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A eleição que se confere em público

Quando ouvirem que "não se pode auditar a urna", saibam que o contrário é verdade, pois o sistema eleitoral brasileiro foi aberto, atacado por especialistas independentes, corrigido e retestado.

18/9/2026
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A segurança das urnas eletrônicas brasileiras nunca foi um debate estritamente técnico. Trata-se, antes, de uma disputa de percepção pública e de confiança institucional. Após o pleito de 2022, marcado por ataques sistemáticos ao processo de votação, a Justiça Eleitoral enfrentou o desafio de redesenhar sua relação de transparência com a sociedade civil.

A resposta veio na forma de um conjunto de 14 resoluções que disciplinarão as Eleições Gerais, elaboradas sob relatoria do ministro Kassio Nunes Marques e aprovadas após audiências públicas que receberam número recorde de contribuições da sociedade civil. Em 12 de maio de 2026, Nunes Marques assumiu a presidência do Tribunal Superior Eleitoral sob uma premissa declarada: "a Justiça Eleitoral não pecará pelo excesso, tampouco pela inação".

Uma postura deliberadamente procedimental, e é justamente aí que mora a ambiguidade que este texto procura examinar.

A segurança das urnas além da tecnologia.Rivaldo Gomes/Folhapress

O ciclo preparatório é robusto e tem lastro verificável. A abertura dos códigos-fonte, prevista na legislação desde 2002 e com prazo de inspeção ampliado de seis para doze meses a partir de 2021, teve início em outubro de 2025, permitindo vistorias técnicas de instituições independentes. A integridade dos sistemas foi submetida à oitava edição do Teste Público de Segurança dos Sistemas Eleitorais, realizado de 1º a 5 de dezembro de 2025, e aqui é preciso corrigir um lugar-comum do discurso oficial: o teste não "reiterou a inexistência de vulnerabilidades". Ele existe justamente para encontrá-las. O próprio TSE reconheceu fragilidades apontadas pelos participantes e submeteu as correções a um teste de confirmação entre 13 e 15 de maio de 2026, dado que, longe de fragilizar a narrativa de segurança, é o que a torna crível.

Um sistema que nunca encontra nada é um sistema que não está sendo testado. Guardem esta frase: é o primeiro instrumento de defesa do eleitor contra o boato. Quando ouvirem que "não se pode auditar a urna", saibam que o contrário é verdade, pois o sistema eleitoral brasileiro foi aberto, atacado por especialistas independentes, corrigido e retestado. Em público. Com data, ata e gravata.

No dia do primeiro turno, 4 de outubro, será executado o Teste de Integridade, aplicado desde 2002: urnas sorteadas na véspera em sessão pública recebem votos de cédulas de papel preenchidas por voluntários e partidos, digitados sob gravação contínua, para demonstrar a correspondência entre o voto em papel e o cômputo eletrônico. Em 2026, a metodologia ganha a modalidade de Teste de Integridade com Biometria, por amostragem voluntária. Cumpre registrar, também aqui, o limite do instrumento e ensiná-lo: a amostra de urnas testadas é ínfima diante do parque total. O teste não "audita a eleição"; demonstra, de forma pública e replicável, que a correspondência papel-máquina funciona nas unidades verificadas.

O arranjo brasileiro guarda semelhanças com práticas internacionais de auditoria eleitoral, mas a comparação pede honestidade estrutural. Na Índia, as urnas emitem comprovante impresso (VVPAT) desde 2013, mecanismo que o Brasil não adota. Nos Estados Unidos, condados do Arizona realizam o Logic and Accuracy Testing de forma pública e bipartidária com cédulas pré-marcadas.

E é aqui que a conversa precisa se voltar para dentro - para o eleitor, e não para o sistema.

Nenhuma urna do mundo resolve o problema que se instala entre o eleitor e a cabine de votação: a dificuldade de aceitar um resultado que contraria a própria expectativa. A ciência cognitiva tem nome para isso, viés de confirmação, a tendência humana de tratar como suspeito apenas aquilo que desagrada, e como prova apenas aquilo que agrada. O eleitor que vê sua candidatura derrotada tem, diante de si, duas leituras do mesmo conjunto de fatos: "o sistema que pude acompanhar por doze meses, com dezenas de mecanismos públicos de verificação, funcionou, e meu candidato perdeu"; ou "o sistema falhou, porque meu candidato não podia ter perdido".

Consciência cívica não é ausência de ideologia, é saber operar com ela. Ter posição política não desqualifica ninguém; é, aliás, o que move a democracia. O que desqualifica é deixar que a posição política decida quais fatos merecem ser examinados.

A auditoria da urna eletrônica brasileira alcança, com efeito, alto grau de maturidade procedimental, o que a ministra Cármen Lúcia resumiu, em fala à época de sua presidência no TSE, como "40 possibilidades de fiscalização e de auditoria dos sistemas eleitorais antes, durante e após as eleições". O desgaste verificado nos últimos pleitos, contudo, nunca derivou de insuficiência dos algoritmos, mas de disputas travadas no campo político e comunicacional. Se o diagnóstico é esse, a conclusão se impõe: nenhum acréscimo de protocolo resolve, por si só, uma crise que nasce dentro de quem vota.

O que mudou em 2026 não foi a tecnologia da urna, mas a experiência procedimental de sua fiscalização, convocando o eleitor a atuar como testemunha da apuração de sua própria seção. O desafio real, agora, é duplo, e o discurso oficial raramente enuncia os dois termos: garantir que o cidadão conheça essas prerrogativas e, simultaneamente, que aprenda a reconhecer o próprio viés , porque a transparência técnica só se converte em confiança percebida quando ela atravessa o filtro de quem a observa. A urna está protegida. A pergunta que fica é se o eleitor está disposto a proteger a própria leitura do que ela diz.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.

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