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Após presidir o Senado por quatro vezes e ver seu capital político ser reduzido este ano após desistir da disputa contra Davi Alcolumbre, Renan Calheiros adota estilo discreto a espera do momento certo para retomar protagonismo [fotografo]Pedro França / Agência Senado[/fotografo]
"O momento é de observação." Essa tem sido a frase clichê do senador Renan Calheiros (MDB-AL) a jornalistas que o abordam para saber como ele atuará no Senado após sofrer sua maior derrota eleitoral ao ser superado por Davi Alcolumbre (DEM-AP) na disputa pela presidência da Casa.
O habilidoso emedebista, conhecido por saber medir gestos e palavras, deixou o plenário naquele 2 de fevereiro abalado. E mergulhou num silêncio de 17 dias - o que, para os seus 40 anos de vida pública, soam como uma eternidade. Foi para Murici, em Alagoas, e se refugiou em sua fazenda. Não deu entrevistas, não falou com "estranhos". Até por telefone, só com amigos.
Retornou ao Senado - sua casa desde 1995, onde já precisou se adequar e reinventar várias vezes - e optou por uma postura diferente da dos últimos tempos: reflexivo, observador, calado. Mas não menos estratégico.
De novo necessário?
Um interlocutor muito próximo de Renan Calheiros explica: "Ele considera o Davi [Alcolumbre] novo e inexperiente. E está vendo o governo Bolsonaro desarticulado. Acha que esse início é favorável, porque é início de governo, mas acredita que, mais pra frente, a corda vai esticar. E é aí que ele entra com sua capacidade de articulação, conhecimento, experiência e, acima de tudo, domínio dos bastidores", afirmou.
Então ele acredita que, mais cedo ou mais tarde, será necessário ao governo Bolsonaro? "Sim", responde o interlocutor. Mas quando isso deve acontecer? "Quando o governo começar a errar mais."
O emedebista sabe a dimensão do seu capital político. Porém, ele reconhece que perdeu força. E tem um agravante: seu filho governa Alagoas. O governo federal pode afetar as contas nos estados e a última coisa que Renan Calheiros pode permitir, no momento é que a bem avaliada gestão de Renan Filho seja atingida. "Por isso, cautela é a palavra do momento. Esperar", completou esse interlocutor.
Fênix
Quem o visitou, conversou por telefone e tem estado em sua companhia desde que ele voltou à Brasília lembra que "essa não é a primeira vez que Renan está no chão". "Com sua capacidade de articulação, bom trânsito com todos, ele já se levantou muitas outras vezes", completou outro político conhecido nos corredores da capital federal.
Basta mencionar, por exemplo, sua situação em 2007 quando o senador emedebista renunciou à Presidência da Casa para evitar ser cassado após uma sucessão de denúncias, entre elas, a de ter despesas pessoais pagas por um lobista de construtora, inclusive, a pensão alimentícia de uma filha com a jornalista Mônica Veloso.
Com a ajuda do voto secreto, na ocasião, ele se livrou duas vezes em plenário da cassação do mandato. Depois de um período de hibernação, retornou aos poucos, como líder do MDB na Casa. Renovou o mandato de senador em 2011. Voltou ao comando do Senado em 2013 e se reelegeu em 2015. No ano passado, reelegeu-se para o quarto mandato.
Nem os inquéritos que coleciona no STF, as constantes citações na Lava Jato e o movimento #foraRenan o afastaram do Senado. A mesma sorte não tiveram outros companheiros de partido também investigados na Lava Jato, como Romero Jucá (RR) e Eunício Oliveira (CE). Porém, todos esses fatores fazem com que a figura do senador seja cada vez mais difícil de ser defendida publicamente.
O dia da derrota
Para entender o plano de Renan, segundo seus aliados, vale uma breve retrospectiva dos fatos recentes.
O adversário do emedebista, Davi Alcolumbre, foi apoiado pelo ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. Embora se sentisse mais confortável com a derrota de Renan, o presidente Jair Bolsonaro preferiu não declarar apoio explícito a Alcolumbre.
Bolsonaro ligou dias antes para Renan - publicamente, a conversa foi institucional, contudo, nos bastidores, diz-se que o assunto foi sobre um dos filhos do presidente, Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), encrencado em uma série de denúncias.
[caption id="attachment_379194" align="alignright" width="483"]>> MDB ganha duas das mais importantes comissões do Senado mesmo após derrota de Renan