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Dois caminhos

27/10/2008
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Marcos Magalhães*

 

Ao dizer aos leitores de O Estado de S. Paulo por que deveriam votar em Marta Suplicy, o presidente do PT, Ricardo Berzoini, sugeriu que rejeitassem as “forças conservadoras agrupadas em torno de uma visão elitista, preconceituosa e excludente da sociedade”. Visão que – como acusou Berzoini em edição que circulou no dia da reeleição de Gilberto Kassab (DEM) para prefeito de São Paulo, com o apoio do governador José Serra, do PSDB – “permanece viva neste início do século 21 sob a bandeira geral de um moribundo neoliberalismo”.

           

Após conhecer os resultados do segundo turno em Belo Horizonte, onde saiu vitorioso seu ex-secretário de Planejamento Márcio Lacerda (PSB), o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, reiterou a defesa de uma aproximação entre o seu PSDB e o PT. “Não faço relação direta dos resultados de agora com 2010, mas acho que Belo Horizonte e Minas deram ao Brasil uma sinalização de que é possível, sim, superar divergências partidárias”, disse o governador.

 

O canto de guerra de Berzoini e o aceno de paz de Aécio parecem não caber na mesma realidade. Em Minas, terra dos grandes conciliadores, pode ser que prevaleça certa dose de aproximação entre o PSDB e o PT ao longo dos próximos meses. No restante do país, porém, o conflito entre as duas grandes legendas nascidas em São Paulo promete se tornar cada vez mais intenso até 2010, quando serão escolhidos o novo presidente da República e uma tropa de novos governadores.

 

Daqui a dois anos, todos teremos diante de nós duas opções de poder. Nem tão distintas como quer Berzoini, nem tão próximas como desejaria Aécio. Duas opções de poder que, pela atual feição das nuvens rarefeitas no céu de Brasília, tendem a colocar em campos opostos José Serra e a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Ambos começarão a construir desde já essas duas opções de poder. Mas fica desde já uma pergunta: além das duas opções de poder, que opções de país teremos pela frente?

 

Em outras palavras, o PSDB e o PT ficam devendo, a partir de agora, algumas claras explicações. Que rumo os dois pretendem imprimir à economia do país a partir de 2011, quando o mundo – segundo as previsões mais otimistas – começará a emergir da atual crise financeira? Que modelo de educação consideram o mais apropriado para garantir ao Brasil uma posição mais competitiva na economia global? Como pretendem aprofundar as atuais iniciativas de combate à pobreza? De que forma gostariam de estimular o crescimento, no país, das indústrias ligadas à chamada economia criativa?

 

A maneira mais fácil de iludir os eleitores é a de estimular as rivalidades puramente políticas. Fazer da política apenas algo parecido com o futebol. No Brasil discute-se muito a política. E pouco se fala das políticas. Política econômica, política de educação, política de saúde, política de ciência e tecnologia. Tudo isso tem ficado para pequenos grupos de iluminados, que desenham o futuro do país enquanto se trata de entreter a população com temas menos áridos.

 

Berzoini, por exemplo, fala que seus adversários têm uma visão “elitista, preconceituosa e excludente de sociedade”. Ele e seus companheiros do PT terão bastante tempo, nos próximos dois anos, para explicar de que forma o país pode se livrar desse modelo. Por outro lado, ao comentar o resultado das eleições em São Paulo, onde a oposição teve uma clara vitória, Serra disse que “o povo não quer que nenhum partido tenha monopólio de poder”. Também ele poderá tornar mais claro, a partir de agora, que tipo de alternativa pretende apresentar à sociedade em 2010.

 

O Brasil já comemorou os 20 anos da nova Constituição. Vai celebrar, em 2010, 25 anos de retorno da democracia. Já terá então experimentado diferentes etapas, como a consolidação das instituições, a estabilização da moeda e o início do combate à pobreza. A democracia se torna cada vez mais madura, como se pode ver na cobrança de resultados dos prefeitos que acabam de ser eleitos. Os meios de comunicação colocaram à disposição da população as listas das principais promessas dos eleitos. Agora pode ser o momento de se debater menos o adjetivo e mais o substantivo, aquilo que conta de fato para o dia-a-dia de cada um.

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