Tenho acompanhado, com preocupação, críticas ao chamado "identitarismo", vindas tanto de setores da esquerda quanto da direita. Mas precisamos fazer uma reflexão mais profunda: por que o reconhecimento das identidades de determinados grupos incomoda tanto?
Defendo, com absoluta convicção, os direitos universais. Todas as pessoas devem ter acesso à educação, saúde, trabalho, moradia, cultura, esporte, lazer, segurança e dignidade. Esses direitos não podem depender de orientação sexual, identidade de gênero, raça, classe social, religião ou qualquer outra condição.
Mas existe uma questão fundamental: de que adianta proclamar direitos universais se, na prática, determinados grupos continuam sendo deixados para trás?
Pessoas LGBTI+, mulheres, pessoas negras, indígenas e pessoas com deficiência enfrentam desigualdades e discriminações que não desaparecem simplesmente porque a Constituição afirma que todas as pessoas são iguais perante a lei.
E precisamos reconhecer, inclusive, que essas exclusões também acontecem dentro de espaços progressistas e de organizações que defendem a justiça social.
Por isso, nossa organização não é capricho, privilégio ou fragmentação da sociedade. É uma necessidade histórica!
A luta por direitos específicos não é inimiga da luta por direitos universais. Pelo contrário, é uma das condições para que a universalidade se torne realidade.
Não queremos direitos maiores do que os de qualquer outra pessoa. Queremos que os direitos de todas as pessoas também cheguem até nós!
E temos conquistas concretas que demonstram a importância dessa organização.
Nas eleições de 2026, tivemos um resultado histórico: 35 pessoas LGBTI+ eleitas para o Congresso Nacional, as assembleias legislativas e a Câmara Legislativa do Distrito Federal. São 13 representantes na Câmara dos Deputados, uma pessoa no Senado e outras 21 nos legislativos estaduais e distrital.
Essa conquista precisa ser celebrada!
E essas pessoas não foram eleitas apenas para defender direitos LGBTI+. Sua presença também deve contribuir para os grandes debates nacionais sobre educação, saúde, redistribuição de renda, emprego, moradia, combate à pobreza, desenvolvimento sustentável e justiça social. Já temos exemplos disso na atuação de parlamentares federais LGBTI+ na legislatura atual que está se encerrando, tendo como destaque o fim da jornada 6x1.
É exatamente isso que defendemos: nossas identidades não nos impedem de pensar o conjunto da sociedade. Ao contrário, nossas experiências podem ampliar a compreensão das desigualdades e enriquecer a construção de políticas públicas para todas e todos.
Representatividade não significa defender apenas quem se parece conosco. Significa também levar novas experiências, perspectivas e compromissos para a construção de um país melhor.
É por isso que o movimento LGBTI+ brasileiro continuará organizado, presente e atuante.
Estamos nas ruas, nas nossas mais de 200 Paradas do Orgulho LGBTI+ pelo país, nas nossas mais de 52 redes nacionais, nas organizações da sociedade civil, nas universidades, nos conselhos, nos espaços institucionais, nas comunidades e nas redes e mídias sociais.
E vamos continuar nos organizando cada vez mais!
Precisamos de empregos, salários dignos, educação pública de qualidade, saúde universal, políticas sociais e desenvolvimento econômico, como toda a população brasileira.
Mas também precisamos de políticas específicas para enfrentar a violência, a discriminação, a exclusão e as desigualdades que atingem nossas comunidades.
Uma coisa não exclui a outra!
Reconheço que existe um debate legítimo sobre os riscos de fragmentar excessivamente as lutas sociais. Entretanto, a resposta não pode ser silenciar identidades, apagar diferenças ou exigir que grupos historicamente discriminados abandonem suas reivindicações.
A unidade não se constrói apagando as diferenças. Constrói-se respeitando cada pessoa e articulando nossas lutas em torno de objetivos comuns.
REPRESENTATIVIDADE IMPORTA, SIM!
Importa porque precisamos participar das decisões que afetam nossas vidas. Importa porque ninguém conhece melhor determinadas experiências de exclusão do que quem as vivencia. Importa porque uma democracia não pode falar em nome de todas as pessoas enquanto algumas continuam sem voz.
Mas representatividade, sozinha, não basta. Ela precisa caminhar junto com a redistribuição de renda, a justiça social, as políticas públicas e a transformação das estruturas que produzem desigualdades.
E aqui quero fazer outra reflexão, inclusive para dentro dos próprios movimentos sociais.
DEFENDER DIREITOS NÃO SIGNIFICA CANCELAR PESSOAS!
Tenho muitas reservas em relação à chamada cultura da "lacração" e do "cancelamento".
Não acredito que possamos construir uma sociedade mais justa transformando cada erro de linguagem ou piada em uma sentença moral contra alguém.
Se uma pessoa utiliza uma sigla desatualizada, pronuncia uma palavra inadequada, piada ou demonstra desconhecimento sobre determinada identidade, nossa primeira atitude deveria ser perguntar, explicar, sensibilizar e educar.
Não podemos agir como se fôssemos os imperadores do conhecimento, os únicos donos da verdade ou os fiscais permanentes da linguagem alheia.
Ninguém nasce sabendo tudo. E ninguém aprende quando é humilhado!
Muitas pessoas querem compreender, querem respeitar e querem mudar, mas acabam se afastando quando encontram apenas acusações, hostilidade ou julgamentos precipitados.
A pedagogia dos direitos humanos precisa ser uma pedagogia do diálogo, da escuta, da empatia e da transformação.
Isso não significa tolerar discriminação, violência, ameaças ou violações de direitos. Há situações graves em que a responsabilização e as medidas jurídicas são necessárias, inclusive imediatamente para proteger vítimas.
Mas precisamos distinguir um erro cometido por desconhecimento de uma atitude deliberada de discriminação.
Sempre que possível, devemos priorizar a sensibilização, a orientação, a educação e o diálogo. A judicialização não deve substituir nossa capacidade de construir entendimento.
Não apoio a lacração como método de militância. Não pratico o cancelamento como estratégia de transformação social.
Prefiro construir pontes a levantar muros.
Prefiro conquistar uma consciência a vencer uma discussão nas redes sociais.
Prefiro transformar um possível adversário em alguém capaz de compreender nossos direitos.
E acredito que essa postura também é uma forma de coragem política.
Como professor, pesquisador e ativista dos direitos humanos há mais de quatro décadas, aprendi que educar exige paciência, firmeza, humildade intelectual e disposição para reconhecer que nós também podemos aprender com as outras pessoas.
Não queremos uma sociedade dividida em identidades que competem entre si. Queremos uma sociedade em que diferentes identidades possam conviver, dialogar e construir juntas um projeto coletivo de cidadania.
O universal não pode ser uma abstração bonita que esconde exclusões concretas.
O verdadeiro universalismo precisa enxergar cada pessoa em sua humanidade e em suas diferenças.
Nossa identidade não é uma ameaça à democracia. O que ameaça a democracia é negar a alguém o direito de existir, de participar e de ser reconhecido.
Portanto, defender nossa identidade não significa abandonar a luta coletiva. Significa exigir que essa luta seja verdadeiramente de todas e todos.
Continuaremos dialogando, construindo alianças, ocupando espaços e defendendo políticas públicas universais e específicas, porque a justiça social precisa alcançar todas as pessoas.
Não abriremos mão de nossa identidade, de nossa história, de nossa organização nem de nossa representatividade.
Mas também não abriremos mão da educação, do diálogo, da convivência democrática e do respeito às diferenças de pensamento.
Afinal, uma sociedade verdadeiramente justa não é aquela que trata todas as pessoas como se fossem iguais em suas condições de vida. É aquela que reconhece as desigualdades e trabalha para superá-las.
DIREITOS UNIVERSAIS, SIM! POLÍTICAS ESPECÍFICAS, TAMBÉM! REPRESENTATIVIDADE, SEMPRE! CANCELAMENTO, NÃO! EDUCAÇÃO E DIÁLOGO, SIM!
Porque ninguém pode ficar para trás. E ninguém deve ser impedido de aprender, mudar e caminhar conosco!
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