Uma das maiores curiosidades da eleição presidencial de 2026 está nos partidos que decidiram não ter candidato algum.
Enquanto Lula conseguiu reunir sete partidos (PT, PCdoB, PV, PSB, Psol, Rede e PDT) em torno de sua candidatura, partidos importantes do centro e da centro-direita preferiram ficar fora da disputa presidencial. MDB, a federação União Progressista e o Republicanos declararam neutralidade.
O movimento chama atenção pelo contraste com as eleições anteriores. A neutralidade simultânea dessas legendas rompe um padrão recente no qual elas normalmente lançavam candidatos próprios ou aderiam formalmente a uma candidatura presidencial.
No caso do MDB, é a primeira vez em 20 anos que o partido chega à eleição sem candidatura própria nem apoio nacional a outro presidenciável. A última neutralidade havia ocorrido em 2006. Desde então, a legenda participou diretamente das disputas nacionais: esteve na chapa de Dilma Rousseff com Michel Temer em 2010 e 2014, lançou Henrique Meirelles em 2018 e Simone Tebet em 2022.
O Republicanos em 2018, quando ainda se chamava PRB, integrou a coligação de Geraldo Alckmin, do PSDB. Em 2022, oficializou em convenção nacional seu apoio à reeleição de Jair Bolsonaro.
O PP em 2018 integrou o grupo de partidos que apoiou formalmente Geraldo Alckmin. Em 2022, a convenção nacional da legenda aprovou por unanimidade a coligação com Jair Bolsonaro. Enquanto o União Brasil com uma história mais curta, em 2022 lançou candidatura própria: Soraya Thronicke concorreu à Presidência em uma chapa puro-sangue com Marcos Cintra.
Não se trata, portanto, apenas de quatro partidos sem candidato. A novidade está na escala da opção pela neutralidade. Legendas que nas eleições recentes procuravam participar da disputa presidencial, lançando nomes próprios ou aderindo formalmente a uma candidatura decidiram que, em 2026, não o fariam.
À primeira vista, pode parecer sinal de fraqueza, para os partidos, incapazes de produzir um candidato próprio ou de escolher um dos principais concorrentes, e, dos candidatos, que não conseguem aglutinar apoio suficiente para sua chapa.
Talvez seja exatamente o contrário, em 2026, a neutralidade tornou-se um ativo eleitoral.
O MDB quando decidiu liberar seus diretórios estaduais afirmou que era necessário compreender "a realidade e o histórico eleitoral de cada Estado" e colocou como prioridade eleger governadores, senadores e deputados. Seu presidente, Baleia Rossi, argumentou que a liberação nacional fortaleceria o partido nos Estados. Não é difícil entender por quê.
Em Alagoas, o candidato do MDB ao governo é Renan Filho, aliado de Lula. Em São Paulo, Felício Ramuth, também do MDB, disputa novamente a vice na chapa de Tarcísio de Freitas, uma das principais lideranças da direita.
Qual seria a vantagem de o MDB nacional obrigar os dois a defender o mesmo presidenciável?
Se escolhesse Lula, elevaria o custo eleitoral de seus correligionários paulistas. Se escolhesse o candidato do PL, produziria o movimento inverso em Alagoas e em outros Estados onde suas lideranças estão próximas do campo governista.
A neutralidade resolve o problema: o MDB nacional não escolhe para que o MDB estadual possa escolher melhor.
O caso da Federação União Progressista é ainda mais revelador. União Brasil e PP decidiram não assumir uma candidatura presidencial e liberaram seus integrantes para seguir as circunstâncias estaduais. Quando se observa o mapa das coligações, a suposta neutralidade nacional se transforma em uma impressionante variedade regional.
O levantamento das convenções mostra a federação ao lado do PL em Estados como Acre, Bahia, Ceará, Goiás, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul, São Paulo e Tocantins. Mas ela aparece junto ao PT ou à Federação Brasil da Esperança no Amapá, Pará, Paraíba e Sergipe.
Na Bahia, ACM Neto, do União Brasil, concorre ao governo em uma coligação que inclui o PL. No Amapá, Clécio Luís, também do União, lidera uma aliança que reúne União Progressista, PDT, Republicanos e a federação formada por PT, PCdoB e PV. Na Paraíba, Lucas Ribeiro, do PP, encabeça uma coligação da qual participam PSB, PT, PCdoB, PV, Psol, Rede e Republicanos.
O que parece incoerência quando visto do ponto de vista nacional ganha racionalidade quando observado dos estados.
O Republicanos oferece outro exemplo. Nacionalmente, o partido decidiu pela neutralidade depois de ouvir seus diretórios: 17 defenderam essa posição, nove preferiam uma aliança com o PL e apenas um informou preferência por Lula. Na Paraíba, porém, Hugo Motta declarou apoio à reeleição do presidente.
Esse jogo de cintura dos partidos trata-se de uma característica antiga e importante do sistema político brasileiro: eleições nacionais e estaduais acontecem simultaneamente, mas os interesses dos partidos nem sempre coincidem entre esses níveis.
Os professores André Borges e Ryan Lloyd, ao estudarem coordenação eleitoral e o efeito de arrasto de uma candidatura majoritária sobre outras no artigo "Presidential coattails and electoral coordination in multilevel elections: Comparative lessons from Brazil", mostram que o federalismo brasileiro cria incentivos contraditórios. Associar-se a um presidenciável forte pode beneficiar candidatos estaduais. Mas subordinar a estratégia regional à nacional também pode obrigar partidos a abandonar candidaturas ou entrar em alianças pouco vantajosas localmente.
É precisamente esse custo que MDB, União, PP e Republicanos tentam evitar. Em vez de verticalizar a eleição com Brasília dizendo aos Estados com quem devem caminhar, eles fazem o movimento contrário: regionalizam a escolha presidencial.
Há ainda outro componente novo, Cláudio Couto, Fernando Abrucio e Marco Antonio Carvalho Teixeira argumentam, no artigo: "O caleidoscópio eleitoral de 2026: eleições congressuais, federalismo e disputa presidencial", que o sistema político brasileiro se tornou mais policêntrico. O fortalecimento do controle do Congresso sobre o orçamento aumentou a importância estratégica das eleições legislativas e reduziu a dependência dos partidos em relação à Presidência da República.
Isso ajuda a compreender por que ficar sem candidato presidencial pode ser hoje menos traumático do que já foi.
Para um partido com boas perspectivas de eleger dezenas de deputados, senadores e governadores, a Presidência é apenas uma das portas de entrada para o poder. Uma grande bancada continuará sendo necessária a Lula, Flávio Bolsonaro, Caiado ou qualquer outro presidente eleito em outubro.
Para parte do centro brasileiro, apostar em um presidenciável no primeiro turno pode significar ganhar pouco nacionalmente e perder muito regionalmente. A neutralidade permite adiar a escolha. E adiar a escolha também aumenta o valor político de quem será procurado depois da eleição.
Lula e a esquerda
Na esquerda, a lógica é diferente, PT, PCdoB, PV, PSB, Psol e Rede não precisam decidir entre vários candidatos competitivos e ideologicamente próximos. Lula organiza esse campo político.
Além disso, Lula não funciona apenas como candidato presidencial desses partidos. Em muitos estados, funciona como ativo eleitoral: um presidenciável conhecido e competitivo que fornece ao candidato estadual uma marca, um atalho para o eleitor e uma maneira simples de localizar-se politicamente. Não por acaso, até políticos que não pertencem formalmente à coligação nacional procuram a associação com Lula.
Na Paraíba, Hugo Motta, do Republicanos, aproveitou a liberdade concedida pela neutralidade nacional para declarar apoio ao presidente. No Amapá, a candidatura de Clécio Luís, do União Brasil, está em uma coligação estadual com a federação petista. São políticos de partidos neutros nacionalmente que encontram, localmente, valor eleitoral no palanque lulista.
Para o centro, nacionalizar a disputa pode ser caro porque suas bases eleitorais são heterogêneas. O mesmo partido precisa conviver com eleitorados e aliados muito diferentes em São Paulo, Alagoas, Bahia, Amapá ou Paraíba.
Para boa parte da esquerda, nacionalizar a disputa em torno de Lula produz menos atrito, porque existe maior congruência entre identidade partidária, eleitorado e candidatura presidencial.
E as chapas puro-sangue?
PSD, Novo e Missão decidiram disputar a Presidência com chapas formadas integralmente por seus próprios quadros: Ronaldo Caiado e Gilberto Kassab pelo PSD; Romeu Zema e Eduardo Girão pelo Novo; Renan Santos e Aroldo Medina pelo Missão.
Esses partidos fazem cálculo diferente daquele adotado pelo MDB ou pela União Progressista.
Mesmo sem construir grandes coligações, consideram que disputar a Presidência tem valor: nacionaliza a marca partidária, dá exposição a suas lideranças, organiza militantes, oferece palanque aos candidatos proporcionais e constrói capital político para o futuro.
Temos, portanto, três estratégias convivendo na mesma eleição:
i) a esquerda se coordena em torno de Lula;
ii) alguns partidos lançam chapas próprias para construir uma alternativa nacional; e
iii) uma parcela relevante do centro prefere não entrar na disputa presidencial para manter abertas suas opções estaduais.
Talvez essa seja uma das características mais interessantes das eleições de 2026.
Durante muito tempo, analisar uma eleição brasileira significava começar pela pergunta: quem apoia quem para presidente?
Neste ano, para compreender parte importante do sistema partidário, talvez seja necessário inverter a questão: quanto custa, para cada partido, escolher um presidente?
Para MDB, União Brasil, PP e Republicanos, a resposta parece ser: em alguns Estados, custa mais escolher do que permanecer neutro.
Por isso, não escolher também virou uma escolha.
E talvez uma das mais calculadas desta eleição.
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