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Eleições 2026

Por que a direita tem tantos candidatos e a esquerda só tem Lula?

A multiplicidade de nomes disputando a Presidência pela direita contrasta com a candidatura única de Lula pela esquerda e revela dilemas distintos: coordenação de um lado e sucessão do outro.

Samuel Carioca

Samuel Carioca

24/8/2026 14:00

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À primeira vista, a eleição presidencial de 2026 apresenta uma assimetria curiosa. De um lado, a direita chega à disputa com vários nomes que, em graus diferentes, possuem alguma projeção nacional: Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos e Augusto Cury. Pablo Marçal, do PRTB, também é pré-candidato e mantém grande capacidade de mobilização nas redes, mas segue inelegível por decisão do TRE-SP e, por ora, está fora do cálculo eleitoral.

Do outro lado, praticamente toda a competitividade eleitoral da esquerda está concentrada em Lula. A afirmação exige uma ressalva. Lula não é literalmente o único candidato de esquerda. Edimilson Costa (PCB), Hertz Dias (PSTU), Rui Costa Pimenta (PCO) e Samara Martins (UP) também estão na disputa. Nenhum deles, porém, aparece hoje como competitivo em escala nacional.

Na pesquisa BTG/Nexus divulgada em 17 de agosto, Lula registra 41% das intenções de voto no primeiro turno, seguido por Flávio Bolsonaro, com 36%. Ronaldo Caiado aparece com 5%, enquanto Renan Santos e Romeu Zema têm 4% cada. Outros levantamentos de agosto apresentam diferenças nos percentuais, mas reproduzem o mesmo desenho geral, Lula lidera, Flávio concentra a maior parcela do voto oposicionista e os demais candidatos de direita permanecem em patamares inferiores.

A questão mais interessante, portanto, não é simplesmente quantos candidatos existem de cada lado. É porque a direita consegue produzir diferentes lideranças com alguma capacidade de disputar espaço nacional, enquanto, na esquerda, a competitividade permanece praticamente toda concentrada em Lula. A explicação passa menos pela conversão ideológica do eleitor brasileiro e mais pela forma como os dois campos políticos se organizaram nas últimas décadas.

Multiplicidade de candidaturas à direita contrasta com concentração da competitividade da esquerda em Lula e expõe desafios distintos para os dois campos políticos.

Multiplicidade de candidaturas à direita contrasta com concentração da competitividade da esquerda em Lula e expõe desafios distintos para os dois campos políticos.Ricardo Stuckert

O sucesso do PT e o problema da sucessão

Um dos traços mais conhecidos do sistema partidário brasileiro é a excepcionalidade organizacional do PT. Em um ambiente historicamente marcado por fragmentação partidária, o partido construiu uma organização nacional relativamente institucionalizada, com identidade programática, militância, regras internas e presença territorial.

Durante décadas, isso representou uma enorme vantagem eleitoral. Mas também produziu um efeito colateral. A consolidação do PT como principal partido da esquerda ocorreu simultaneamente à centralidade de Lula. O partido se tornou maior do que seus concorrentes nesse campo e Lula, eleitoralmente, tornou-se ainda maior do que o próprio partido. Desde 1989, praticamente toda a estratégia presidencial petista foi construída em torno dele ou de nomes escolhidos sob sua liderança.

Essa combinação reduz os incentivos para que novos competidores surjam dentro do mesmo campo político. Por que um governador, senador ou ministro de esquerda tentaria construir uma candidatura presidencial contra Lula enquanto o presidente permanece eleitoralmente competitivo?

O custo seria elevado. O eventual candidato teria de disputar eleitores, partidos, lideranças e recursos políticos já organizados em torno de Lula. Se fracassasse, poderia terminar a eleição politicamente menor do que começou. Quanto mais dominante Lula permanece, menor o incentivo para que seu sucessor apareça.

A eleição de 2018 ajuda a visualizar esse mecanismo. Lula continuava politicamente central, mas não pôde estar na urna. Sua ausência abriu espaço para que diferentes projetos disputassem o eleitorado situado entre a esquerda e o centro. Além de Fernando Haddad, lançado pelo PT em sua substituição, concorreram Ciro Gomes pelo PDT, Guilherme Boulos pelo PSOL e Marina Silva pela Rede.

Existiam diferenças importantes entre essas candidaturas. Boulos representava uma alternativa claramente à esquerda do PT; Ciro ocupava um espaço de esquerda ou centro-esquerda, marcado por uma agenda nacional-desenvolvimentista; Marina, embora oriunda da esquerda e associada historicamente a pautas progressistas e ambientais, já buscava uma posição mais transversal e próxima do centro.

Ciro terminou aquela eleição com 12,5% dos votos. Marina e Boulos ficaram próximos de 1%. O ponto é que a ausência de Lula na urna aumentou os incentivos para que outros atores tentassem ocupar seu espaço.

Em 2026 ocorre o contrário. Lula reúne duas vantagens simultaneamente:

i) é a principal liderança eleitoral da esquerda; e

ii) ocupa a Presidência da República.

Os incentivos para a coordenação do campo em torno dele são, portanto, muito maiores. E os incentivos para o surgimento de um sucessor, menores.

Quem vai liderar a direita?

Na direita ocorre um processo diferente.

O campo possui eleitorado, partidos, governadores, parlamentares e diferentes lideranças nacionais, mas não dispõe de uma organização equivalente ao PT capaz de ordenar sua sucessão presidencial.

O bolsonarismo resolveu temporariamente esse problema ao organizar grande parte da direita em torno de Jair Bolsonaro. Mas não produziu um mecanismo partidário capaz de determinar automaticamente quem deve herdar sua liderança eleitoral. O resultado é uma sucessão aberta.

Flávio Bolsonaro reivindica diretamente o capital político associado ao sobrenome Bolsonaro. Ronaldo Caiado apresenta a experiência de governador e sua relação histórica com o agronegócio. Romeu Zema construiu sua trajetória política a partir de Minas Gerais e do Novo. Renan Santos busca representar uma direita mais jovem, surgida dos movimentos políticos da década passada. Augusto Cury parte de uma trajetória externa à política profissional. São projetos bastante diferentes entre si.

A existência simultânea dessas candidaturas não demonstra necessariamente unidade ou força da direita. Revela, antes, que esse campo ainda não decidiu quem deverá liderá-lo no próximo ciclo político.

O próprio sistema partidário brasileiro favorece esse cenário. A fragmentação partidária e o federalismo permitem a formação de diferentes centros regionais de poder. Governadores acumulam visibilidade, controlam agendas estaduais e podem transformar seus governos em plataformas para projetos nacionais.

Além disso, nas últimas décadas consolidou-se um conjunto amplo de organizações situadas entre a centro-direita e a direita. Bolognesi, Ribeiro e Codato, em Uma Nova Classificação Ideológica dos Partidos Políticos Brasileiros, identificam um deslocamento do sistema partidário brasileiro para a direita a partir de 2018. Isso oferece diferentes plataformas institucionais para candidaturas presidenciais.

Na esquerda, o movimento foi mais concentrador. O PT permanece como a principal organização partidária do campo, enquanto legendas próximas passaram por processos de coordenação e formação de federações. O PSOL, por exemplo, lançou Guilherme Boulos à Presidência em 2018, mas decidiu não apresentar candidato próprio em 2026 e declarou apoio a Lula já no primeiro turno.

Temos, portanto, uma direita partidariamente mais dispersa e uma esquerda eleitoralmente mais concentrada.

Uma eleição dentro da eleição

É nesse ponto que a quantidade de candidatos adquire outro significado.

Para Caiado, Zema ou Renan Santos, disputar a Presidência não exige necessariamente começar a campanha com expectativa imediata de vitória. Uma candidatura pode servir para nacionalizar uma liderança, fortalecer um partido, testar sua capacidade de crescimento e se posicionar como alternativa caso os favoritos percam força.

Nesse sentido, o primeiro turno de 2026 funciona também como uma espécie de primária informal da direita. Os candidatos disputam a Presidência, mas disputam simultaneamente quem terá condições de liderar esse campo político nos próximos anos.

A esquerda não precisa realizar processo equivalente. Sua "primária" já está resolvida antes mesmo do início da campanha. Enquanto Lula concorrer e conservar seu peso eleitoral, partidos, lideranças e eleitores desse campo terão fortes incentivos para se coordenar em torno dele.

E aí está o paradoxo de 2026.

A direita parece fragmentada porque possui muitos candidatos. Essa fragmentação, porém, permite que diferentes lideranças disputem entre si qual delas comandará o campo no futuro.

A esquerda parece coordenada porque possui Lula. Mas a mesma coordenação que aumenta sua competitividade no presente dificulta a emergência de uma nova liderança para o futuro.

Por isso, seria precipitado interpretar o número de candidaturas como uma medida simples da força de cada campo. Os candidatos da direita não possuem pesos eleitorais equivalentes, e a existência de vários nomes não significa que esse campo seja necessariamente mais forte.

O que a eleição revela é algo diferente.

A direita brasileira tem um problema de coordenação. A esquerda brasileira tem um problema de sucessão.

No curto prazo, o problema da direita parece maior: vários candidatos disputam o mesmo espaço eleitoral e precisam descobrir quem conseguirá concentrar esse eleitorado. No longo prazo, entretanto, o problema da esquerda pode ser mais difícil de resolver.

Porque eleições não servem apenas para escolher presidentes. Também servem para produzir lideranças.

Enquanto Caiado, Zema, Renan Santos, Flávio Bolsonaro e outros disputam quem representará a direita brasileira nos próximos anos, a esquerda entra novamente em uma eleição na qual o presente e o futuro passam pela mesma pessoa.

Essa talvez seja uma das questões mais relevantes de 2026 e uma das mais importantes para compreender o futuro do sistema político e eleitoral brasileiro.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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