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A equipe econômica de Lula

Sem uma estrutura de campanha clara, Dario Durigan e Bruno Moretti conduzem a política econômica num eventual 4º mandato de Lula.

2/10/2026
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A saída de Fernando Haddad para disputar o governo de São Paulo e de Simone Tebet para concorrer ao Senado abriu duas vagas na área econômica. Lula acabou preenchendo ambas com nomes já ligados ao núcleo do governo: Dario Durigan assumiu a Fazenda e Bruno Moretti o Planejamento. A escolha preservou a continuidade administrativa, mas deixou a candidatura sem uma equipe econômica própria, capaz de apresentar um programa descolado da máquina que executa as decisões do atual mandato.

Durigan é advogado formado pela USP, com mestrado pela UnB, e acompanha Haddad desde a Prefeitura de São Paulo. Passou pela Casa Civil no governo Dilma Rousseff e assumiu a Secretaria-Executiva da Fazenda em 2023, antes de ser promovido a ministro. Por ocupar a Fazenda, tornou-se o principal porta-voz econômico da candidatura, ainda que não exista uma nomeação formal para essa função. Moretti é economista pela Universidade Federal Fluminense, tem trajetória no serviço público e presidia o conselho de administração da Petrobras antes de assumir o Planejamento. A formulação técnica, porém, é mais associada a Guilherme Mello, doutor em economia pela Unicamp, ex-secretário de Política Econômica da Fazenda e atual secretário-executivo do Planejamento. Mello participou de medidas centrais do governo, entre elas as mudanças no Imposto de Renda que ampliaram a faixa de isenção e alteraram a tributação dos dividendos.

O plano de governo do Lula, chamado "Diretrizes para o Programa de Transformação do Brasil: um País Soberano, Democrático, Desenvolvido, Sustentável e Criativo", tem 84 páginas e organiza sua proposta em temas como crescimento, emprego, combate à desigualdade, responsabilidade fiscal, neoindustrialização, transição ecológica e soberania nacional. O documento preserva a isenção de Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil, mantém a política de valorização real do salário mínimo e sustenta o arcabouço fiscal atual. Também projeta forte participação estatal na economia por meio de crédito público, política industrial e investimento em infraestrutura. A Nova Indústria Brasil aparece como uma das novidades, com R$ 860 bilhões em financiamentos entre 2023 e 2026, enquanto a campanha menciona R$ 300 bilhões em investimentos em infraestrutura em 2026.

A proposta tem um diagnóstico clássico de que o Brasil investe pouco, perdeu força industrial, carrega desigualdade alta e precisa recuperar capacidade de planejamento. O problema não é reconhecer essas carências, mas tratar o investimento como se dependesse apenas de vontade política, bancos públicos e expansão do crédito. Todo recurso mobilizado pelo Estado precisa vir de algum lugar, seja da arrecadação, da emissão de dívida, do crédito subsidiado, da inflação, do corte de despesas ou da transferência de recursos de poupadores para setores escolhidos pelo governo. O plano enumera os destinos desejados para esse dinheiro, mas pouco esclarece qual será sua fonte permanente de financiamento e qual custo essa escolha imporá ao restante da economia.

O Orçamento de 2027 já soma R$ 7,4 trilhões, mas quase todo esse valor está comprometido por regras legais e constitucionais. Previdência, pessoal, transferências, benefícios sociais e vinculações ocupam o espaço antes que o governo possa decidir qualquer nova prioridade. A despesa discricionária, que financia custeio administrativo e investimento, fica próxima de R$ 222 bilhões. É uma parcela pequena para um país que pretende ampliar infraestrutura, induzir inovação, financiar reindustrialização, sustentar programas sociais e ainda administrar serviços básicos.

A Previdência representa o maior grau de gasto obrigatório no orçamento brasileiro. Ela absorve uma parcela enorme dos gastos obrigatórios e cresce de forma praticamente automática, puxada pela demografia e pelas regras vigentes. O programa não propõe nova reforma previdenciária nem apresenta medidas para desacelerar essa expansão. Não se trata de defender cortes improvisados, mas de reconhecer que não há expansão permanente de investimento sem enfrentar o gasto que mais comprime o Orçamento Federal. Quando a maior parte da receita já tem destino previamente definido, a margem para financiar novos projetos fica estreita. O governo pode aumentar impostos, recorrer a bancos públicos, ampliar subsídios e emitir mais dívida, e certamente nenhuma dessas escolhas é neutra. Mais impostos reduzem a renda disponível e o investimento privado, crédito direcionado desloca recursos que poderiam ir para outras atividades e transfere risco para o contribuinte. Mais dívida aumenta a necessidade de financiamento e tende a pressionar os juros, especialmente quando o mercado não enxerga um caminho claro de estabilização fiscal. O custo pode não aparecer no anúncio de uma nova fábrica, de uma linha de crédito ou de uma obra, mas reaparece depois no crédito mais caro, na inflação e na necessidade de novos ajustes.

Propostas combinam expansão de investimentos e proteção social, mas deixam dúvidas sobre financiamento diante do peso da Previdência, da dívida e do pouco espaço no Orçamento.Magnific

A Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) chegou a R$ 10,9 trilhões, ou 82,5% do PIB, em julho. A própria proposta orçamentária de 2027 projeta que ela continuará subindo nos próximos anos. É nesse cenário que a candidatura promete ampliar investimentos, expandir a política industrial e preservar gastos sociais sem propor uma revisão estrutural das despesas obrigatórias. A aposta política parece ser a de que o crescimento econômico, o aumento da arrecadação e a alavancagem via crédito público serão suficientes para absorver a conta bilionária dessa expansão.

No entanto, a realidade macroeconômica impõe limites severos a isso, afinal, será que os formuladores dessa proposta nunca abriram um livro básico de macroeconomia ou olharam para os escombros de outros países que tentaram a exata mesma receita mágica? Acreditar que o crescimento econômico sustentado pode ser decretado por canetada ou que um orçamento cronicamente engessado pode ser equilibrado à base de sufocamento tributário ignora não apenas a teoria econômica consolidada, mas a própria e dolorosa história recente do Brasil, pois insistir em empurrar para a frente desequilíbrios estruturais sob a ilusão de que o voluntarismo político revoga leis da gravidade fiscal é a receita infalível para colher inflação, desarranjo cambial e colapso da confiança, repetindo o trágico roteiro de um país que parece colecionar crises justamente por se recusar a aprender com o óbvio.

O Brasil já pagou caro demais por promessas assim para ignorar essas questões. A política econômica pode produzir crescimento temporário por meio de estímulos, crédito subsidiado e expansão de gastos, mas, quando a produtividade não acompanha e o financiamento depende cada vez mais de dívida ou arrecadação, o resultado costuma aparecer em inflação, juros elevados, perda de confiança e menor investimento privado. O problema não é o Estado investir em infraestrutura ou apoiar áreas estratégicas. O problema é acreditar que escolhas de investimento feitas de cima podem substituir, por tempo indeterminado, poupança, produtividade, segurança jurídica e capital privado disposto a assumir risco.

É verdade que o governo possui bons indicadores sociais para apresentar, como a queda da pobreza de 27,3% para 23,1% em 2024 e o desemprego recuando a 5,6% em 2025, o menor nível da série histórica. São marcas importantes, mas que não encerram a discussão sobre sustentabilidade fiscal, já que uma economia consegue gerar vagas e distribuir renda no curto prazo enquanto simplesmente empurra desequilíbrios e distorções macroeconômicas para frente. O descontentamento geral com o custo de vida reflete bem esse descompasso entre as estatísticas oficiais e a experiência de quem sente a conta no final do mês. Afinal, mesmo com a inflação mantida dentro da meta, itens vitais como alimentos, aluguel, crédito e serviços continuam pesando forte sobre o orçamento das famílias.

O maior juro real do mundo deixou de ser uma discussão técnica de mercado para virar uma ferida aberta no dia a dia das pessoas. Normalizamos uma emergência econômica que estrangula quem tenta financiar a casa própria, comprar um carro, abrir um pequeno negócio ou simplesmente sobreviver ao uso do cartão de crédito sem se afundar em dívidas impagáveis. É economicamente correto que essa taxa nas alturas ajuda a segurar a inflação e atrai o capital estrangeiro que sustenta o câmbio via carry trade, mas o preço disso é o crédito caro e o consumo paralisado. Quem quer que assuma o comando do país precisa parar de tratar isso como detalhe e explicar como pretende resolver a questão sem continuar sufocando o cidadão.

O plano do governo Lula promete investimento e proteção social, mas esbarra num orçamento engessado pela Previdência e despesas obrigatórias. Afinal, como sustentar um expansionismo fiscal sem poupança genuína sem colher inflação, corrosão cambial e juros reais altíssimos? Apostar na rolagem da dívida ou no aumento de uma carga tributária já esgotada configura um arranjo regressivo que pune quem o governo jura proteger. Enquanto o Estado estica a corda da solvência e mantém juros estratosféricos para ancorar expectativas, o sistema financeiro lucra desproporcionalmente, aprofundando o abismo entre a macroeconomia oficial e o custo de vida real da sociedade.

Falta a essa equipe econômica experiente uma resposta objetiva sobre como cumprir promessas ambiciosas sem atropelar as contas públicas. Ignorar a restrição fiscal transfere a conta via encarecimento do crédito e perda do poder de compra. Um programa responsável não se mede por catálogos de obras, mas pela coerência técnica entre os fins sociais almejados e a escassez implacável do orçamento.


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