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Presidente da Assembleia Nacional Constituinte, Ulysses Guimarães era um dos principais alvos do SNI. Foto: Arquivo/EBC
Conhecido como “Senhor Diretas”, por ter liderado há exatos 40 anos o histórico movimento por eleições populares para presidente, Ulysses Guimarães continuou a ser vigiado pelo Serviço de Nacional de Informações (SNI), principal máquina de espionagem implantada pela ditadura militar, mesmo após a redemocratização do país.
Um processo de espionagem que se estendeu do governo de José Sarney (1985-1990) para além da data de extinção do órgão, em março de 1990, tão logo Fernando Collor de Mello (1990-1992) assumiu a Presidência da República. Grande articulador da Constituição de 1988, o ex-presidente da Assembleia Constituinte e da Câmara não era alvo isolado. Parlamentares dos mais diversos partidos e jornalistas que cobriam política em Brasília naquele período também foram monitorados pelo SNI [veja documentos na galeria mais abaixo].
É o que revelam documentos que constam do Arquivo Nacional obtidos pelo Congresso em Foco. Conversas entre jornalistas e congressistas ou outras autoridades eram registradas e reunidas em relatório pelo serviço de informações, criado pelo governo militar em 1964 para assessorar o presidente da República e o Conselho de Segurança Nacional. As apurações dos jornalistas credenciados eram usadas, na prática, para revelar os bastidores políticos, aquilo que se dizia nos corredores do Congresso, mas que nem sempre saía estampado nas páginas dos jornais.
"Sorrateiro e ardiloso"
[caption id="attachment_597017" align="aligncenter" width="645"]Lista de jornalistas
Os arquivos eram tratados como confidenciais. A leitura dos documentos não permite concluir se o SNI contava com agentes próprios infiltrados nos comitês de imprensa da Câmara e do Senado, ou se o órgão era abastecido com informações repassadas por repórteres informantes. Uma certeza, porém, salta aos olhos. Para o Serviço Nacional de Informações, os inimigos ainda eram os mesmos do período da ditadura (1964-1985): a esquerda, os jornalistas e o comunismo. Essa visão transparece em vários registros. Um deles, inserido no sistema do SNI em dezembro de 1989, levou o sugestivo título “Esquerdas controlam matéria jornalística no Congresso Nacional”. O documento reunia também listas com os nomes de todos os jornalistas e veículos credenciados na Câmara, no Senado e no Palácio do Planalto. “Um grupo de jornalistas credenciados no Congresso Nacional, tidos como de ‘esquerda’, estariam filtrando, de acordo com suas conveniências político-ideológicas, todas as notícias que são veiculadas pela imprensa escrita e televisada, naquela Casa”, descreve trecho do relatório. O texto prossegue: “Segundo declarações de jornalistas credenciados no Congresso Nacional, ‘as esquerdas’ contam com um fator fundamental naquela Casa Legislativa: ‘o controle das comunicações’, ou seja, toda a notícia que é veiculada através da imprensa escrita e televisada tem a interferência do grupo”. Com o monitoramento de jornalistas no Congresso, o SNI buscava informações privilegiadas obtidas por profissionais de imprensa no livre exercício de suas funções devidamente credenciados pela Câmara e pelo Senado. Nos arquivos, há relatos de conversas informais entre parlamentares e jornalistas, quebra de confidencialidade de entrevistas concedidas sob condição de anonimato (o chamado off, no jargão jornalístico), informações repassadas por representantes de governos estrangeiros, alguns deles de países comunistas. Passe a seta para ver os documentos: [gallery size="full" ids="597012,597022,597021,597009,597010,597008,597006,597011"]Sarney nega; Collor se cala
Procurado pelo Congresso em Foco, o ex-presidente José Sarney e o porta-voz de seu governo, Fernando César Mesquita, negaram ter conhecimento da produção desse tipo de trabalho do SNI em sua gestão.Sigilo quebrado
O SNI também descrevia conversas reservadas entre parlamentares e jornalistas, quebrando o princípio norteador do sigilo da fonte. Em documento registrado em fevereiro de 1988, é feito um alerta sobre uma possível campanha de desmoralização do presidente José Sarney. “O deputado federal Alberico Cordeiro da Silva (PMDB-AL), em conversa com jornalistas credenciados junto ao Congresso Nacional, afirmou que chegou ao seu conhecimento que alguns parlamentares - não citou quais e de que partidos políticos - estariam fazendo levantamento de bens e renda dos familiares do presidente da República, José Sarney, com o intuito de desmoralizar o presidente e fazer pressões políticas. Tal levantamento, segundo Alberico Cordeiro, seria divulgado através da imprensa em caráter nacional.” De acordo com outro relatório, de setembro de 1988, semanas antes da promulgação da Constituição Federal, lideranças do governo relataram a jornalistas, sob condição de anonimato, que o governo estava “completamente sem comando” no Congresso. Segundo as fontes citadas - uma delas, líder do governo à época -, Sarney não orientou o que o governo queria na votação do segundo turno do texto constitucional. Faltava, conforme o relato atribuído a esses parlamentares em conversas com jornalistas, uma assessoria competente ao presidente.Relatórios após a extinção
A extinção do SNI foi uma das promessas de campanha de Collor, cumprida em seu primeiro dia de mandato. Mesmo com a dissolução do órgão em março de 1990, e a criação da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE), relatórios continuaram a ser produzidos e atribuídos ao Serviço Nacional de Informações. A informação foi confirmada ao Congresso em Foco pelo Arquivo Nacional. “A SAE manteve o quadro de servidores e a sede física do antigo SNI”, explica o órgão por meio de sua assessoria. “E na leitura dos documentos que a SAE produziu é possível perceber que algumas atividades e formas de trabalhar do antigo SNI permaneceram”, esclarece. Segundo o Arquivo, não há como informar se os documentos produzidos entre 1985 e 1990 foram repassados aos presidentes da República.Arquivo confidencial
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