Artigos

O fim das bets e a oportunidade de mudar o futebol brasileiro

Perda dos patrocínios das casas de apostas revela a dependência dos clubes de receitas extraordinárias e reforça a necessidade de planejamento, transparência e responsabilidade na gestão financeira.

30/10/2026
Publicidade
Expandir publicidade

O fim das apostas esportivas no Brasil trouxe uma preocupação imediata para o futebol: como os clubes vão sobreviver sem os milhões que recebiam das casas de apostas? A pergunta é compreensível. Afinal, 13 dos 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro exibiam marcas de bets em suas camisas. Em poucos anos, essas empresas se tornaram algumas das principais financiadoras do futebol nacional.

Mas a discussão precisa ir além da perda dos patrocínios. O que deveríamos questionar é como instituições centenárias, algumas com milhões de torcedores e receitas expressivas, passaram a depender tão rapidamente de um setor cuja sustentabilidade já era questionada em diversos países.

Defendo o fim das bets porque considero inaceitável que o entretenimento de alguns seja sustentado pelo sofrimento de tantas famílias. O crescimento das apostas veio acompanhado de endividamento, dependência e graves consequências sociais. Recursos que antes circulavam no comércio e ajudavam a movimentar a economia passaram a alimentar um mercado que, muitas vezes, transforma a vulnerabilidade financeira em oportunidade de lucro.

Também considero necessário reconhecer que o Congresso Nacional não dimensionou adequadamente os riscos quando aprovou a regulamentação das apostas. O avanço desse mercado revelou problemas muito maiores do que aqueles que imaginávamos. Reconhecer esse equívoco é parte da responsabilidade de quem exerce um mandato público.

Entretanto, a proibição, isoladamente, não resolve o problema. A experiência internacional demonstra que medidas restritivas, quando não acompanhadas de fiscalização eficiente, podem fortalecer operadores clandestinos. A Albânia, que adotou uma proibição ampla, acabou revendo sua política diante da permanência do mercado ilegal. Na Holanda, o endurecimento das regras também foi acompanhado por preocupações com a migração de apostadores para plataformas não autorizadas.

O Brasil precisa aprender com essas experiências. Combater as apostas ilegais exige atuação permanente sobre os meios de pagamento, bloqueio de plataformas clandestinas e fiscalização rigorosa da publicidade, inclusive daquela promovida de forma disfarçada nas redes sociais.

A prioridade deve ser proteger a população. Se a proibição não produzir os resultados esperados, será necessário avaliar seus efeitos e aperfeiçoar os instrumentos de controle. Políticas públicas precisam ser orientadas por resultados, não apenas por boas intenções.

Proibição das apostas esportivas exige a revisão das estratégias financeiras dos clubes.Rubens Cavallari/Folhapress

O futebol não pode viver de receitas passageiras

A dependência financeira das bets expôs uma fragilidade antiga do futebol brasileiro: a dificuldade de planejar o futuro.

É importante reconhecer que os dirigentes não estavam necessariamente contando com receitas incertas. Muitos patrocínios foram formalizados por contratos de vários anos, com valores previamente estabelecidos. Além disso, o próprio Estado havia autorizado e regulamentado a atividade.

O problema é que a existência de um contrato não elimina os riscos associados ao setor econômico que o financia.

Bastava observar o cenário internacional. No Reino Unido, as empresas de apostas ganharam enorme espaço no futebol após a legislação de 2005. Agora, os clubes da Premier League se preparam para retirar essas marcas da frente de suas camisas. Itália e Espanha já haviam adotado restrições severas aos patrocínios. Na Holanda, apenas quatro anos separaram a abertura do mercado online da proibição do patrocínio esportivo.

Os sinais estavam disponíveis. Ainda assim, boa parte dos clubes brasileiros tratou o crescimento extraordinário dessas receitas como se fosse uma transformação permanente do mercado.

E o dinheiro foi rapidamente incorporado às despesas.

Em 2024, segundo a Fifa, os clubes brasileiros movimentaram aproximadamente US$ 353 milhões em transferências internacionais de jogadores, um crescimento de 141% em relação ao ano anterior. Enquanto os investimentos em contratações aumentavam, a necessidade de fortalecer estruturas, reduzir endividamentos e desenvolver categorias de base continuava presente.

Não se trata de condenar a contratação de jogadores. Investir em equipes competitivas faz parte da atividade de qualquer clube. O erro está em assumir compromissos financeiros duradouros com base em receitas cuja continuidade depende de fatores externos.

Um contrato de quatro ou cinco anos com um atleta representa uma obrigação que não desaparece quando um patrocinador deixa de existir. A conta permanece, independentemente do desempenho em campo ou das mudanças na legislação.

Esse desequilíbrio não é novidade no futebol brasileiro. Há décadas, dirigentes são pressionados a apresentar resultados imediatos, mesmo quando isso compromete a saúde financeira das instituições.

A torcida cobra reforços. Os resultados precisam aparecer rapidamente. E, muitas vezes, os efeitos das decisões tomadas hoje só serão sentidos por administrações futuras.

É uma lógica que precisa mudar.

A experiência do Flamengo mostra que existe outro caminho

Durante minha gestão na presidência do Flamengo, entre 2013 e 2018, enfrentamos situações semelhantes.

Em 2016, a renovação dos contratos de televisão proporcionou aos clubes receitas extraordinárias, por meio do pagamento de luvas milionárias. Era uma oportunidade tentadora para aumentar imediatamente os investimentos no futebol profissional.

No Flamengo, fizemos uma escolha diferente.

Entendemos que aquele dinheiro não poderia ser tratado como receita permanente. Priorizamos o pagamento de dívidas, os investimentos em infraestrutura e o fortalecimento das condições financeiras do clube. Também preservamos recursos para a administração seguinte.

Não foi uma decisão fácil. Sofremos críticas, enfrentamos cobranças e tivemos de explicar repetidamente por que não estávamos utilizando todos os recursos disponíveis para contratar jogadores.

Mas administrar um clube exige responsabilidade com o patrimônio coletivo, inclusive quando as decisões corretas não produzem popularidade imediata.

O trabalho de recuperação financeira permitiu que o Flamengo construísse bases mais sólidas para crescer de maneira sustentável.

Essa experiência demonstra que é possível conciliar responsabilidade fiscal e ambição esportiva. O que não se pode é confundir crescimento com aumento descontrolado de despesas.

O Congresso e o governo têm responsabilidades

A crise provocada pelo fim dos patrocínios das bets não pode ser enfrentada apenas pelos clubes. O poder público também precisa participar da construção de alternativas.

Mas há uma diferença fundamental entre apoiar o futebol brasileiro e utilizar dinheiro público para cobrir decisões equivocadas de gestão.

Não considero adequado substituir os recursos das casas de apostas por subsídios destinados a sustentar folhas salariais milionárias ou financiar novas contratações. Isso significaria transferir para a sociedade o custo de um modelo que já demonstrou suas limitações.

O caminho deve ser outro: utilizar os instrumentos do Estado para estimular responsabilidade, transparência e sustentabilidade.

O Programa de Modernização da Gestão e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro, o Profut, criado em 2015, demonstrou que é possível vincular a renegociação de dívidas ao cumprimento de compromissos de gestão.

Essa experiência pode ser aperfeiçoada.

Uma das medidas necessárias é estabelecer critérios mais rigorosos para a utilização de receitas extraordinárias. Valores recebidos por operações excepcionais, luvas contratuais ou patrocínios sujeitos a riscos regulatórios deveriam ser prioritariamente direcionados à redução de dívidas, à infraestrutura e a investimentos capazes de produzir benefícios duradouros.

Também precisamos avançar na transparência. Clubes que recebem benefícios fiscais, participam de programas federais ou negociam dívidas com o poder público devem apresentar demonstrações financeiras auditadas, padronizadas e acessíveis à sociedade.

O torcedor tem o direito de conhecer a situação financeira da instituição que ajuda a sustentar. E o Estado tem a obrigação de exigir responsabilidade quando oferece condições especiais a essas entidades.

Outra frente importante é o incentivo aos investimentos estruturantes. O acesso a linhas de crédito, em condições economicamente responsáveis, pode contribuir para modernizar centros de treinamento, ampliar instalações esportivas e fortalecer a formação de jovens atletas.

Da mesma forma, o combate à transmissão ilegal de partidas precisa ser tratado com maior seriedade. A pirataria compromete receitas legítimas dos clubes e prejudica toda a cadeia econômica do esporte.

Essas medidas não resolvem todos os problemas, mas ajudam a construir um ambiente no qual a sustentabilidade financeira deixe de depender exclusivamente da disposição individual de cada dirigente.

Uma oportunidade para corrigir erros históricos

O futebol brasileiro já atravessou diferentes ciclos de expansão de receitas. Direitos de televisão, transferências de atletas, novos investidores e, mais recentemente, casas de apostas criaram expectativas de prosperidade.

Em muitos casos, porém, o aumento da arrecadação foi acompanhado por uma expansão ainda maior das despesas.

A consequência é conhecida: clubes com enorme potencial econômico continuam enfrentando dificuldades financeiras recorrentes.

O fim das bets torna esse problema mais evidente, mas não foi responsável por criá-lo.

Por isso, considero que o momento exige diálogo entre governo, Congresso Nacional, entidades esportivas e dirigentes. Não para buscar culpados ou promover confrontos, mas para estabelecer compromissos concretos de modernização.

O Brasil possui um dos maiores mercados de futebol do mundo. Temos talento, tradição, capacidade de formação de atletas e uma paixão popular que poucos países conseguem reunir.

Não é razoável que tamanha riqueza esportiva continue convivendo com práticas administrativas que comprometem o futuro dos clubes.

A proteção das famílias brasileiras deve permanecer no centro da política de enfrentamento às apostas. Ao mesmo tempo, a reorganização financeira do futebol precisa ser encarada como uma responsabilidade coletiva.

A próxima grande fonte de receitas certamente aparecerá. Pode vir de novas tecnologias, de mudanças nos direitos de transmissão ou de modelos de investimento que ainda estão se desenvolvendo.

Quando isso acontecer, o futebol brasileiro precisará estar preparado para não repetir os mesmos erros.

A verdadeira transformação não será encontrar outro patrocinador capaz de substituir as bets. Será construir clubes que não dependam de receitas extraordinárias para sobreviver.

O futebol brasileiro não precisa de mais uma solução temporária. Precisa, finalmente, fazer da boa gestão uma regra.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.

Veja mais no portal
cadastre-se, comente, saiba mais

Artigos Mais Lidos