Uma criança que hoje ingressa na alfabetização precisará do acompanhamento e do incentivo de dezenas de educadores ao longo de sua formação profissional e cidadã. Serão esses profissionais os responsáveis por diagnosticar precocemente lacunas de aprendizagem, acolher as especificidades pedagógicas, estimular vocações e garantir a igualdade real de oportunidades em nosso país.
Pensar que as próximas gerações possam não encontrar esses mestres em sala de aula não é apenas um exercício de projeção estatística. É a constatação de uma crise silenciosa que ameaça comprometer o desenvolvimento e a soberania do Brasil. Os indicadores da educação básica pública no país revelam uma transição demográfica e institucional preocupante.
Levantamento do Instituto Semesp (Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo) sobre o Ensino Médio público, publicado no site PEBSP (Portal de Educação de SP), aponta que, entre 2015 e 2025, o contingente de professores com 60 anos ou mais cresceu 104,5%. No mesmo período, entretanto, a parcela de docentes com até 24 anos despencou 31,1%.; de 25 a 29 anos, 19,8%; e de 30 a 39 anos, 12,3%. A proporção que há uma década era de um jovem para cada docente veterano hoje caiu para um jovem a cada três profissionais seniores.
A esse acelerado envelhecimento do quadro docente soma-se o alerta do Movimento Profissão Docente: cerca de 185 mil professores efetivos das redes estaduais estarão aptos a se aposentar até 2034. Paralelamente, dados do ensino superior expõem que um em cada três alunos de licenciatura abandona a graduação antes da colação de grau, e mais de 43% dos professores em regência no ensino público atuam sob vínculos temporários, sem garantias de continuidade pedagógica.
O Brasil caminha a passos largos para um apagão estrutural de profissionais da educação.
Como mãe e parlamentar que elegeu a valorização do magistério como pilar central de sua atuação pública, afirmo com convicção: a Educação é a mãe de todas as profissões. E nenhuma nação prospera, nenhum sistema de saúde cura, nenhuma engenharia constrói e nenhuma economia se fortalece sem que antes um professor tenha aberto os caminhos do conhecimento.
Continuamos, no entanto, a tratar a carreira docente sob a falsa e perversa premissa de que a vocação individual deva compensar a precarização estrutural. Exigir amor à docência para justificar salários defasados, duplas ou triplas jornadas exaustivas e a ausência de suporte psicológico e pedagógico é uma distorção ética e um grave equívoco de gestão pública.
A superação desse gargalo exige que o reconhecimento do magistério transite da retórica eleitoral para prioridades orçamentárias e legislativas concretas. A valorização financeira do professor não é favor nem gasto assistencial; é investimento estratégico com retorno multiplicador para toda a sociedade.
Quem dedica sua vida a formar as futuras gerações precisa encontrar na carreira a garantia de sustentar sua família com dignidade, tempo para descanso e pesquisa, estabilidade jurídica e perspectivas reais de evolução funcional.
É nessa trincheira que temos mantido um combate incansável no Congresso Nacional. A defesa da carreira docente exige a proposição e a aprovação de medidas estruturantes: a luta pela vinculação do piso nacional do magistério ao subsídio dos deputados federais e senadores, a instituição de alíquotas tributárias diferenciadas no Imposto de Renda para professores da rede pública como forma de justiça fiscal e o financiamento contínuo da formação docente voltada à educação inclusiva.
Dar condições para que o professor acolha o aluno com autismo e outras necessidades específicas não é apenas cumprir a lei de inclusão, é municiar o educador com o amparo de que necessita para não se sentir desamparado perante os desafios da sala de aula.
A transição geracional que se aproxima nas redes públicas precisa ocorrer de forma planejada e articulada. E urgentemente! Queremos que o valioso acervo de experiência dos docentes prestes a se aposentar se conecte ao entusiasmo e à inovação dos novos ingressantes. Mas esse encontro só será possível se os jovens voltarem a enxergar no magistério uma profissão respeitada, atrativa e segura.
Resgatar o prestígio econômico, social e institucional do professor é a única via para assegurar a qualidade do ensino e a equidade no país. Precisamos agir agora para que, quando uma criança disser com brilho nos olhos "eu quero ser professor, eu quero ser professora", essa escolha seja acolhida com celebração, orgulho e a firme esperança em um futuro promissor.
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