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A eleição de 2026 será decidida muito além da urna

Lula chega à disputa com vantagem, mas o resultado dependerá da soberania nacional, da abstenção, das pesquisas, do poder econômico, das redes digitais e da atuação da Justiça Eleitoral.

2/9/2026
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Há eleições em que os cidadãos escolhem entre programas de governo. Há outras em que, antes disso, precisam defender as próprias condições que tornam possível escolher. Minha leitura é que a eleição presidencial brasileira de 2026 pertence ao segundo tipo.

Não estamos diante apenas de uma disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, entre esquerda e direita ou entre continuidade e alternância. O que está em jogo é algo mais profundo: a capacidade do Brasil de produzir uma decisão política soberana em um ambiente atravessado por pressões internacionais, assimetrias financeiras, campanhas digitais transnacionais, mudanças no comportamento do eleitorado e crescente judicialização da política.

A entrevista concedida pelo cientista político Celso Rocha de Barros a Juca Kfouri oferece um ponto de partida especialmente fértil para compreender essa conjuntura. Sua principal contribuição não está em prever um vencedor, mas em desnormalizar nosso olhar sobre a eleição. Se observarmos 2026 como uma disputa comum, talvez consigamos enxergar os números, mas dificilmente compreenderemos as forças que os produzem.

Lula aparece à frente nas pesquisas divulgadas até o final de agosto, embora a distância varie consideravelmente conforme o instituto e a metodologia. A AtlasIntel registrou 43,4% para Lula e 33,7% para Flávio Bolsonaro no primeiro turno. Na simulação de segundo turno, os percentuais foram de 47,1% e 42,6%. Já o levantamento BTG/Nexus apresentou uma disputa muito mais apertada: 46% para Lula e 45% para Flávio, configurando empate técnico.

Esses resultados permitem falar em vantagem conjuntural do presidente. Não permitem, porém, anunciar sua vitória.

Pesquisa eleitoral é fotografia, não escritura do futuro. Ela registra as preferências declaradas por uma amostra em determinado momento e dentro de determinada metodologia. Não informa, por si só, quem efetivamente comparecerá às urnas, como os acontecimentos das semanas seguintes reorganizarão os afetos políticos nem qual será o impacto de uma crise internacional, de uma decisão judicial ou de uma operação digital de grande escala.

A eleição de 2026 precisa ser compreendida como um sistema no qual economia, geopolítica, comportamento eleitoral, dinheiro partidário, plataformas digitais e instituições judiciais funcionam como engrenagens conectadas. Tentar compreendê-la apenas pelas pesquisas seria como explicar um relógio observando somente o movimento dos ponteiros.

Corrida presidencial coloca em jogo não apenas projetos políticos, mas a soberania nacional, popular e individual diante de pressões econômicas, digitais e institucionais.Cris Faga/Dragonfly Press/Folhapress

A vantagem de Lula não elimina seus limites

Presidentes que disputam a reeleição costumam dispor de vantagens estruturais. Ocupam o centro da agenda pública, possuem alta visibilidade e podem apresentar resultados concretos do governo. Lula acrescenta a esses recursos um reconhecimento nacional incomparável e uma biografia capaz de mobilizar afetos profundos — tanto favoráveis quanto contrários.

O problema é que vantagem estrutural não significa segurança eleitoral.

Conforme demonstrou André Singer em seus estudos sobre o lulismo, a força política de Lula foi construída pela combinação entre redução da pobreza, expansão do consumo, estabilidade institucional e mudanças sociais graduais. Essa combinação permitiu formar uma base popular relativamente estável, sobretudo entre os segmentos de menor renda.

A sociedade brasileira de 2026, porém, não é a mesma que sustentou as primeiras vitórias de Lula. O mundo do trabalho se fragmentou. A comunicação tornou-se algorítmica. A experiência coletiva foi parcialmente substituída por fluxos individualizados de informação. O trabalhador deixou de se reconhecer automaticamente nas organizações que historicamente afirmavam representá-lo.

O governo chega à eleição com resultados importantes. A taxa de desocupação caiu para 5,1% no quarto trimestre de 2025, segundo o IBGE. Na área ambiental, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais registrou redução de 12,07% no desmatamento da Amazônia Legal em 2025. A mudança na tributação da renda ampliou a desoneração para rendimentos menores e instituiu uma tributação mínima sobre altas rendas, sinalizando, ainda que de maneira limitada, uma direção mais progressiva para o sistema tributário.

Esses resultados importam, mas há uma distância entre produzir uma política pública e transformá-la em percepção política.

Reconstruir instituições destruídas ou enfraquecidas costuma gerar pouco reconhecimento imediato. Quando um governo recompõe equipes técnicas, restaura sistemas de fiscalização, recupera programas de vacinação ou reestrutura capacidades administrativas, boa parte do trabalho permanece invisível.

O eleitor vê a ponte inaugurada, mas raramente enxerga a governança reconstruída para que a ponte pudesse voltar a ser construída.

Esse é um dos paradoxos enfrentados por Lula. Uma parcela considerável do esforço de seu governo foi consumida na recuperação da normalidade estatal. Entretanto, quando a normalidade retorna, parece não ter autor. A população percebe mais facilmente o preço do alimento hoje do que o colapso institucional evitado amanhã.

Por isso, não basta ao governo afirmar que a economia melhorou. É preciso responder: melhorou para quem, de que maneira e com qual segurança para o futuro?

Emprego precário não produz a mesma sensação de proteção que emprego protegido. Renda maior pode perder valor político diante do endividamento, do custo da moradia, da jornada exaustiva e da instabilidade cotidiana. Indicadores macroeconômicos não votam. Quem vota são pessoas que interpretam esses indicadores a partir da própria experiência.

O lulismo diante do trabalhador algorítmico

A esquerda brasileira foi construída na fábrica, no sindicato, na associação de moradores, na comunidade eclesial, no movimento estudantil e nas organizações populares. Essa rede não funcionava apenas nos períodos eleitorais. Ela oferecia uma linguagem comum para interpretar a vida.

O entregador de aplicativo, o motorista de plataforma, o trabalhador intermitente e o microempreendedor endividado vivem outra realidade. São trabalhadores, mas frequentemente são ensinados a se perceber como empresas individuais. Enfrentam jornadas extensas, riscos transferidos pelas plataformas e baixa proteção social. Mesmo assim, nem sempre associam sua condição a uma identidade coletiva.

O sindicato reunia trabalhadores em um mesmo espaço. O algoritmo os dispersa pelas ruas e os reúne apenas como dados.

Essa transformação impõe ao lulismo um desafio que não pode ser resolvido exclusivamente por políticas compensatórias. É necessário reconstruir vínculos sociais, formas de representação e canais de participação compatíveis com a economia das plataformas.

Em PT, uma história, Celso Rocha de Barros demonstra que a força histórica do partido nasceu de um enraizamento social anterior à conquista do Estado. Quando essa capilaridade diminui, o partido pode continuar eleitoralmente forte, mas se torna cada vez mais dependente da figura de Lula.

E Lula, por maior que seja sua capacidade política, não pode substituir permanentemente uma organização social ausente. Lideranças são pontes. Não deveriam ser o continente inteiro.

Quando a política interna atravessa as fronteiras

Toda eleição nacional recebe influências externas. Mercados reagem, governos manifestam preferências e acontecimentos internacionais modificam o ambiente doméstico. O que torna 2026 singular é a intensidade e a explicitação dessas pressões.

A política comercial dos Estados Unidos entrou diretamente na eleição brasileira. As tarifas impostas pelo governo Donald Trump sobre produtos do Brasil recolocaram no centro da campanha a acusação de interferência estrangeira. O episódio provocou uma troca de acusações entre governo e oposição e, segundo levantamento divulgado à época, levou parte do eleitorado a se aproximar de Lula.

Não estamos diante apenas de uma controvérsia comercial. Quando uma potência associa sanções econômicas, tarifas ou pressões diplomáticas à situação de atores políticos de outro país, a fronteira entre política externa e intervenção eleitoral torna-se perigosamente tênue.

Os Estados Unidos têm o direito de defender seus interesses. O Brasil também. O problema surge quando instrumentos próprios das relações internacionais são manejados para produzir efeitos sobre o equilíbrio eleitoral de outra nação.

Soberania não significa isolamento. Significa cooperação sem tutela. Um país soberano pode negociar, estabelecer alianças, reconhecer sua interdependência e até fazer concessões. O que não pode fazer é terceirizar sua vontade política.

Nesse sentido, a disputa de 2026 ultrapassa a candidatura de Lula. Um eleitor pode criticar o governo, rejeitar o PT e, ainda assim, compreender que a escolha do presidente brasileiro pertence aos brasileiros. A defesa da soberania não deveria ser monopólio da esquerda. Deveria constituir um compromisso democrático elementar.

Milei não veio apenas tirar uma fotografia

A presença de Javier Milei na convenção que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro ampliou a internacionalização do pleito. O presidente argentino não compareceu como observador diplomático, mas como participante de uma mobilização eleitoral estrangeira.

Sua atuação precisa ser interpretada em duas dimensões.

A primeira é ideológica. Milei integra uma rede transnacional de direita radical que compartilha repertórios, inimigos, consultores, influenciadores, estratégias digitais e símbolos políticos. Nessa rede, o discurso antissistema convive, paradoxalmente, com relações estreitas com governos, investidores e estruturas econômicas internacionais.

A segunda dimensão é geopolítica. Em 2025, o Tesouro norte-americano firmou com a Argentina uma linha de swap cambial de US$ 20 bilhões para estabilizar a economia do país em um momento politicamente decisivo. Essa relação ajuda a compreender o alinhamento de Milei com Washington, embora não permita reduzir toda a política argentina a uma ordem da Casa Branca.

Milei também possui interesses próprios. A eleição de um governo brasileiro de direita poderia fortalecer o bloco conservador regional, mas também deslocar o presidente argentino do papel de principal representante sul-americano dessa corrente. Solidariedade ideológica não elimina competição por protagonismo.

A intervenção de Milei pode, inclusive, produzir efeito contrário ao pretendido. Pesquisa Genial/Quaest indicou que seu apoio aumentava a possibilidade de voto em Lula para 34% dos entrevistados, enquanto 27% afirmavam que a manifestação favorecia Flávio Bolsonaro.

O mesmo acontecimento pode mobilizar públicos distintos em direções opostas. Na política, votos não são transferidos como valores entre contas bancárias.

Alinhamento internacional não pode significar subordinação

A expressão "quinta coluna" é utilizada para descrever grupos internos que atuariam em favor de interesses estrangeiros. É uma expressão forte, historicamente carregada e que precisa ser empregada com cautela.

Discordar do governo brasileiro, aproximar-se ideologicamente de outro país ou defender uma política externa alinhada aos Estados Unidos não constitui, por si só, deslealdade nacional. A questão muda de natureza quando atores domésticos solicitam, estimulam ou celebram medidas estrangeiras capazes de prejudicar a economia brasileira para obter vantagens políticas internas.

Nesse ponto, já não estamos apenas diante de convergência ideológica, mas de possível subordinação estratégica.

A crítica deve basear-se em atos verificáveis, não na nacionalidade das ideias nem em acusações genéricas. O debate democrático precisa distinguir oposição legítima de colaboração com pressões externas. Sem essa distinção, a palavra "soberania" pode ser usada para silenciar adversários. Com ela, transforma-se em critério republicano.

O voto é obrigatório, mas a ausência tornou-se mais simples

As pesquisas perguntam ao entrevistado em quem ele pretende votar. Em 2026, outra pergunta pode ser igualmente importante: esse entrevistado realmente comparecerá?

Juridicamente, o voto continua obrigatório no Brasil para cidadãos entre 18 e 70 anos. Portanto, não é correto afirmar que o país adotou o voto facultativo. O que existe é aquilo que podemos chamar de opcionalidade prática do voto.

A justificativa eleitoral pode ser apresentada digitalmente, inclusive pelo aplicativo e-Título, e a regularização da ausência tornou-se administrativamente mais simples. Essa facilidade é positiva. Ninguém deveria enfrentar uma peregrinação burocrática para regularizar sua situação eleitoral.

Toda simplificação, contudo, modifica incentivos. Se a sanção é pequena e a regularização exige poucos minutos no celular, a obrigatoriedade legal pode deixar de produzir comparecimento efetivo.

No primeiro turno de 2022, mais de 31 milhões de eleitores não compareceram, cerca de 20% do eleitorado. A democracia brasileira precisa, portanto, convencer o cidadão de que votar vale o esforço, e não apenas ameaçá-lo com uma multa.

A abstenção, além disso, não se distribui aleatoriamente. Estudos sobre o comportamento eleitoral brasileiro identificam relações entre ausência, escolaridade, idade, condições territoriais e situação socioeconômica.

Transporte precário, trabalho informal, distância da seção eleitoral, mudança de endereço, responsabilidades familiares e menor acesso à informação incidem de forma desigual. A ausência formalmente voluntária pode ser socialmente condicionada.

Essa constatação é especialmente importante para a esquerda, cuja base histórica se encontra entre os segmentos populares. Se os eleitores de menor renda enfrentam mais dificuldades para comparecer, a abstenção deixa de ser apenas ruído estatístico e passa a produzir efeitos distributivos sobre a representação política.

A desigualdade não termina na porta da seção eleitoral. Ela acompanha o cidadão até a urna — ou impede que ele chegue a ela.

As pesquisas precisam descobrir quem realmente votará

Os institutos brasileiros adotam metodologias diferentes: entrevistas presenciais, contatos telefônicos e recrutamento digital. Nenhum desses métodos é automaticamente superior. Cada um alcança certos públicos com maior facilidade e carrega seus próprios riscos.

Pesquisas digitais conseguem formar grandes amostras rapidamente, mas precisam corrigir diferenças de acesso, recrutamento e disposição para responder. Levantamentos telefônicos enfrentam recusas e dificuldades para alcançar determinados perfis. Entrevistas presenciais captam melhor certas características territoriais, mas possuem custos elevados e levam mais tempo.

A proliferação de institutos torna a leitura ainda mais complexa. Não basta comparar percentuais. É necessário saber quem financiou a pesquisa, como a amostra foi construída, quando ocorreu o trabalho de campo, quais perguntas foram formuladas, como os candidatos foram apresentados e quais critérios orientaram a ponderação.

Diante da crescente opcionalidade prática do voto, os institutos precisam avançar na identificação do eleitor provável, o chamado likely voter.

Isso não significa importar mecanicamente o modelo norte-americano, desenvolvido em um sistema de voto facultativo e com regras diferentes de registro eleitoral. Significa incorporar indicadores sobre intenção efetiva de comparecimento, histórico de participação, grau de interesse, conhecimento do local de votação e obstáculos materiais.

Seria útil divulgar simultaneamente a preferência de todos os eleitores aptos, a preferência dos que declaram intenção firme de comparecer e cenários sensíveis a diferentes níveis de abstenção.

Esse modelo não eliminaria a incerteza. Apenas deixaria de escondê-la. O problema das pesquisas não é a possibilidade de errar — toda estimativa contém incerteza. O problema é apresentar como certeza aquilo que o método só permite tratar como probabilidade.

O dinheiro eleitoral reproduz o poder acumulado

Eleições modernas custam caro. Dinheiro não compra automaticamente a consciência do eleitor, mas compra tempo de propaganda, equipes, pesquisas, dados, deslocamentos, advogados, produção audiovisual e presença territorial.

O Fundo Especial de Financiamento de Campanha alcançou aproximadamente R$ 4,9 bilhões em 2026. O PL recebeu cerca de R$ 881,7 milhões; o PT, R$ 615,4 milhões; e o União Brasil, aproximadamente R$ 526,2 milhões. Somadas, as três legendas concentram por volta de 40% dos recursos.

A distribuição obedece a critérios legais vinculados aos votos obtidos e à representação no Congresso Nacional. O modelo tem uma racionalidade democrática, mas também produz um efeito cumulativo: quem conquistou mais representação recebe mais recursos para conservar ou ampliar essa mesma representação.

O passado eleitoral financia o futuro eleitoral.

Esse desenho favorece as maiores legendas e amplia o poder dos partidos do chamado Centrão. Mesmo sem controlar uma candidatura presidencial competitiva, essas agremiações administram recursos, prefeituras, diretórios, alianças regionais e redes de influência.

Seu poder não aparece integralmente nas pesquisas presidenciais porque atua nos subterrâneos da governabilidade e da mobilização territorial.

A eleição para presidente acontece ao mesmo tempo que as disputas para governos estaduais, Senado, Câmara e assembleias legislativas. Acordos regionais podem fortalecer ou enfraquecer os palanques nacionais. O candidato mais popular nem sempre dispõe da melhor máquina. E a melhor máquina nem sempre possui o candidato mais popular. A eleição nasce do encontro — ou do desencontro — entre essas forças.

A direita digital não nasceu com o TikTok

É comum explicar a vantagem digital da direita como consequência do surgimento recente das redes sociais. Essa interpretação é insuficiente.

Antes de Facebook, Instagram, TikTok e Telegram, setores conservadores já ocupavam programas religiosos, redes de rádio, correntes de e-mail, fóruns digitais e circuitos informais de comunicação. As plataformas atuais não criaram essa cultura política. Deram a ela velocidade, escala e capacidade de segmentação.

Hegemonia tecnopolítica não significa apenas possuir mais seguidores. Significa construir um ecossistema no qual influenciadores, políticos, líderes religiosos, canais de notícias, grupos de mensagens e perfis anônimos repetem, adaptam e validam as mesmas narrativas.

Nesse ambiente, uma mensagem não se torna poderosa apenas porque foi demonstrada. Torna-se poderosa porque aparece em muitos lugares ao mesmo tempo e parece ser confirmada pela própria repetição.

A estrutura digital da direita brasileira é um patrimônio político acumulado. Ela sobrevive a derrotas eleitorais, bloqueios de perfis e mudanças de plataforma porque está assentada em comunidades de identidade.

A esquerda, por sua vez, possui presença sindical, cultural, acadêmica e institucional, mas isso não significa que tenha construído uma rede digital equivalente. Em muitos casos, comunica-se de maneira centralizada, reativa e excessivamente técnica.

Enquanto a direita produz pertencimento, a esquerda frequentemente distribui explicações.

Informação é indispensável, mas ninguém mora dentro de uma nota técnica. As pessoas habitam histórias, medos, esperanças, ressentimentos e identidades.

O desafio não é imitar a desinformação nem transformar toda política em espetáculo. É recuperar a capacidade de formar comunidades de sentido. Isso exige presença territorial, comunicação descentralizada, formação política e uma militância capaz de escutar antes de responder.

Se a esquerda depender apenas do horário eleitoral, das realizações governamentais e da figura de Lula, continuará disputando uma corrida de longa distância como quem aparece na pista apenas nos metros finais.

O TSE será observado em cada movimento

O Tribunal Superior Eleitoral exerce funções administrativas, normativas e jurisdicionais. Organiza o pleito, regulamenta procedimentos e julga conflitos. Em uma eleição polarizada, qualquer decisão relevante será examinada sob suspeita por uma das partes.

Em 2026, o TSE é presidido por Kassio Nunes Marques e tem André Mendonça como vice-presidente. Ambos foram indicados ao Supremo Tribunal Federal durante o governo Jair Bolsonaro. A Corte também conta, entre seus integrantes efetivos, com Dias Toffoli, Antonio Carlos Ferreira, Ricardo Villas Bôas Cueva, Floriano de Azevedo Marques Neto e Estela Aranha.

É legítimo analisar trajetórias, entendimentos jurídicos e decisões anteriores dos ministros. Instituições são formadas por pessoas, e pessoas possuem valores, interpretações e histórias.

Entretanto, seria irresponsável deduzir automaticamente o voto de um magistrado a partir do presidente que o indicou. Indicação não significa propriedade. A autonomia institucional só existe quando o indicado não se comporta como representante permanente de quem o nomeou.

A crítica democrática precisa avaliar decisões concretas: fundamentação, coerência, proporcionalidade, respeito ao contraditório e tratamento equivalente para situações semelhantes.

Antecipar, sem evidências, que o tribunal necessariamente favorecerá determinado candidato pode alimentar a mesma desconfiança institucional que se pretende combater.

O que se pode exigir desde já é previsibilidade. As regras precisam ser conhecidas, decisões equivalentes devem produzir tratamentos equivalentes e medidas liminares capazes de alterar a dinâmica da campanha devem receber fundamentação especialmente rigorosa.

Em uma eleição apertada, cada decisão pesa mais

Uma eleição decidida por margem ampla possui maior capacidade de absorver controvérsias. Quando a diferença é mínima, cada decisão administrativa ou judicial ganha um peso político desproporcional.

O chamado photo finish não transforma automaticamente o TSE em agente da disputa, mas aumenta o custo democrático de qualquer inconsistência. Decisões sobre propaganda, desinformação, inteligência artificial, direito de resposta, uso de recursos, abuso de poder e elegibilidade podem interferir na dinâmica de uma corrida apertada.

O maior risco talvez não seja uma grande manobra visível, mas a sucessão de pequenas decisões tomadas sob urgência, com efeitos assimétricos e pouco tempo para revisão.

Democracias não são desestabilizadas apenas por rupturas espetaculares. Também podem ser corroídas pela acumulação de dúvidas.

A resposta não é enfraquecer a Justiça Eleitoral. É fortalecê-la por meio de transparência, colegialidade, fundamentação pública, canais rápidos de recurso e aplicação isonômica das normas.

Uma instituição conquista confiança não quando fica imune à crítica, mas quando responde a ela com decisões verificáveis.

A soberania está em três lugares ao mesmo tempo

Lula chega à reta decisiva de 2026 em posição favorável, mas cercado por limites estruturais. Possui a vantagem do incumbente, resultados econômicos e políticas de reconstrução estatal para apresentar. Carrega, porém, o desgaste de quem governa, a dificuldade de transformar indicadores em experiência cotidiana, a dependência de sua liderança pessoal e a perda de capilaridade social da esquerda.

Flávio Bolsonaro enfrenta dificuldades para converter a herança política do pai em entusiasmo próprio para além da base bolsonarista. Ainda assim, não pode ser subestimado. Dispõe do maior fundo eleitoral partidário, herda uma comunidade política consolidada, participa de uma rede internacional de direita e pode beneficiar-se de uma eleição marcada pela abstenção das camadas populares.

Sua força não reside apenas em seu desempenho individual. Está na infraestrutura financeira, partidária, religiosa, territorial e digital que o cerca.

A eleição será decidida por votos, mas esses votos serão produzidos em condições profundamente desiguais. Comparecimento, dinheiro, algoritmos, relações internacionais, decisões judiciais e estruturas territoriais determinarão quem falará, quem será ouvido e quem chegará à urna.

Minha tese é que a eleição de 2026 representa uma disputa pela soberania em três níveis.

O primeiro é a soberania nacional diante das pressões estrangeiras. O segundo é a soberania popular diante das assimetrias econômicas, digitais e institucionais. O terceiro é a soberania individual do eleitor diante de máquinas destinadas a capturar sua atenção, modelar suas emoções e, em alguns casos, desencorajar sua participação.

Defender a soberania não significa aderir a Lula nem rejeitar qualquer projeto de direita. Significa estabelecer um limite anterior à escolha partidária: nenhum governo estrangeiro, plataforma digital, conglomerado econômico, tribunal ou partido pode substituir a vontade expressa pelos cidadãos dentro das regras democráticas.

A democracia não estará protegida apenas se o nosso candidato vencer. Estará protegida quando reconhecermos que o adversário também possui o direito de competir, quando as instituições tratarem candidaturas diferentes segundo critérios equivalentes e quando nenhuma força externa puder impor ao Brasil o presidente de sua preferência.

Talvez esse seja o verdadeiro desafio de 2026: compreender que vencer democraticamente é importante, mas preservar as condições da democracia é ainda mais.

Governos passam. Partidos se reorganizam. Lideranças envelhecem. A soberania popular, porém, é o chão sobre o qual toda escolha legítima precisa permanecer de pé.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.

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