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Eleições 2026
29/9/2026 17:14
A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) anunciou, em 21 de agosto, sete novos integrantes para a formulação de seu programa econômico. Com a entrada deles, o grupo passou a ter nove nomes, sob a coordenação de Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal, e de Adolfo Sachsida, ex-ministro de Minas e Energia no governo Bolsonaro. O time defende ajuste nas contas públicas, corte de impostos e mudanças nas regras trabalhistas, mas ainda não apresentou uma meta fiscal nem estimativas para o impacto das medidas. A questão não é apenas quem compõe a equipe, mas quais propostas cada integrante leva à mesa.
Daniella Marques se tornou o nome de maior projeção da equipe, por reunir experiência no mercado financeiro e em posições-chave na gestão econômica do governo Bolsonaro. Antes de assumir a presidência da Caixa, ela foi assessora especial de Paulo Guedes no Ministério da Economia e participou diretamente da articulação de temas econômicos e institucionais. Na campanha, sua presença dá à coordenação uma figura com experiência tanto na interlocução com o setor privado quanto na administração pública.
O núcleo econômico é formado, em grande medida, por nomes que passaram pela estrutura construída em torno de Paulo Guedes. Adolfo Sachsida, servidor de carreira do Ipea desde 1997, foi secretário de Política Econômica e depois ministro de Minas e Energia. À frente da pasta, conduziu a etapa final da capitalização da Eletrobras e defendeu estudos sobre uma eventual desestatização da Petrobras.
Alexandre Messa construiu carreira no Ipea e ocupou funções no governo federal ligadas à formulação e à avaliação de políticas econômicas. Alexandre Ywata também tem trajetória no instituto, onde atuou em posições de direção e gestão, além de participação na estrutura do Ministério da Economia. Vladimir Kühl Teles combina experiência acadêmica com atuação no governo, tendo ocupado cargos vinculados à área econômica. Myrian Prado, por sua vez, participou da equipe econômica federal e tem experiência em temas de gestão pública e formulação de políticas.
Ao lado desse núcleo, há os profissionais de mercado. Andrei Spacov, PhD por Berkeley e economista-chefe da Exploritas, trabalha há mais de duas décadas no mercado financeiro. Eduardo Cavendish Carvalho vem da assessoria de investimentos. Arilton Teixeira, doutor pela Universidade de Minnesota, tem produção acadêmica em finanças internacionais, comércio internacional e crescimento econômico, além de passagem como economista-chefe no setor privado.
A composição da equipe aproxima a campanha de quadros com passagem pela formulação e execução de políticas econômicas durante o governo Bolsonaro, inclusive em áreas associadas à agenda de desestatização. Essa continuidade aparece nas trajetórias e nos cargos ocupados por alguns de seus integrantes. Ainda assim, sem a divulgação de um programa detalhado, não é possível concluir que todos compartilhem uma plataforma fiscal ou econômica única.
O perfil divulgado da equipe é predominantemente econômico. Reúne servidores e ex-gestores públicos, profissionais do mercado financeiro e pesquisadores com atuação em macroeconomia, política fiscal, finanças, estatística e infraestrutura.
Por enquanto, as apresentações públicas oferecem mais elementos sobre essa formação do que sobre eventuais especialistas dedicados à agenda trabalhista. Isso não define, por si só, quais serão as propostas da campanha nem exclui a participação de outros assessores no tema. Indica apenas que, entre os nomes anunciados, a ênfase recai sobre economia e gestão pública, justamente em uma campanha na qual o debate sobre trabalho tende a ganhar relevância.
O plano, intitulado "Para o Brasil Vencer o Atraso" tem dois eixos fiscais, um trabalhista e uma meta de crescimento. Nesse quarto eixo, a campanha propõe dobrar o ritmo de expansão da economia, de uma média de 2% ao ano nas últimas duas décadas para um crescimento sustentado de 4% ao ano ao longo da próxima década, apoiado em investimento privado, segurança jurídica e R$ 900 bilhões em infraestrutura ao longo de quatro anos. No lado fiscal, promete o corte de ao menos dez ministérios, redução de cargos comissionados e cerca de R$ 190 bilhões em economia de gastos, segundo estimativa da própria equipe, o equivalente a 1,5% do PIB. No lado tributário, propõe reduzir a alíquota padrão do IVA criado pela reforma tributária, que a campanha estima poder chegar a 30%, para algo em torno de 20%, patamar declarado por Flávio em evento da Confederação Nacional da Indústria em 22 de junho de 2026, citando como referência a média de 19% dos países da OCDE, revisando exceções e regimes especiais. O número de R$ 190 bilhões em cortes foi anunciado por Daniella Marques, e passou a constar do plano de governo protocolado no TSE. São projeções e metas da própria equipe de campanha, não estimativas de terceiros, e devem ser lidas como tal.
O terceiro eixo é a PEC 12/2026, que autoriza contratos de trabalho remunerados por hora, com jornadas flexíveis definidas em acordo individual entre empregado e empregador, além de contratos especiais para jovens de 18 a 24 anos e trabalhadores acima de 50. A proposta tramitou em rito acelerado no Senado, em contraste com o andamento mais lento da PEC que acaba com a escala 6x1 na Câmara, o que a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (Contee) apontou como sinal de prioridade política. Para a Contee, a medida flexibiliza direitos trabalhistas e amplia a precarização das relações de trabalho. A leitura da equipe econômica é outra: o custo de contratação formal no Brasil equivale, segundo a campanha, ao dobro do salário efetivamente recebido pelo trabalhador, e reduzir esse custo formalizaria parte da informalidade em vez de baixar salários. As duas posições partem de premissas diferentes sobre a elasticidade da oferta de trabalho ao custo de contratação, uma pergunta empírica que nenhum dos dois lados, até aqui, sustentou com dados brasileiros específicos.
A coerência do plano depende de qual das duas alas prevalece na hora da execução. O ajuste fiscal ortodoxo, corte de gastos e revisão tributária, é a marca da ala Ipea/Guedes, testada nos governos Temer e Bolsonaro com resultados mistos. Em parte, reduziu o núcleo de despesa discricionária, mas não alterou a trajetória de longo prazo da dívida pública, hoje acima de 82% do PIB, segundo o Banco Central. A reforma trabalhista por hora é uma aposta nova, sem precedente de implementação em escala no Brasil e sem os mesmos nomes técnicos por trás dela. Um plano que promete estabilidade fiscal e ao mesmo tempo uma mudança estrutural não testada no mercado de trabalho carrega um risco de execução que a equipe, até agora, não precificou publicamente.
Do ponto de vista distributivo, o corte de R$ 190 bilhões incide sobre o gasto público, e o plano ainda não divulgou qual parcela vem de investimento, qual vem de custeio e qual vem de transferência a Estados e municípios, distinção que determina quem perde primeiro. A manutenção do Bolsa Família como porta de entrada para o emprego, em vez de programa a extinguir, é o ponto em que a equipe se afasta do liberalismo mais ortodoxo do primeiro governo Bolsonaro e se aproxima da posição, hoje aceita por economistas de escolas diferentes, de que transferência de renda condicionada tem retorno social documentado. Na reforma trabalhista, o grupo com chance real de ganho imediato é o trabalhador informal que pode se formalizar; o grupo em risco é o trabalhador formal cuja empresa usar a nova modalidade para substituir contrato integral por contrato por hora, hipótese que a proposta não veda de forma explícita.
No horizonte de longo prazo, o diagnóstico da equipe sobre o Custo Brasil, carga tributária elevada, burocracia regulatória e baixa produtividade, tem base ampla na literatura sobre o tema, da qual economistas como Armínio Fraga e Marcos Lisboa já trataram em diagnósticos convergentes, ainda que a partir de escolas distintas. A ausência de uma meta fiscal numérica que ancore a trajetória da dívida no médio prazo são o calcanhar de Aquiles dessa gestão. Prometer o instrumento sem divulgar seu valor deixa um espaço em branco no plano apresentado até aqui.
A equipe de Flávio Bolsonaro reúne currículo técnico e apresenta um diagnóstico econômico que deve ser debatido. Falta transformar essa capacidade em metas, estimativas e premissas públicas, pois, sem uma trajetória para dívida e resultado primário, sem custo das desonerações e sem fonte de compensação, o plano permanece no campo das diretrizes.
Como defensor de uma economia realmente aplicada, espero que a boa execução das políticas públicas se converta na melhoria de vida que a população espera, com renda, emprego, serviços públicos e estabilidade de preços. Esse país precisa de propostas que possam ser medidas e cobradas, não de promessas sem meta, prazo ou responsabilidade sobre seus custos.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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