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A ONU e os desafios da governança global da inteligência artificial

Debate na ONU reforça necessidade de cooperação internacional para limitar riscos, garantir direitos e evitar concentração de poder tecnológico.

24/8/2026
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A inteligência artificial ocupa posição ambígua nas sociedades contemporâneas, uma vez que, ao mesmo tempo em que promove inovação e amplia capacidades humanas, também cria novos centros de poder capazes de influenciar decisões econômicas, políticas e sociais sem mecanismos equivalentes de transparência e controle. Essa preocupação não é recente. Em The Black Box Society: The Secret Algorithms That Control Money and Information ("A Sociedade da Caixa-Preta: Os Algoritmos Secretos que Controlam o Dinheiro e a Informação", tradução dos autores), Frank Pasquale (2015) demonstra como a dependência de sistemas algorítmicos opacos pode deslocar decisões relevantes para estruturas pouco acessíveis à fiscalização pública, favorecendo a concentração de poder informacional e dificultando a responsabilização dos agentes envolvidos. Nesse cenário, a governança global da IA busca responder a uma questão central: como assegurar que uma tecnologia capaz de reorganizar relações sociais e estruturas de poder permaneça submetida a parâmetros democráticos, jurídicos e éticos? A velocidade de seu desenvolvimento, diante da ausência de padrões internacionais uniformes, revela a urgência de construir mecanismos de cooperação, supervisão e responsabilização capazes de acompanhar a expansão dessa tecnologia e impedir que seu poder se desenvolva à margem do controle democrático.

Imerso nesse contexto, a Organização das Nações Unidas (ONU) promoveu, nos dias 6 e 7 de julho de 2026, em Genebra, a primeira sessão do Global Dialogue on AI Governance (Diálogo Global sobre Governança da Inteligência Artificial, tradução dos autores), fórum criado pela Assembleia Geral com o objetivo de estruturar um espaço permanente de cooperação internacional sobre os desafios relacionados à inteligência artificial. O encontro foi precedido por um amplo processo de consultas públicas iniciado em janeiro deste ano, que recebeu mais de 1,5 mil contribuições de diferentes segmentos. Entre os principais temas, destacaram-se transparência, responsabilização, supervisão humana, inclusão digital e cooperação internacional, além do descompasso entre os instrumentos regulatórios e a velocidade do desenvolvimento tecnológico, também apontado pelo Painel Científico Internacional Independente sobre IA (Tele.síntese, 2026).

Na sessão inaugural, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, sintetizou o desafio contemporâneo ao afirmar que a questão central consiste em decidir se a humanidade será capaz de governar conjuntamente a IA ou se permitirá que a própria tecnologia passe a condicionar as escolhas das sociedades (ONU, 2026). Como prioridades para essa governança, Guterres destacou quatro eixos fundamentais. O primeiro consiste na construção de padrões internacionais comuns para avaliação de riscos e segurança dos sistemas de IA, com especial atenção à proteção de crianças e adolescentes. O segundo estabelece os direitos humanos como limites inegociáveis, reafirmando que, em decisões de alto risco — como justiça, saúde e segurança pública — a IA deve servir como ferramenta de apoio, sem substituir a supervisão e a decisão humana. O terceiro eixo propõe o fortalecimento das capacidades dos países, especialmente daqueles em desenvolvimento, por meio da criação de uma Rede Global de Cooperação e de um futuro Fundo Global para IA. Por fim, o quarto eixo enfatiza a necessidade de maior transparência quanto aos impactos ambientais da IA, defendendo que as empresas divulguem informações sobre o consumo de energia, água, emissões de carbono e uso de recursos naturais decorrentes da operação de seus sistemas (ONU, 2026).

Avanço da IA amplia discussões sobre transparência, direitos humanos, desigualdade, impactos ambientais e concentração de dados.Magnific

O quarto eixo proposto por Guterres chama atenção ao revelar que os desafios da IA extrapolam questões técnicas e regulatórias, alcançando também dimensões ambientais e sociais. Ao defender transparência sobre o consumo de energia, água e recursos naturais, aproxima-se da reflexão de Crawford em Atlas of AI: Power, Politics, and the Planetary Costs of Artificial Intelligence ("Atlas da IA: Poder, Política e os Custos Planetários da Inteligência Artificial", tradução dos autores). Crawford sustenta que os impactos da computação em larga escala alcançam "[...] a atmosfera, os oceanos, a crosta terrestre e as condições de vida das populações mais desfavorecidas do planeta" (Crawford, 2021, p. 28). Assim, a IA depende de infraestrutura, recursos naturais e cadeias produtivas globais, revelando dimensões materiais e relações de poder que permanecem muitas vezes invisíveis.

Outrossim, à luz da teoria de Castells, desenvolvida em "A sociedade em rede" (1999), a inteligência artificial pode ser compreendida como um desdobramento da sociedade em rede, na qual as estruturas sociais, econômicas e políticas se organizam em torno de fluxos globais de informação. Nesse contexto, a IA não apenas otimiza processos, mas também reconfigura relações de poder, produz subjetividades e intensifica desigualdades informacionais, tornando necessária uma reflexão sobre soberania digital e concentração de dados. Essa dinâmica relaciona-se à centralidade dos dados na economia contemporânea, analisada por Couldry e Mejias (2019), em The Costs of Connection: How Data Is Colonizing Human Life and Appropriating It for Capitalism ("Os Custos da Conexão: Como os Dados Estão Colonizando a Vida Humana e Apropriando-se dela para o Capitalismo", tradução dos autores). Para os autores supracitados, a extração contínua de informações das interações humanas transforma dados pessoais em recursos econômicos estratégicos, incorporando comportamentos, relações sociais e práticas cotidianas às lógicas de acumulação capitalista.

Ademais, essa perspectiva aproxima-se da análise desenvolvida por Zuboff (2019), em The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power ("A Era do Capitalismo de Vigilância: A Luta por um Futuro Humano na Nova Fronteira do Poder", tradução dos autores), ao sustentar que as grandes empresas de tecnologia passaram a explorar dados comportamentais como matéria-prima para prever e influenciar ações humanas. Nesse modelo, denominado por Zuboff de "capitalismo de vigilância", a coleta massiva de informações deixa de ter como finalidade exclusiva a melhoria de serviços digitais e passa a constituir uma estrutura econômica baseada na antecipação, modificação e direcionamento de comportamentos. Assim, os sistemas de IA inserem-se em uma arquitetura econômica marcada pela assimetria entre quem fornece informações e quem detém capacidade para transformá-las em poder.

Nesse sentido, o diálogo da ONU evidencia que a governança da IA exige cooperação entre Estados, organizações internacionais, setor privado, comunidade científica e sociedade civil. O desafio não se limita à criação de padrões comuns, mas à garantia de transparência, responsabilização e princípios democráticos, evitando que a concentração de dados e capacidades tecnológicas aprofunde desigualdades e comprometa a autonomia dos indivíduos.

Referências

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. 8. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999. (A era da informação: economia, sociedade e cultura, v. 1).

COULDRY, Nick; MEJIAS, Ulises Ali. Resistance to the new data colonialism must start now. Al Jazeera, 28 abr. 2020. Disponível aqui. Acesso em: 14 jul. 2026.

CRAWFORD, Kate. Atlas of AI: power, politics, and the planetary costs of artificial intelligence. New Haven: Yale University Press, 2021.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. ONU inicia diálogo global sobre governança da IA. 6 jul. 2026. Disponível aqui. Acesso em: 7 jul. 2026.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Primeiro Diálogo Global sobre Governança da Inteligência Artificial (IA): discurso do Secretário-Geral António Guterres na abertura do primeiro Diálogo Global sobre Governança da Inteligência Artificial (IA), Genebra, 6 jul. 2026. Disponível aqui. Acesso em: 7 jul. 2026.

PASQUALE, Frank. The Black Box Society: The Secret Algorithms That Control Money and Information. Cambridge: Harvard University Press, 2015.

UNITED NATIONS REGIONAL INFORMATION CENTRE FOR WESTERN EUROPE (UNRIC). ONU alerta para corrida desenfreada da IA e pede regras globais urgentes. 2 jul. 2026. Disponível aqui. Acesso em: 7 jul. 2026.

UNESCO. Recommendation on the Ethics of Artificial Intelligence. Paris: UNESCO, 2021. Disponível aqui. Acesso em: 1 jun. 2026.

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Tradução de George Schlesinger. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.


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