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Política

Correntes na Barra: O Brasil não conhece mais o chão que pisa

Na véspera do segundo turno, uma cena registrada em ato pró-Flávio revela a distância entre a memória da escravidão e a linguagem política que ainda circula nas ruas brasileiras.

Geórgia Freitas

Geórgia Freitas

26/10/2026 14:30

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Uma corrente nas mãos de um homem branco. Ao lado dele, um homem negro. Em volta, uma manifestação política. A poucos quilômetros dali uma cidade construída também pelo trabalho forçado de africanos escravizados conserva, sob o chão da região portuária, as marcas materiais de sua própria formação.

A cena ocorreu no último sábado (24), na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, durante a dispersão de uma caminhada de apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL). O vídeo mostra um homem branco segurando uma corrente junto a um homem negro que exibe adesivos do PT e uma inscrição com o nome de Luiz Inácio Lula da Silva. O homem que segura a corrente profere expressões ofensivas contra o presidente.

A pergunta que se faz independente do resultado das eleições é: o que significa mobilizar a imagem de um corpo negro associado a uma corrente em uma manifestação política brasileira?

A questão ultrapassa a intenção individual dos envolvidos. A corrente possui uma história no país. Quando aparece ao lado de um corpo negro, ativa um repertório visual constituído ao longo de séculos de escravização, hierarquia racial e negação da liberdade.

O fato de a cena poder ter sido concebida como provocação, fantasia ou encenação não suspende essa memória. E é, por isso que se torna cada vez mais necessário compreender por que determinados símbolos continuam disponíveis para representar adversários políticos e por que sua utilização ainda pode parecer aceitável em espaços públicos.

Imagem de um homem negro ao lado de outro que segurava uma corrente, durante ato eleitoral, revela como representações historicamente associadas à dominação racial ainda encontram espaço no debate público.

Imagem de um homem negro ao lado de outro que segurava uma corrente, durante ato eleitoral, revela como representações historicamente associadas à dominação racial ainda encontram espaço no debate público.Reprodução

O Rio de Janeiro sangra com a dimensão perturbadora da imagem

No centro da cidade está o Cais do Valongo, sítio arqueológico reconhecido pela Unesco como Patrimônio Mundial em 2017. Construído a partir de 1811, o cais recebeu um contingente estimado em até 900 mil africanos escravizados, segundo a organização. Ali, seres humanos eram desembarcados e submetidos a um sistema comercial e social que os tratava como propriedade.

O Valongo não pertence apenas ao passado. Suas pedras permanecem como testemunho material da violência que participou da formação econômica, urbana e política do Rio de Janeiro.

Em setembro de 2025, a Lei nº 15.203 reconheceu o sítio como patrimônio histórico-cultural afro-brasileiro essencial à formação da identidade nacional. Trata-se de um reconhecimento institucional de que a memória da escravidão não pode ser reduzida a uma nota de rodapé da história brasileira.

A política que cria as suas próprias armadilhas simbólicas

Uma manifestação eleitoral também é um espaço de produção de linguagem. Camisetas, bandeiras, cartazes, gestos e fantasias constroem narrativas rápidas, destinadas a comunicar pertencimento e rejeição. A eficácia dessas representações depende de serem reconhecidas por quem as observa. Muitas vezes, uma imagem pretende dizer mais do que um discurso inteiro.

Na Barra da Tijuca durante caminhada pró-Flávio, a presença dos adesivos partidários e das referências a Lula indica que a cena se inscrevia na disputa eleitoral. A corrente, entretanto, introduz um segundo campo de significados, impossível de dissociar inteiramente da experiência histórica brasileira.

Uma corrente não se torna historicamente neutra porque aparece em uma brincadeira. O corpo negro não perde sua dimensão política porque participa de uma encenação. E a liberdade de expressão, indispensável à democracia, não impede que manifestações públicas sejam criticadas à luz de seus significados históricos.

A intelectual brasileira Lélia Gonzalez dedicou parte importante de sua produção a investigar as formas pelas quais o racismo brasileiro se apresenta, muitas vezes, sob discursos que negam a própria existência da discriminação.

Sua reflexão sobre o racismo por denegação ajuda a compreender uma contradição persistente: o país celebra formalmente a diversidade que o constituiu, mas encontra dificuldades em reconhecer as hierarquias que continuam atravessando essa mesma diversidade.

A memória coletiva não desaparece quando deixa de ser ensinada, mencionada ou reconhecida. Ela pode permanecer inscrita nos gestos, nas expressões e nas representações que parecem ordinárias.

A imagem de um homem negro associado a uma corrente, em um ato eleitoral, convida justamente a esse exame. Que repertórios visuais sobrevivem na mente dessas pessoas? O que aprendemos, de fato, sobre o significado de quatro séculos de escravização? E por que certas representações ainda parecem adequadas para a disputa entre adversários?

A responsabilidade de rejeitar a desumanização deve atravessar todas as correntes políticas. Uma democracia se deteriora quando a diferença entre adversário e inimigo passa a autorizar qualquer forma de humilhação simbólica.

A polarização utópica não inventou a história racial brasileira. Mas pode oferecer novas circunstâncias para que antigos repertórios de dominação sejam mobilizados como espetáculo.

Desde a Lei nº 10.639, de 2003, a legislação brasileira determina a presença da história e da cultura afro-brasileira na educação básica. A Lei nº 11.645, de 2008, ampliou a determinação para incluir a história e a cultura indígenas.

O reconhecimento legal dessas temáticas representa um avanço. Contudo, a existência de uma norma não permite presumir que sua aplicação seja uniforme, nem que o conhecimento histórico esteja consolidado no cotidiano social.

Conhecer a escravidão brasileira exige mais do que memorizar a assinatura da Lei Áurea em 1888. Exige compreender o tráfico atlântico, a economia escravista, as resistências negras, o processo de abolição e as desigualdades que atravessaram a formação da República.

Também exige abandonar a ideia de que o racismo diz respeito apenas a atitudes individuais explicitamente hostis. A história se manifesta em instituições, oportunidades desiguais e representações sobre quem pode exercer autoridade ou ocupar posições de subordinação.

O Censo de 2022, realizado pelo IBGE, revelou que pessoas pretas e pardas representam 55,5% da população brasileira. Essa maioria demográfica não elimina o peso das hierarquias historicamente construídas. Pelo contrário, torna ainda mais urgente perguntar por que a experiência negra continua sendo frequentemente reduzida a estereótipos no debate público.

Uma sociedade pode conhecer números, aprovar leis e preservar monumentos sem necessariamente desenvolver uma consciência histórica à altura de suas contradições.

Depois das urnas, o que permanecerá?

A gravação na Barra da Tijuca precisa ser observada dentro dos limites do que efetivamente mostra. O país que procura superar o legado da escravidão não pode tratar como detalhe o retorno de seus símbolos ao espaço público. Conhecer o próprio lugar significa perceber que ruas, monumentos, instituições e formas de expressão carregam experiências anteriores à geração que hoje os ocupa.

O Rio que assistiu à manifestação na Barra é o mesmo que preserva as pedras do Valongo. Em um ponto da cidade, a história foi reconhecida como patrimônio da humanidade; em outro, uma corrente voltou a integrar uma representação política envolvendo um homem negro.

Talvez uma das questões mais importantes desta eleição seja justamente aquela que não aparecerá na contagem de votos: que Brasil estamos ensinando as próximas gerações a reconhecer?


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.

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