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Rio de Janeiro está entre as cidades para as quais serão enviados militares no dia da eleição. Foto: Fernando Maia / Riotur
Com a homologação da delação premiada do ex-policial militar Ronnie Lessa sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco, as investigações alcançaram novas proporções a partir do último domingo (24), caminhando para seu desfecho. A Polícia Federal apontou os possíveis mandantes do crime, sendo um deles um deputado federal, Chiquinho Brazão (sem partido-RJ). Especialistas que acompanham o caso consideram que o parlamentar tende a ser abandonado pelos colegas, e que o Legislativo e o Executivo também devem ficar inertes na busca por uma solução para a crise de segurança no Rio de Janeiro.
Segundo o cientista político André Pereira César, a apresentação inquérito policial indicando os irmãos Chiquinho e Domingos Brazão como mandantes do crime, em parceria com ex-chefe da Polícia Civil, demonstra que “a política no Rio de Janeiro está dominada, incrustada, com milícias, pelo narcotráfico, grupos evangélicos e pelo jogo do bicho”, cenário que ao seu ver “é o pior dos mundos” e que pode evoluir para a transformação do estado “em uma nova Colômbia, um novo México”.
Marielle, ao seu ver, foi vítima não apenas de uma ordem supostamente determinada pelos irmãos Brazão, mas pela própria conjuntura local, com a fusão entre agentes de Estado e membros do crime organizado. “O Rio de Janeiro chegou a uma situação insustentável, em que a população fica à mercê de criminosos, que conquistam cada dia novos espaços”.
O sociólogo José Cláudio Souza Alves, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e especialista em violência urbana, ressalta que as consequências da corrosão do Estado no Rio de Janeiro raramente alcançam a repercussão do que foi o caso Marielle. “A maioria dos casos não vem à tona. A estrutura está dentro do estado, e a organização dessas forças criminais é muito forte. Ela tem conexões políticas importantes, conexões econômicas.”
Por outro lado, os dois consideram que o destino de Chiquinho Brazão está selado. “Ele virou um elemento tóxico para o Congresso Nacional. Nenhum parlamentar vai querer aparecer ao lado de um suspeito de matar a Marielle, menos ainda em um momento de eleição municipal, em que eles precisam sustentar suas bases eleitorais”, explicou André César. José Cláudio acrescenta que, além do provável abandono pelos políticos como um todo, a punição do deputado virou uma “questão de honra” para a esquerda.
Menos de 24 horas após a sua prisão preventiva, Chiquinho Brazão foi expulso de seu próprio partido, o União Brasil. André César acredita que sua situação tenha alcançado o próprio limite do corporativismo por parte da Câmara: temendo que a manutenção de seu cargo comprometa a imagem do Parlamento como um todo, a tendência maior, na sua visão, é de uma rápida decisão do Conselho de Ética em favor de sua cassação.