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1. A denúncia da violência da polícia, do Estado. Uma violência que não se dirige somente contra a população negra, mas contra qualquer iniciativa social – violência institucional, numa situação em que a “exceção” é norma. É tocante a normalidade de uma violência escravagista e colonialista, mantida e desenvolvida nas e pelas instituições do Estado. Neste ponto, a atenção unânime concentra-se no desenvolvimento de estratégias de resistência que permitam evitar as condições de excepcionalidade sofridas. Emerge aqui uma característica do debate autônomo brasileiro no qual, dentro das qualificações de formas de luta e de programa, a demanda pela construção de uma “política do desejo” se torna central. Entendem-se assim ações políticas em que prevalecem componentes do desejo, formas de agregação nas quais os pontos motores são os aspectos criativos do fazer política. Pacifismo contra a polícia? Certamente não, mas criações alegres de formas de resistência contra a violência e a brutalidade cega do poder. Compreende-se aqui por que Félix Guattari seja ainda tão citado no Brasil. 2. Há lutas em curso, sobretudo nas escolas secundárias. Lutas que envolveram grande parte dessas instituições em São Paulo e que também passaram para o estado do Paraná. São lutas pelo financiamento público da escola e pela autonomia no ensino. Lutas longas, ocupações que duram meses, conduzidas pelos garotos e garotas e apoiadas pelas famílias. A essas lutas pelas escolas unem-se, com bastante frequência, lutas de estilo argentino, parte dos movimentos feministas, juntos contra a violência sexual e contra a violencia sobre a reprodução (reivindicações: garantia de renda, trabalho doméstico remunerado etc.). Em toda a América Latina, seguem, após a derrota dos governos progressistas, sobretudo lutas nas escolas e lutas conduzidas pelas mulheres. Trata-se de novas frentes sociais – centrais à luta de classe. O conhecimento e a reprodução constituem, de fato, nós essenciais que o capital deve dominar – formas diretas da emergência de um tecido biopolítico sobre o qual se dá o confronto de classe. É ali que se abrem novos espaços sociais de luta anticapitalista. 3. E depois a luta das populações negras, antes de tudo contra a chacina dos inocentes, ou seja, a carnificina contínua dos jovens às bordas das favelas. Mas a questão racial não emerge somente em relação ao genocídio da juventude negra – a questão racial se dá em todas as partes da sociedade brasileira, constitui “a exceção” sobre a qual se funda a “constituição material” do país. Também a questão da pobreza é completamente ligada à dimensão racial-escravagista da sociedade brasileira. Não dá para cogitar que o Brasil entre plenamente na democracia sem que a questão racial seja resolvida. As lutas dos negros e negras constituem, portanto, a verdadeira sublevação da sociedade brasileira. Discuti com jovens companheiros e velhos ativistas negros esta sua conclusão: sem a direção de uma força militante negra, será impossível construir qualquer forma de organização autônoma no Brasil, assim como qualquer tipo de reviravolta política de libertação. 4. As principais forças que hoje se movem no terreno social em São Paulo, particularmente o movimento contra a tarifa dos transportes urbanos e o “movimento dos sem-teto”, conduzem a discussão sobre um terreno instantaneamente político. Esses movimentos, protagonistas das lutas de 2013-2014, o primeiro por ter iniciado, o segundo por ter somado a força de dezenas de milhares de famílias “sem-teto”, são também os que têm uma consistência numérica (quadros de organização) e um respaldo importante da massa. São forças que produzem programa político na metrópole e que, de uma nova forma, constituem contrapoderes sociais no âmbito metropolitano. Na discussão com esses companheiros, o tema do “comum” é central, tornando-se imediatamente evidente – assim como é – pelas lutas contra as tarifas do transporte e também pela moradia. O “comum” pode ser traduzido – dizem esses companheiros – em objetivos imediatamente viáveis. Além disso, o debate destacou a importância da “greve social” como forma de luta que pode unificar as forças que se agitam no contexto metropolitano. Resta o fato de que as grandes manifestações de massa (e pacíficas) são ainda consideradas uma arma fundamental. 5. O que fazer? A conclusão de muitos desses companheiros de movimento está baseada no fato de que o PT tornou-se uma “esquerda branca”, pálida em relação à questão racial e mole ao confrontar políticas neoliberais. O partido perdeu a relação com a sociedade e não poderá mais ser uma locomotiva para o desenvolvimento político. Há, então, que se encontrar forças políticas e construir uma nova organização social e política partindo dos movimentos. A autonomia dos movimentos é agora fundamental para começar uma nova temporada política.E como? O ponto central – como foi visto – será conjugar o (projeto do) comum como tema unificador das lutas. A “renda universal incondicionada biopolítica” é, neste quadro, a trama sobre a qual podem se desenvolver o discurso político e a mobilização de defesa da “bolsa família” e até da gratuidade dos transportes metropolitanos. E, sempre neste quadro, devem ser destacados outros três campos de luta: 1) intervenção sobre escola e conhecimento; 2) sobre o trabalho de reprodução (particularmente o feminino); 3) sobre a questão racial e a pobreza. A primeira intervenção sobre escola e conhecimento é central na atual fase de acumulação capitalista no território cognitivo. Não por acaso a escola se tornou um dos pontos centrais de construção das novas legitimidades neoliberais. Por isso, as lutas em curso no território da escola são estratégicas e nelas podem se construir novas vanguardas. Mas o discurso pode se alargar e provavelmente é deste ponto de vista – este da crítica e da intervenção sobre o conhecimento – que o tema da nova classe média poderá ser enfrentado – porque é aqui, dentro desta composição social e produtiva, que o conhecimento é, sobretudo, explorado. A classe do trabalho intelectual e de serviços já constitui – também no Brasil – a média social e é sobretudo daqui que se extrai a mais-valia. Quanto às lutas sobre a reprodução, a iniciativa argentina me parece ressoar também no Brasil como perspectiva para o movimento. No que tange à questão racial e aos temas da pobreza, já nos pronunciamos. Partindo de São Paulo, talvez se pudesse impor um movimento que combine essas diversas, porém convergentes linhas de ação. Isso foi o que aparentemente pude compreender ao interrogar os movimentos autônomos de São Paulo. * Filósofo marxista italiano, Antonio Negri esteve no Brasil em outubro de 2016 a convite da Universidade de São Paulo (USP). Este texto foi publicado originalmente pela Fundação Rosa Luxemburgo, que também é responsável por sua edição e tradução.