Uma nação se constrói com pessoas, projeto de governo, ideais. A insistência em reivindicar o direito de governar acima do pleito democrático age em contraponto a essas vias. Entre o desejo individual de poder e a responsabilidade de representar um país existe uma dimensão que a linguagem, por mais sofisticada que seja, não consegue eliminar resultado das urnas.
A circulação de quatro versões de uma carta atribuída a Flávio Bolsonaro, após sua derrota na eleição presidencial de 2026, oferece uma oportunidade para examinar o lapso entre o escrito e o legitimado. O documento interessa pelo que se é declarado através dele e pela forma que tenta construir a posição política de quem o assina.
Quatro versões estavam longe de representar quatro projetos políticos. Elas tentam construir quatro possibilidades de estabilizar uma posição enunciativa. O olhar para essas mudanças textuais desloca-se para o que se tentou reafirmar e construir com sucessivas reformulações.
Uma das formulações iniciais apresentava o autor como "verdadeiro presidente eleito do Brasil". Posteriormente, a expressão foi substituída para "líder do Brasil". A alteração reivindica, em primeira instância, uma condição institucional vinculada ao resultado de uma eleição. A posteriori, utiliza uma categoria política mais ampla, cuja existência não depende necessariamente de investidura formal.
Na teoria dos atos da fala de Austin (1962) demonstra-se que determinadas enunciações podem realizar ações, desde que existam condições convencionais e institucionais apropriadas. Logo, afirmar uma identidade de liderança, reivindicar representação popular ou apresentar-se como intérprete privilegiado da vontade nacional são atos discursivo. Não refletem de fato um mandato.
É nesse limiar que surge o que propomos chamar aqui de distopia linguística, ou seja, uma situação em que o discurso político procura instituir simbolicamente uma realidade que não encontra correspondência nas condições institucionais necessárias à sua existência. A distopia começa quando o sujeito deixa de reconhecer a diferença entre representar o país e representar a si mesmo como se fosse o país.
E o brasão?
Uma das versões do documento apresentava um brasão com a inscrição "Estados Unidos do Brazil", posteriormente substituído por outro com a identificação atual da República Federativa do Brasil. A primeira inscrição remete a uma denominação histórica do Estado brasileiro. Seu deslocamento para uma declaração política contemporânea, entretanto, merece um salto nas veredas semióticas.
Charles Sanders Peirce, em uma visão dos signos mais tradicional, assume que há proximidade significativa nas relações de semelhança, indicação e convenção. Um brasão nacional mobiliza essas dimensões: possui uma configuração visual reconhecível e remete, por convenção histórica e jurídica, à autoridade estatal. O uso do brasão em qualquer documento pode produzir efeitos de oficialidade.
Barthes amplia essa leitura ao demonstrar como elementos visuais podem adquirir significados culturais e ideológicos para além da sua função imediata. Nesse contexto, pode indicar solenidade, continuidade institucional e que uma autoridade superior é signatária do documento.
A substituição do emblema histórico pelo atual evidencia uma alteração material importante na apresentação da carta. Quando o símbolo de Estado acompanha a autoproclamação de um político, ocorre uma aproximação entre duas instâncias que devem permanecer distintas: a representação institucional da república legitimada e a reivindicação pessoal de poder. O brasão é parte da construção histórica coletiva.
A gramática do eu e a fabricação do sujeito político
Maingueneau (1980) oferece instrumento para compreender como um enunciador constrói sua imagem de autoridade por meio da linguagem. O ethos discursivo se aparta da personalidade real de quem escreve. É a imagem construída no próprio ato de enunciar, por meio das escolhas lexicais, do tom, da organização argumentativa e da posição assumida diante dos destinatários.
Quando a carta passa da reivindicação de uma condição presidencial à uma afirmação de uma liderança, altera-se a posição discursiva que o sujeito procura ocupar.
É possível criar discurso com credibilidade sem legitimidade institucional. Nesse sentido, o documento oferece um caso relevante para compreender como a linguagem política mobiliza símbolos, referências históricas e expressões de pertencimento coletivo para construir uma imagem de autoridade.
A frase "não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil" estabelece um enunciado de oposição por dois verbos que podem designar um deslocamento territorial, mas carregam valores discursivos diferentes. Fugir, admite uma interpretação associada à evasão ou afastamento diante de uma ameaça. Sair é semanticamente mais neutro.
A estrutura negativa seguida de uma afirmação corretiva procura orientar a intepretação do leitor ao rejeitar uma caracterização desfavorável e oferece outra, apresentada como legítima. Quando acrescenta a preposição "pelo", o enunciador transforma uma decisão pessoal em ação justificada por uma finalidade coletiva. Ele pretende transformar a sua epopeia autobiográfica em narrativa coletiva de uma nação.
A distopia não está na IA
A possibilidade de utilização de inteligência artificial na preparação dos documentos acrescenta uma dimensão atual nesse contexto. Sistemas generativos podem reorganizar argumentos, reformular frases, produzir diferentes registros e participar da composição visual de arquivos. Entretanto, a identificação de uma ferramenta digital no processo de produção não demonstra que ela tenha determinado escolhas de conteúdo linguístico.
Hannah Arendt, em suas reflexões sobre a verdade e política, examinou os riscos de submeter a realidade factual às conveniências do poder. A política depende de interpretações, conflitos e divergências. Quando a realidade institucional passa a ser tratada como uma versão opcional, o discurso paralelo deixa de disputar apenas os significados dos fatos e é validado como verdade plena.
A questão não é, portanto, se a máquina replicou versões, mas quais são as relações que essas palavras estabelecem com a intenção de quem as utiliza para produzir contextos narrativos em uma velocidade considerável, usando brasão fora do próprio território nacional. A máquina gera texto conforme o prompt humano.
A distopia linguística ocorre quando se maneja a linguagem com a tecnologia para dissolver fronteiras do que se é para o que se pretende ser. Nenhuma inteligência, seja ela humana ou artificial pode converter a vontade coletiva sem o reconhecimento dos cidadãos.
Referências
ARENDT, Hanna. Verdade e política: In: Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva.
AUSTIN, J.L. How to do things with words. Oxford: Clarendon Press, 1962.
BARTHES, Roland. Mitologias.
MAINGUENEAU, Dominique. Análise de texto de comunicação. São Paulo: Cortez.
PEIRCE, Charles. Collected Papers of Charles Sanders Peirce.
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