publicidade
Expandir publicidade
[caption id="attachment_255037" align="aligncenter" width="580" caption="O Portão do Inferno é temido pelos acidentes e admirado pela paisagem exuberante. No destaque, o ponto em que caminho se lançou no abismo"]
A escuridão da noite impediu que os dois avistassem a coloração dourada das bordas escarpadas da Chapada, voltadas para a Depressão Cuiabana. Eles contornaram as bordas percorrendo a rodovia Emanuel Pinheiro, a MT-251, em bom estado de conservação, mas com muitas curvas e declives. Depois, começaram a galgar as escarpas para chegar ao topo do chapadão. O último trecho da subida foi feito em velocidade moderada. Uma curva bem aberta à direita e, no final, outra bastante radical à esquerda. Era o km 57 da rodovia. Eles estavam no “Portão do Inferno” (veja na galeria abaixo) – admirado pela bela paisagem que se avista do mirante e temido pelos inúmeros acidentes, desovas de corpos e suicídios que ali ocorreram. Em queda livre Ninguém sabe exatamente o que aconteceu naquela madrugada, mas Wilson não fez a curva. O caminhão saiu da pista, numa velocidade estimada de 45 km/h, primeiro fazendo atrito o guard rail metálico, provocando o seu deslocamento. Em seguida, a lateral direita do veículo ultrapassou o guard rail e trafegou sobre ele. A outra lateral quebrou dois metros na mureta de concreto do pontilhão, rompendo a última resistência. O caminhão mergulhou no vazio, na completa escuridão, para uma queda livre de 72 metros – o equivalente a um prédio de 25 andares. Eram 4h40 da madrugada. Na queda, os componentes do veículo ficaram espalhados. A cabine acomodou-se embaixo de árvores, no fundo do precipício.
...
A informação chegou em poucos minutos ao plantão da Delegacia de Polícia Civil da cidade Chapada dos Guimarães, poucos quilômetros adiante. Uma equipe foi ao local e confirmou a denúncia que chegara pelo serviço de telefone de emergência. Foi acionado, então, o grupo de resgate, formado por policiais civis e militares e pelo Corpo de Bombeiros de Cuiabá. O trabalho foi liderado pelo policial civil José Siplaki Netto – com experiência de 11 resgates no local nos últimos 20 anos, sem jamais encontrar alguém vivo. Ele relata a operação:
– Foi um trabalho muito difícil, custoso. Levamos quase seis horas de resgate. Fizemos os primeiros socorros ainda no fundo das escarpas. Ali é
Em coma
Aryane foi levada imediatamente para um pronto-socorro. Ficou 14 dias em coma. Quando acordou, não lembrava do acidente. Enquanto esteve no hospital, não lembrava nem mesmo que tinha uma filha. Contaram do acidente e disseram que o marido estava num hospital particular, pago pela empresa. – A gente dava graças a Deus que ela não lembrava – conta a mãe, que pediu para não ser identificada. Mas perguntava pelo filho de quatro anos nos 47 dias em que esteve internada. – O meu filho, o meu filho! Tenho que ficar boa pra cuidar do meu filho. Ela passou por cirurgias no joelho e colocou duas placas de metal e quatro parafusos na coluna para recuperar as vértebras quebradas. – Se não fosse pelo filho, ela não tinha se recuperado. Ela tinha forças para se recuperar porque tinha um filhinho esperando por ela e para cuidar do esposo também – conta a mãe. No último dia no hospital, os médicos se reuniram e contaram toda a verdade, inclusive sobre a morte do marido e do bebê. Ela chorou muito, mas depois foi recuperando as forças. – Ela sofreu muito, perdeu a vontade de viver. Ficou um tempo em cadeira de roda. Só não perdeu totalmente por causa do filhinho. Ela sempre foi religiosa, desde criança. Mas, quando chega o dia 4 de junho, é sofrimento – relata a mãe. O Governo do Mato Grosso ressalta que muitos dos veículos que caíram no “Portão do Inferno” são casos de “desova”. Mas informa que tem um projeto para a construção de uma nova rodovia ligando Cuiabá ao município de Chapada dos Guimarães, a MT-030, com 53 quilômetros de extensão. Mas, assim como acontece em outras regiões do estado, a nova rodovia ainda está em fase de projeto. Confira amanhã: “No Sul, ponte aguarda por reforma há 30 anos” Mais sobre a série Pontes para o atraso Mais sobre gestão pública