Há um recorde e o que ele esconde. A partir de 1º de fevereiro de 2027, a Câmara dos Deputados terá 109 deputadas. É o maior número da história. São 19 cadeiras a mais do que as 90 de hoje, um crescimento de 21%. A manchete se escreve sozinha: as mulheres chegaram.
Chegaram. Mas a quantas?
As 109 deputadas ocuparão 21,2% das 513 cadeiras. Em um país onde as mulheres são 52% do eleitorado, o recorde ainda é uma minoria. Para cada mulher no Plenário, haverá quase quatro homens. Distrito Federal, Piauí e Roraima não elegeram nenhuma.
E o recorde veio de um funil mais estreito, não mais largo. As candidaturas femininas à Câmara caíram 24%, também segundo a Agência Câmara: eram 3.717 em 2022 e foram 2.820 em 2026. Elegeram-se mais mulheres a partir de menos mulheres na disputa. Isso diz menos sobre a abertura dos partidos e mais sobre quem eles escolheram deixar passar.
No Senado, o movimento foi parecido. Das 54 vagas em disputa, as mulheres levaram 12, o dobro das seis eleitas em 2018. A bancada feminina passará de 15 para 18 senadoras, 22% da Casa, de acordo com a Agência Brasil. Também é recorde. Também é minoria.
A pergunta, então, não é se as mulheres chegaram ao Congresso. É o que chegou junto com elas.
Estar na sala não é decidir na sala
Representação numérica é presença. Poder é outra coisa. Poder é decidir o que entra na pauta, o que fica na gaveta e quem relata o projeto que muda a vida de milhões.
No Congresso, esse poder mora em lugares específicos. Na presidência da Câmara e na do Senado, que nenhuma mulher jamais ocupou. Nas Mesas Diretoras. No colégio de líderes, onde se negocia o que vai a voto. Nas presidências das comissões que importam: Constituição e Justiça, Orçamento, Finanças. E nas relatorias das matérias que movem dinheiro.
É nesses postos que se mede o poder de uma bancada. E é neles que as mulheres seguem raras. Costumam ser lembradas para as comissões da mulher, da família, da assistência social. Temas essenciais, mas tratados como os cômodos dos fundos da casa. As chaves do cofre continuam em outras mãos.
Uma parlamentar pode ser eleita com votos recordes e passar quatro anos sem relatar nada relevante. Pode ocupar a cadeira sem nunca sentar à mesa. Quantidade abre a porta. Não garante lugar na reunião em que tudo é decidido.
O recorde tem cor
"Mulheres" é uma palavra que esconde muita gente. Quando se olha quem são as eleitas, o recorde ganha cor. E a cor é branca.
Um levantamento da Alma Preta, assinado pela jornalista Camila Rodrigues da Silva com dados do TSE, mostra o tamanho da diferença. Na Câmara, as deputadas brancas passaram de 56 para 73. As negras, de 31 para 34. As brancas ganharam 17 cadeiras. As negras, três. As mulheres negras eram 18,2% das candidaturas e serão 6,6% da Câmara: entre a candidatura e a posse, a presença delas encolhe a pouco mais de um terço. As indígenas eleitas são duas. No Senado, o retrato é ainda mais nítido: entre as 12 senadoras eleitas, nenhuma é preta, segundo a Alma Preta e o movimento Mulheres Negras Decidem, citado pela Agência Brasil.
O filtro tem nome: dinheiro, tempo de TV e apoio partidário. A lei manda reservar às mulheres ao menos 30% das candidaturas e dos recursos de campanha. Mas cota é piso, e piso é dividido de cima para baixo. Até o fim de setembro, segundo dados de prestação de contas do TSE, as candidaturas de mulheres negras tinham recebido 13% do Fundo Eleitoral distribuído; as de homens não negros, 43%. Os partidos decidem quais mulheres recebem o dinheiro que faz uma campanha viável. Com frequência, escolhem as que já têm sobrenome, mandato ou padrinho.
O recorte partidário, ainda segundo a Alma Preta, completa o retrato. Das 109 deputadas, 44 estão na direita e na extrema direita. Ali, 77% são brancas, e há uma única mulher preta. No campo da esquerda e da centro-esquerda, são 47 deputadas, 20 delas negras. No Senado, a maior bancada feminina será a do PL, com nomes do núcleo bolsonarista, como Michelle Bolsonaro e Bia Kicis. A bancada feminina não é um bloco. São projetos de país opostos, que às vezes só dividem o mesmo banheiro.
Ser mulher não basta
É preciso dizer o que costuma ficar no silêncio: ser mulher não é suficiente para proteger mulheres.
O patriarcado não é um clube de homens. É uma lógica de poder, e lógicas não têm sexo. Elas são aprendidas, recompensadas e reproduzidas. Inclusive por mulheres.
Num espaço construído por homens e para homens, a forma mais rápida de ser aceita é falar a língua da casa: endurecer o tom, desdenhar das pautas "de mulher", provar que não se é "uma daquelas". E há a fidelidade ao líder, ao partido, ao padrinho que financiou a campanha e espera retribuição na hora do voto.
O resultado aparece nos votos e nos projetos. A deputada Caroline de Toni, do PL, que presidiu a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara em 2024 e acaba de ser eleita senadora, apresentou um projeto para acabar com a cota de 30% de candidaturas femininas, como lembrou a Alma Preta: a mesma regra que abriu espaço para mulheres como ela. A presença feminina vira, assim, selo de legitimidade para decisões que nada têm de feministas.
Isso não é um ataque às mulheres que pensam diferente. É um aviso sobre a armadilha do corpo como programa. Um corpo feminino no Plenário não é uma plataforma política. O que protege mulheres é compromisso com mulheres: com a trabalhadora, com a mãe solo, com a vítima que espera uma medida protetiva que não chega. O Congresso não é diferente do resto do país. É o país, com microfone.
O que mudaria o jogo
Nada disso significa desprezar o recorde. Cada cadeira conquistada custou caro, e muitas das eleitas vão fazer diferença. Mas comemorar o número sem perguntar pelo poder é aceitar a vitrine no lugar da loja.
Mudar o jogo exige três coisas. Fiscalizar de verdade a distribuição do dinheiro público de campanha, para que a cota não sirva só a mulheres já elegíveis. Cobrar dos partidos mulheres, e mulheres negras, nas lideranças, nas Mesas e nas comissões que decidem. E cobrar das eleitas o que se cobra de qualquer parlamentar: votos, não símbolos.
O primeiro teste tem data. Na abertura da legislatura, em fevereiro, Câmara e Senado elegem suas Mesas e, nas semanas seguintes, distribuem as comissões. Basta contar quantas mulheres estarão nesses lugares, e em quais.
O eleitorado também tem tarefa. Votar em mulher é um começo. Perguntar que mulher, e para defender o quê, é o que separa representação de enfeite.
As mulheres chegaram sim ao Congresso. O poder ainda está do lado de fora, esperando que alguém abra a porta. E não basta que seja uma mulher. Tem que ser uma mulher disposta a deixar as outras entrarem.
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