A continuidade do governo Lula entre 2027 e 2030 deve manter o setor produtivo diante de desafios econômicos importantes. Juros elevados, incerteza fiscal e implementação da reforma tributária podem prolongar as dificuldades financeiras das empresas e manter a recuperação judicial como alternativa para negócios endividados. Para parte do empresariado, o resultado eleitoral também representa uma oportunidade de avaliar as perspectivas para o crédito, os investimentos e a previsibilidade econômica nos próximos anos.
As projeções do Boletim Focus de 26 de outubro de 2026 indicam Selic de 11,75% ao final de 2027 e de 10% em 2028, enquanto o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) é estimado em 1,31% para 2027. A combinação entre crédito caro e crescimento moderado pode limitar a recuperação das receitas e dificultar o cumprimento das obrigações financeiras. Além disso, o custo dos empréstimos depende de fatores como garantias, risco de crédito e condições de renegociação, não apenas da taxa básica de juros.
A situação fiscal também influencia esse cenário. A percepção de risco sobre as contas públicas pode pressionar os juros de longo prazo e o custo de financiamento das empresas. Outro ponto de atenção é a reforma tributária, cuja implementação exigirá adaptações em sistemas, contratos, preços e processos internos. Os efeitos poderão variar entre os setores, especialmente para empresas com menor possibilidade de aproveitamento de créditos tributários.
Uma sondagem do FGV IBRE realizada em agosto de 2026 mostrou que 54,2% das empresas consultadas apontaram a tributação como prioridade para o próximo governo, enquanto 27,1% destacaram o equilíbrio das contas públicas. Em setembro, o Índice de Confiança Empresarial (ICE) da instituição recuou 1,2 ponto, para 89,3 pontos. A combinação de incerteza, custos elevados e menor disposição para investir pode dificultar a geração de caixa necessária para manter as operações e honrar dívidas.
Os indicadores de recuperação judicial também refletem as dificuldades enfrentadas pelas empresas. Na série histórica anterior da Serasa Experian, os pedidos passaram de 833 em 2022 para 2.273 em 2024. Já na metodologia atualizada, 2025 registrou 977 processos envolvendo 2.466 empresas. Como os critérios de apuração foram alterados, as séries precisam ser analisadas separadamente. A evolução dos pedidos também depende de fatores como juros, mudanças legislativas, crises setoriais e condições de crédito, não podendo ser atribuída exclusivamente ao governo em exercício.
Nesse contexto, a demanda por reestruturações empresariais poderá permanecer elevada nos primeiros anos do próximo mandato. Empresários não devem esperar que os juros caiam para enfrentar dificuldades financeiras. O diagnóstico antecipado, o mapeamento das dívidas por custo e prazo e a avaliação de alternativas, como negociações estruturadas, mediação e recuperação extrajudicial, podem ampliar as possibilidades de preservar valor.
Prevista na Lei nº 11.101/2005, a recuperação judicial busca permitir que empresas viáveis superem crises econômico-financeiras, preservando a atividade produtiva, os empregos e os interesses dos credores. O instrumento, porém, não substitui receita, produtividade ou planejamento. Para o setor produtivo, o desafio dos próximos quatro anos será recuperar a capacidade financeira dos negócios e criar condições para que empresas viáveis invistam, cresçam e honrem seus compromissos sem depender continuamente da intervenção judicial.
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