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Tecnologia

Terras raras: o desafio do Brasil é transformar riqueza mineral em tecnologia

O Brasil não deveria enxergar o investimento estrangeiro apenas como fonte de recursos para exploração mineral, mas como oportunidade de incorporar conhecimento e desenvolver novas capacidades produtivas.

Thomas Law

Thomas Law

14/9/2026 18:00

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O Brasil está diante de uma oportunidade estratégica para transformar sua riqueza mineral em desenvolvimento econômico, industrial e tecnológico. O país possui 11,4 milhões de toneladas de reservas de terras raras, o equivalente a 13,9% das reservas mundiais, segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM). A questão, porém, é como transformar essa vantagem geológica em capacidade produtiva e tecnológica.

O momento é especialmente relevante. O Projeto de Lei nº 2.780/2024, que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, avançou no Congresso justamente quando cresce a disputa global por recursos essenciais à transição energética, à indústria de alta tecnologia e à segurança das cadeias produtivas.

A questão central vai além de ampliar a exploração mineral. O verdadeiro desafio é definir quanto valor o Brasil será capaz de gerar a partir dos recursos que possui. Ter reservas expressivas é uma vantagem, mas não significa, por si só, dominar as tecnologias associadas a esses minerais.

As terras raras são um exemplo emblemático. Esses elementos são utilizados na fabricação de ímãs permanentes, motores elétricos, equipamentos eletrônicos e tecnologias relacionadas à transição energética. A Agência Internacional de Energia (IEA) projeta que a demanda mundial por terras raras passe de 91 mil toneladas em 2024 para 150 mil toneladas em 2040. A demanda associada a tecnologias de energia limpa deverá crescer de 19 mil para 47 mil toneladas no mesmo período.

O valor das terras raras está além do subsolo.

O valor das terras raras está além do subsolo.Edson Silva/ Folhapress

Esse crescimento ocorre em um mercado altamente concentrado. Em 2024, os três maiores países produtores responderam por 86% da mineração de terras raras, enquanto os três maiores países em refino concentraram 97% da capacidade mundial. A concentração mostra que possuir reservas é apenas o primeiro passo: dominar as etapas de processamento e transformação é o que permite capturar maior valor.

É justamente nesse ponto que está a oportunidade brasileira. O país precisa desenvolver as etapas seguintes da cadeia: beneficiamento, separação, refino, produção de materiais avançados, componentes e produtos de maior valor agregado.

Historicamente, o Brasil construiu uma posição relevante como exportador de commodities. A mineração gera empregos, arrecadação e divisas e tem papel importante na economia nacional. O objetivo não é questionar essa atividade, mas reconhecer que existe uma diferença econômica significativa entre exportar um recurso natural e desenvolver uma cadeia produtiva completa a partir dele.

Os números indicam que existe uma janela concreta para essa transformação. Estudo da PwC Brasil aponta cerca de R$ 100 bilhões em investimentos em projetos de minerais críticos entre 2025 e 2029. O capital, entretanto, precisa ser acompanhado de uma estratégia capaz de gerar industrialização, inovação e conhecimento no país.

Empresas internacionais podem desempenhar papel fundamental nesse processo, trazendo capital, equipamentos, conhecimento, tecnologia e acesso a mercados. O Brasil não deveria enxergar o investimento estrangeiro apenas como fonte de recursos para exploração mineral, mas como oportunidade de incorporar conhecimento e desenvolver novas capacidades produtivas.

Isso significa criar condições para que projetos contemplem plantas de beneficiamento e refino, centros de pesquisa, desenvolvimento de processos, formação de profissionais e parcerias com universidades, institutos tecnológicos e empresas brasileiras.

A transferência de tecnologia precisa estar no centro dessa estratégia. Não basta extrair o mineral, exportá-lo e posteriormente importar equipamentos e produtos fabricados a partir daquele mesmo recurso. É preciso formar profissionais e criar condições para que empresas brasileiras participem das etapas mais sofisticadas da cadeia.

Essa visão também deve orientar a política industrial. O sucesso de uma estratégia para minerais críticos não deveria ser medido apenas pelo volume de minério produzido ou exportado, mas pela capacidade de gerar produtos industrializados, tecnologias, patentes, empregos qualificados e empresas competitivas.

A discussão ganha ainda mais relevância diante da transformação das cadeias produtivas globais. A transição energética, a expansão das tecnologias digitais e a disputa internacional por recursos estratégicos aumentam a importância econômica e geopolítica dos minerais críticos. A concentração do refino mundial evidencia os riscos de depender de poucos fornecedores para insumos essenciais.

Nesse contexto, o PL 2.780/2024 pode representar um passo importante ao estabelecer uma política nacional para minerais críticos e estratégicos. Mas a legislação será apenas parte da solução. O resultado dependerá da capacidade de articular mineração, indústria, ciência, tecnologia, infraestrutura e formação profissional em uma estratégia de longo prazo.

Não se trata de fechar o Brasil ao comércio internacional ou de impedir a atuação de empresas estrangeiras. Trata-se de definir quais investimentos queremos atrair e qual desenvolvimento queremos construir. A pergunta não deveria ser apenas quem deseja comprar o nosso minério, mas quem está disposto a investir no Brasil, produzir no Brasil, desenvolver tecnologia no Brasil e formar brasileiros para dominar essas cadeias produtivas.

O país reúne condições importantes para isso: reservas minerais estratégicas, mercado interno, universidades, centros de pesquisa e capacidade industrial. As terras raras e os demais minerais críticos podem servir de base para uma nova etapa de industrialização, capaz de gerar empregos qualificados, centros de pesquisa, empresas de tecnologia, patentes e produtos brasileiros competitivos internacionalmente.

A verdadeira riqueza mineral de uma nação não está apenas na quantidade de minério existente em seu subsolo, mas na capacidade de transformar esse recurso em conhecimento, tecnologia e desenvolvimento. O desafio brasileiro, portanto, não é apenas extrair mais. É agregar mais valor, desenvolver mais tecnologia e fazer com que uma parcela maior da riqueza gerada pelos minerais críticos permaneça no país.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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