Uma corrente nas mãos de um homem branco. Ao lado dele, um homem negro. Em volta, uma manifestação política. A poucos quilômetros dali uma cidade construída também pelo trabalho forçado de africanos escravizados conserva, sob o chão da região portuária, as marcas materiais de sua própria formação.
A cena ocorreu no último sábado (24), na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, durante a dispersão de uma caminhada de apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL). O vídeo mostra um homem branco segurando uma corrente junto a um homem negro que exibe adesivos do PT e uma inscrição com o nome de Luiz Inácio Lula da Silva. O homem que segura a corrente profere expressões ofensivas contra o presidente.
A pergunta que se faz independente do resultado das eleições é: o que significa mobilizar a imagem de um corpo negro associado a uma corrente em uma manifestação política brasileira?
A questão ultrapassa a intenção individual dos envolvidos. A corrente possui uma história no país. Quando aparece ao lado de um corpo negro, ativa um repertório visual constituído ao longo de séculos de escravização, hierarquia racial e negação da liberdade.
O fato de a cena poder ter sido concebida como provocação, fantasia ou encenação não suspende essa memória. E é, por isso que se torna cada vez mais necessário compreender por que determinados símbolos continuam disponíveis para representar adversários políticos e por que sua utilização ainda pode parecer aceitável em espaços públicos.
O Rio de Janeiro sangra com a dimensão perturbadora da imagem
No centro da cidade está o Cais do Valongo, sítio arqueológico reconhecido pela Unesco como Patrimônio Mundial em 2017. Construído a partir de 1811, o cais recebeu um contingente estimado em até 900 mil africanos escravizados, segundo a organização. Ali, seres humanos eram desembarcados e submetidos a um sistema comercial e social que os tratava como propriedade.
O Valongo não pertence apenas ao passado. Suas pedras permanecem como testemunho material da violência que participou da formação econômica, urbana e política do Rio de Janeiro.
Em setembro de 2025, a Lei nº 15.203 reconheceu o sítio como patrimônio histórico-cultural afro-brasileiro essencial à formação da identidade nacional. Trata-se de um reconhecimento institucional de que a memória da escravidão não pode ser reduzida a uma nota de rodapé da história brasileira.
A política que cria as suas próprias armadilhas simbólicas
Uma manifestação eleitoral também é um espaço de produção de linguagem. Camisetas, bandeiras, cartazes, gestos e fantasias constroem narrativas rápidas, destinadas a comunicar pertencimento e rejeição. A eficácia dessas representações depende de serem reconhecidas por quem as observa. Muitas vezes, uma imagem pretende dizer mais do que um discurso inteiro.
Na Barra da Tijuca durante caminhada pró-Flávio, a presença dos adesivos partidários e das referências a Lula indica que a cena se inscrevia na disputa eleitoral. A corrente, entretanto, introduz um segundo campo de significados, impossível de dissociar inteiramente da experiência histórica brasileira.
Uma corrente não se torna historicamente neutra porque aparece em uma brincadeira. O corpo negro não perde sua dimensão política porque participa de uma encenação. E a liberdade de expressão, indispensável à democracia, não impede que manifestações públicas sejam criticadas à luz de seus significados históricos.
A intelectual brasileira Lélia Gonzalez dedicou parte importante de sua produção a investigar as formas pelas quais o racismo brasileiro se apresenta, muitas vezes, sob discursos que negam a própria existência da discriminação.
Sua reflexão sobre o racismo por denegação ajuda a compreender uma contradição persistente: o país celebra formalmente a diversidade que o constituiu, mas encontra dificuldades em reconhecer as hierarquias que continuam atravessando essa mesma diversidade.
A memória coletiva não desaparece quando deixa de ser ensinada, mencionada ou reconhecida. Ela pode permanecer inscrita nos gestos, nas expressões e nas representações que parecem ordinárias.
A imagem de um homem negro associado a uma corrente, em um ato eleitoral, convida justamente a esse exame. Que repertórios visuais sobrevivem na mente dessas pessoas? O que aprendemos, de fato, sobre o significado de quatro séculos de escravização? E por que certas representações ainda parecem adequadas para a disputa entre adversários?
A responsabilidade de rejeitar a desumanização deve atravessar todas as correntes políticas. Uma democracia se deteriora quando a diferença entre adversário e inimigo passa a autorizar qualquer forma de humilhação simbólica.
A polarização utópica não inventou a história racial brasileira. Mas pode oferecer novas circunstâncias para que antigos repertórios de dominação sejam mobilizados como espetáculo.
Desde a Lei nº 10.639, de 2003, a legislação brasileira determina a presença da história e da cultura afro-brasileira na educação básica. A Lei nº 11.645, de 2008, ampliou a determinação para incluir a história e a cultura indígenas.
O reconhecimento legal dessas temáticas representa um avanço. Contudo, a existência de uma norma não permite presumir que sua aplicação seja uniforme, nem que o conhecimento histórico esteja consolidado no cotidiano social.
Conhecer a escravidão brasileira exige mais do que memorizar a assinatura da Lei Áurea em 1888. Exige compreender o tráfico atlântico, a economia escravista, as resistências negras, o processo de abolição e as desigualdades que atravessaram a formação da República.
Também exige abandonar a ideia de que o racismo diz respeito apenas a atitudes individuais explicitamente hostis. A história se manifesta em instituições, oportunidades desiguais e representações sobre quem pode exercer autoridade ou ocupar posições de subordinação.
O Censo de 2022, realizado pelo IBGE, revelou que pessoas pretas e pardas representam 55,5% da população brasileira. Essa maioria demográfica não elimina o peso das hierarquias historicamente construídas. Pelo contrário, torna ainda mais urgente perguntar por que a experiência negra continua sendo frequentemente reduzida a estereótipos no debate público.
Uma sociedade pode conhecer números, aprovar leis e preservar monumentos sem necessariamente desenvolver uma consciência histórica à altura de suas contradições.
Depois das urnas, o que permanecerá?
A gravação na Barra da Tijuca precisa ser observada dentro dos limites do que efetivamente mostra. O país que procura superar o legado da escravidão não pode tratar como detalhe o retorno de seus símbolos ao espaço público. Conhecer o próprio lugar significa perceber que ruas, monumentos, instituições e formas de expressão carregam experiências anteriores à geração que hoje os ocupa.
O Rio que assistiu à manifestação na Barra é o mesmo que preserva as pedras do Valongo. Em um ponto da cidade, a história foi reconhecida como patrimônio da humanidade; em outro, uma corrente voltou a integrar uma representação política envolvendo um homem negro.
Talvez uma das questões mais importantes desta eleição seja justamente aquela que não aparecerá na contagem de votos: que Brasil estamos ensinando as próximas gerações a reconhecer?
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.