O Brasil está diante de uma oportunidade estratégica para transformar sua riqueza mineral em desenvolvimento econômico, industrial e tecnológico. O país possui 11,4 milhões de toneladas de reservas de terras raras, o equivalente a 13,9% das reservas mundiais, segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM). A questão, porém, é como transformar essa vantagem geológica em capacidade produtiva e tecnológica.
O momento é especialmente relevante. O Projeto de Lei nº 2.780/2024, que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, avançou no Congresso justamente quando cresce a disputa global por recursos essenciais à transição energética, à indústria de alta tecnologia e à segurança das cadeias produtivas.
A questão central vai além de ampliar a exploração mineral. O verdadeiro desafio é definir quanto valor o Brasil será capaz de gerar a partir dos recursos que possui. Ter reservas expressivas é uma vantagem, mas não significa, por si só, dominar as tecnologias associadas a esses minerais.
As terras raras são um exemplo emblemático. Esses elementos são utilizados na fabricação de ímãs permanentes, motores elétricos, equipamentos eletrônicos e tecnologias relacionadas à transição energética. A Agência Internacional de Energia (IEA) projeta que a demanda mundial por terras raras passe de 91 mil toneladas em 2024 para 150 mil toneladas em 2040. A demanda associada a tecnologias de energia limpa deverá crescer de 19 mil para 47 mil toneladas no mesmo período.
Esse crescimento ocorre em um mercado altamente concentrado. Em 2024, os três maiores países produtores responderam por 86% da mineração de terras raras, enquanto os três maiores países em refino concentraram 97% da capacidade mundial. A concentração mostra que possuir reservas é apenas o primeiro passo: dominar as etapas de processamento e transformação é o que permite capturar maior valor.
É justamente nesse ponto que está a oportunidade brasileira. O país precisa desenvolver as etapas seguintes da cadeia: beneficiamento, separação, refino, produção de materiais avançados, componentes e produtos de maior valor agregado.
Historicamente, o Brasil construiu uma posição relevante como exportador de commodities. A mineração gera empregos, arrecadação e divisas e tem papel importante na economia nacional. O objetivo não é questionar essa atividade, mas reconhecer que existe uma diferença econômica significativa entre exportar um recurso natural e desenvolver uma cadeia produtiva completa a partir dele.
Os números indicam que existe uma janela concreta para essa transformação. Estudo da PwC Brasil aponta cerca de R$ 100 bilhões em investimentos em projetos de minerais críticos entre 2025 e 2029. O capital, entretanto, precisa ser acompanhado de uma estratégia capaz de gerar industrialização, inovação e conhecimento no país.
Empresas internacionais podem desempenhar papel fundamental nesse processo, trazendo capital, equipamentos, conhecimento, tecnologia e acesso a mercados. O Brasil não deveria enxergar o investimento estrangeiro apenas como fonte de recursos para exploração mineral, mas como oportunidade de incorporar conhecimento e desenvolver novas capacidades produtivas.
Isso significa criar condições para que projetos contemplem plantas de beneficiamento e refino, centros de pesquisa, desenvolvimento de processos, formação de profissionais e parcerias com universidades, institutos tecnológicos e empresas brasileiras.
A transferência de tecnologia precisa estar no centro dessa estratégia. Não basta extrair o mineral, exportá-lo e posteriormente importar equipamentos e produtos fabricados a partir daquele mesmo recurso. É preciso formar profissionais e criar condições para que empresas brasileiras participem das etapas mais sofisticadas da cadeia.
Essa visão também deve orientar a política industrial. O sucesso de uma estratégia para minerais críticos não deveria ser medido apenas pelo volume de minério produzido ou exportado, mas pela capacidade de gerar produtos industrializados, tecnologias, patentes, empregos qualificados e empresas competitivas.
A discussão ganha ainda mais relevância diante da transformação das cadeias produtivas globais. A transição energética, a expansão das tecnologias digitais e a disputa internacional por recursos estratégicos aumentam a importância econômica e geopolítica dos minerais críticos. A concentração do refino mundial evidencia os riscos de depender de poucos fornecedores para insumos essenciais.
Nesse contexto, o PL 2.780/2024 pode representar um passo importante ao estabelecer uma política nacional para minerais críticos e estratégicos. Mas a legislação será apenas parte da solução. O resultado dependerá da capacidade de articular mineração, indústria, ciência, tecnologia, infraestrutura e formação profissional em uma estratégia de longo prazo.
Não se trata de fechar o Brasil ao comércio internacional ou de impedir a atuação de empresas estrangeiras. Trata-se de definir quais investimentos queremos atrair e qual desenvolvimento queremos construir. A pergunta não deveria ser apenas quem deseja comprar o nosso minério, mas quem está disposto a investir no Brasil, produzir no Brasil, desenvolver tecnologia no Brasil e formar brasileiros para dominar essas cadeias produtivas.
O país reúne condições importantes para isso: reservas minerais estratégicas, mercado interno, universidades, centros de pesquisa e capacidade industrial. As terras raras e os demais minerais críticos podem servir de base para uma nova etapa de industrialização, capaz de gerar empregos qualificados, centros de pesquisa, empresas de tecnologia, patentes e produtos brasileiros competitivos internacionalmente.
A verdadeira riqueza mineral de uma nação não está apenas na quantidade de minério existente em seu subsolo, mas na capacidade de transformar esse recurso em conhecimento, tecnologia e desenvolvimento. O desafio brasileiro, portanto, não é apenas extrair mais. É agregar mais valor, desenvolver mais tecnologia e fazer com que uma parcela maior da riqueza gerada pelos minerais críticos permaneça no país.
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