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O voto foi contado, mas quem fiscaliza quem controlou o debate?

Após as eleições de 2026, questionamentos sobre publicidade política, bloqueios automáticos e recomendações nas redes sociais reforçam a necessidade de auditorias independentes e maior transparência das plataformas digitais.

29/10/2026
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As urnas foram fechadas, os votos contabilizados, mas uma pergunta sobreviveu às eleições de 2026: quem fiscalizou os sistemas privados que decidiram o que milhões de brasileiros viram, deixaram de ver ou foram estimulados a compartilhar?

O Brasil aprendeu a proteger a contagem dos votos. Continua, porém, atrasado na fiscalização do ambiente em que a vontade do eleitor se forma. Auditamos a urna, mas não examinamos com a mesma independência os algoritmos que organizam o debate público.

O problema já não se resume a fake news e deepfakes. Está também na disputa pela atenção: quem ganha alcance, quem desaparece das recomendações, qual mensagem é impulsionada e qual sofre um bloqueio automático. Não é preciso alterar um voto para interferir nas condições em que uma convicção é construída.

A Nota Técnica nº 03/2026 do Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial (IRIA) reuniu fatos que exigem respostas. O NetLab/UFRJ identificou 1.613 anúncios político-eleitorais pagos a partir do exterior ou por agentes não autorizados, com cerca de 171 milhões de impressões. Não prova operação estrangeira coordenada. Mas quem financiou as mensagens? Por que os controles permitiram sua circulação?

A soberania eleitoral não termina na porta dos servidores de uma empresa estrangeira.

Outra contradição: campanhas destinaram centenas de milhões de reais à publicidade digital, em contratações que podem envolver recursos públicos. Exigimos prestação de contas dos candidatos. Mas quem audita a entrega dos anúncios, os critérios de distribuição, a interrupção de serviços e eventuais compensações? Uma fatura não comprova que o serviço tenha sido prestado como contratado.

O Ministério Público Federal informou que, segundo a própria Meta, 206.910 itens de conteúdo foram bloqueados automaticamente entre 1º e 5 de outubro. Nem todos seriam indevidos. O MPF, porém, questionou sua transparência. A ANPD abriu procedimento sobre suspensões, restrições de alcance e mecanismos de contestação. O TSE também exigiu esclarecimentos sobre recomendações algorítmicas, publicidade e inteligência artificial.

Nenhuma dessas iniciativas prova favorecimento deliberado ou mudança de resultado. Todas, porém, expõem uma dificuldade incontornável: como investigar sistemas quando a empresa investigada controla boa parte das informações necessárias à verificação?

Distribuição de conteúdos, impulsionamento de anúncios e possível atuação de perfis automatizados levantam dúvidas sobre a formação da opinião dos eleitores e os limites da fiscalização eleitoral.Magnific

Em estudo de mais de 33 mil contas de ecossistemas políticos, o IRIA identificou aproximadamente 24% de perfis com indícios de automação. Não são 24% de robôs comprovados, muito menos uma estimativa de toda a internet brasileira. É indício que exige validação. O fenômeno merece exame porque agentes artificiais podem simular multidões: repetir opiniões, fabricar engajamento e produzir a impressão de um consenso que talvez nunca tenha existido.

Não é necessário fabricar uma mentira quando se consegue fabricar a sensação de que todos já acreditam nela. Essa é uma forma de contaminação do ambiente em que as convicções políticas se desenvolvem, não uma prova automática de que determinado eleitor foi manipulado.

A preocupação atravessou fronteiras. Parlamentares americanos cobraram explicações da Meta sobre episódios brasileiros; especialistas independentes vinculados à ONU também manifestaram preocupação com restrições à expressão política. Cambridge Analytica e as operações russas de influência nas eleições americanas de 2016, episódios distintos, já haviam demonstrado por que dados pessoais e redes coordenadas exigem fiscalização.

A resposta não é entregar ao Estado o poder de escolher opiniões aceitáveis, nem tratar toda falha tecnológica como conspiração. É exigir registros preservados, transparência verificável, auditoria independente, revisão humana e responsabilização quando houver infração comprovada.

As audiências públicas articuladas nas comissões de Ciência e Tecnologia e de Defesa do Consumidor podem confrontar contratos, documentos e explicações técnicas. Uma eventual CPI dependerá dos requisitos constitucionais e dos fatos apurados. O que não se admite é transformar questões estruturais em mais uma briga entre vencedores e derrotados.

Uma democracia que depende apenas da boa vontade das plataformas para saber como seu debate público foi organizado tem um problema de soberania. Passamos décadas protegendo a manifestação final da vontade popular. Agora precisamos proteger também as condições de sua formação.

O Brasil sabe contar seus votos. Precisa demonstrar que também sabe fiscalizar o poder de quem organiza a realidade informacional em que esses votos são decididos.


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