Pouco mais de uma semana depois do segundo turno, com os ânimos acalmados e a vitória de Lula bem comemorada, é hora de avaliar - agora sim -, depois do resultado final da eleição presidencial - a configuração de forças do Congresso Nacional. Muito se falou, depois do primeiro turno, da maioria esmagadora de parlamentares eleitos alinhados com o Bolsonarismo.
Comentaristas e "pitaqueiros" de toda ordem davam conta de que mesmo que Lula ganhasse a eleição - e assim se fez - este não conseguiria governar pois não teria forças para isso sem o número suficiente de deputados e deputadas e senadores e senadoras para aprovar projetos do Executivo enviados ao Parlamento.
Acontece que é preciso dizer que o Parlamento pode muito, mas não pode tudo! Mesmo no sistema presidencialista de coalizão que somos regidos, a caneta do presidente da República tem um peso enorme e pouca gente resiste, quando ocupa um cargo eletivo, aos afagos do mandatário da Nação. Ainda que seja uma oposição aguerrida, e não estou me referindo aqui aos cachorros raivosos hipnotizados por uma "seita extremista" (termo redundante este), não oferecerá resistência a tirar aquela foto com o presidente ou ser recebida em agenda oficial por ele.
E quando se trata de Lula então…Ele é um sedutor nato! Sedutor no sentido de ser um excelente ouvinte e, por consequência, bom argumentador. Ele é o rei da política da aglutinação, o homem cunhado de esquerdista que fez governos muito mais voltados à centro-esquerda, quando não ao centro bem centro. Ciro Nogueira - aquele senador derrotado nas urnas nesta eleição e que foi Chefe da Casa Civil no governo de Jair Bolsonaro - já dizia: "Ele (se referindo a Lula) é capaz de me seduzir em 15 minutos. Ele é macio e jeitoso!"
Sendo assim, essa "sólida" oposição criada em teorias ficcionais por analistas de ocasião não resistirá aos primeiros acenos de Lula. Além disso, é preciso abrir aqui um brevê parênteses sobre como funciona a Câmara e o Senado e suas diferenças peculiares na hora de negociar com o Executivo.
O Senado é a Câmara Alta, a casa onde os presidentes da República e até os governadores terminam suas carreiras, o lugar - mesmo em tempos de discursos rasos e pautados pela fragilidade dos argumentos "digitais" - que abriga debates profundos e é do Senado que "vem" o presidente do Congresso Nacional. Ou seja, o cara que manda nas duas Casas do Parlamento no "frigir dos ovos" e na votação do Orçamento Federal. Além disso, a noção de institucionalidade, de importância das instituições democráticas funcionando a todo vapor e do respeito à chamada "liturgia do cargo", não passam despercebidos por lá.
Com propriedade posso dizer isto, pois trabalhei naquela Casa de 2005 a 2011, que os servidores do Senado guardam a instituição com muito apreço e orgulho. Não que os da Câmara não o façam, mas quero me apegar aqui àquela análise construída nos primeiros dias pós primeiro turno de que o cenário de maioria oposicionista no Senado era ainda mais devastador que na Câmara, principalmente se Lula fosse eleito. Afinal, de acordo com visões precipitadas, Lula não iria conseguir aprovar nomeações de ministros do Supremo ou indicações de autoridades diversas. Mas aí é que está o engano. No Senado, minha gente, a coisa é muito mais complexa.
Tomemos como exemplo a tentativa de Golpe de Estado praticada por apoiadores de Jair Bolsonaro naquele grotesco e bizarro 8 de janeiro de 2023. Quem conseguiu conter a massa enfurecida no Parlamento que queria atravessar da Câmara para o Senado foi a Polícia Legislativa do Senado. A Secretaria de Polícia da Casa até pediu reforço um dia antes da barbárie, mas foi ignorada pela Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal.
Então me parece simplista acreditarmos que a maioria bolsonarista que chega ao Senado vai ditar os rumos do governo Lula. Primeiro que essa "maioria" de senadores e senadoras não é exatamente "bolsonarista raiz". Segundo que até os novatos inflados por votações expressivas e suas personalidades beligerantes e arrogantes, "patinarão" antes de conhecer não só o regimento, mas os atalhos para se fazer política naquela Casa tão orgulhosa do seu próprio poder dentro da configuração da democracia brasileira.
Fora tudo isso, vamos imaginar Carlos Bolsonaro e Michelle Bolsonaro no mesmo ambiente físico e político por alguns minutos. Pensem nestas duas personalidades "se chocando" no Plenário, discordando antes mesmo de convergirem, e ainda: disputando a liderança da bancada do PL. Acho que não precisamos imaginar mais nada…
Na política, nesses 20 anos em Brasília, aprendi que rapidinho os "radicais" são isolados. Seus pares podem bater palma num primeiro momento para dar a chamada "corda para se enforcar", mas depois ninguém quer fazer parte de grupos que não têm aquelas qualidades que são consideradas as maiores habilidades nesse "ramo": a negociação e a mediação!
Portanto, senhoras e senhores, assistiremos de camarote este pessoal ser literalmente escanteado e engolido pelas velhas raposas do Senado que ainda continuam por lá, seja na máquina administrativa da Casa, seja no Plenário com votos conquistados com a mesma urna eletrônica que estes "alterados" parlamentares se elegeram. O destino destes? A cassação de mandato por quebra de decoro! Ou então: a visibilidade nas redes sociais, por óbvio, e a invisibilidade nos corredores do tão elegante Salão Azul da Câmara Alta.
Enquanto isso, a caneta do presidente da República segue firme e potente como deve ser o último mandato do líder político com mais feitos da história democrática recente do Brasil - vide as quatro eleições presidenciais que ganhou, a sucessora que elegeu para dois mandatos - mesmo que não tenha concluído o segundo por um golpe travestido de impeachment - e a virada histórica num segundo turno que o elegeu mesmo ele ficando atrás do seu adversário no primeiro turno.
Conclusão: nunca antes na história desse país um Parlamento pôde tanto, porém com Lula Presidente novamente, é fato que não poderá tudo!
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