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Contradições e saques à prova

27/10/2005
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Ricardo Ramos

A CPI do Mensalão chega hoje ao ponto mais alto de suas investigações com a megaacareação que vai colocar lado a lado os principais personagens do escândalo com sacadores dos quatro partidos da base do governo Lula atingidos pela crise: PP, PT, PTB e PL. Pela primeira vez juntos, o tesoureiro recém-expulso do PT, Delúbio Soares, o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza e a diretora financeira da SM&B, Simone Vasconcelos. O trio ficará ao lado dos beneficiários para esclarecer quanto foi sacado, quem e por que sacou recursos das contas do empresário mineiro.A discrepância entre os valores declarados pelos convocados para a acareação é enorme. A diferença entre os valores mínimos retirados de saques no Banco Rural e os máximos é de um para três. Se fossem considerados os menores valores, os saques somariam R$ 6,1 milhões. Considerando-se os maiores, chega-se à cifra de R$ 19,6 milhões.Delúbio, Valério e Simone passarão todo o dia no auditório da comissão. Um a um, a partir das 10h, serão chamados cinco envolvidos no mensalão. Do PL, o presidente do partido, Valdemar Costa Neto, que renunciou ao mandato de deputado em agosto, e o ex-tesoureiro Jacinto Lamas. Do PP, o ex-assessor da liderança do partido João Cláudio Genu, Do PTB, o ex-tesoureiro Emerson Palmieiri. Do PL, José Luiz Alves, ex-chefe-de-gabinete do ex-ministro dos Transportes Anderson Adauto. E do PT, Manoel Severino dos Santos, ex-presidente da Casa da Moeda e tesoureiro da campanha da petista Benedita da Silva ao governo do Rio, em 2002.A megaacareação foi marcada para elucidar as contradições apresentadas por eles em seus respectivos depoimentos no Congresso. Simone e Valério entregaram listas com valores e destinatários distintos dos saques feitos das contas da empresa à Polícia Federal. O próprio Delúbio, que entrou com pedido de habeas-corpus preventivo para não ser preso, em caso de se auto-incriminar, também já deu às CPIs dos Correios e do Mensalão declarações contraditórias sobre valores de saques autorizados.“Quem entregou nos valores em dinheiro diz que entregou tal quantia. Quem recebeu, diz que recebeu, mas as quantias não batem”, observa o relator da CPI, deputado Ibrahim Abi-Ackel (PP-MG). A prova de fogo para os beneficiários também deve colocar em xeque, mais uma vez, a versão de que os empréstimos tomados por Valério foram contraídos, a pedido de Delúbio, para financiar campanhas de partidos da base aliada.SugestõesAnteontem, o empresário Marcos Valério apresentou um conjunto de sugestões aos parlamentares para tornar “mais eficiente e produtiva” a megaacareação da CPI do Mensalão. No texto encaminhado à CPI, o empresário sugeriu cinco procedimentos para “contribuir para o êxito das investigações”:1) Os registros de entrada e saída da agência do Banco Rural, em Brasília, dos acareados; 2) os recibos dos saques assinados por eles nas agências do banco em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro; 3) os e-mails e faxes trocados por Simone Vasconcelos entre as agências do banco nas três cidades, com as autorizações de saques; 4) os registros de entrada, presença ou estada nos hotéis Gran Bittar, Nacional e Blue Tree de Brasília e Blue Tree, Sofitel, Intercontinental e Paulista Plaza em São Paulo, nas datas de saques; 5) por fim, os registros telefônicos, fruto das quebras de sigilo determinado pela CPI dos Correios, em nome de Valério, Simone e das sedes da SMP&B em Brasília e em Belo Horizonte.Não se sabe se os parlamentares da CPI vão acatar as sugestões de Valério. Abaixo, o Congresso em Foco aponta contradições que serão postas à prova hoje durante a megaacareação:PLValdemar Costa NetoJacinto LamasHá uma contradição do valor total sacado pelo partido declarado por todos os envolvidos. A relação entregue por Simone Vasconcelos à Polícia Federal Jacinto Lamas sacou, entre 16 de setembro de 2003 e 19 de fevereiro de 2004, R$ 2,4 milhões. Marcos Valério, por sua vez, informou à PF que o PL sacou entre 26 de fevereiro de 2003 até 3 de agosto de 2004. Em depoimento à CPI do Mensalão, contudo, Lamas disse que sacou R$ 1,3 milhão. Já Valdemar disse à mesma comissão que o PL recebeu R$ 6,5 milhões a pedido de Delúbio Soares. Valdemar disse que o dinheiro recebido de Valério custeou dívidas de campanha do partido nas eleições de 2002.PPJoão Cláudio GenuA relação entregue por Simone Vasconcelos à Polícia Federal Genu sacou R$ 1,6 milhão, entre 17 de setembro de 2003 e 201 de janeiro de 2004. Segundo o empresário Marcos Valério, o assessor do PP sacou, entre 17 de setembro de 2003 e 5 de julho de 2004, R$ 4,1 milhões – parte desses recursos pela corretora Bonus-Banval. Em depoimento à CPI do Mnesalão, entretanto, Genu disse que só sacou R$ 700 mil das contas do empresário na agência do Banco Rural em Brasil. A versão do assessor do PP foi a quarta dada pela cúpula do partido desde o início da crise política (leia mais).PTBEmerson PalmieiriTrês grandes dúvidas pairam sobre o tesoureiro informal do PTB: os saques feitos no Banco Rural, o misterioso destino dado ao acerto milionário entre o partido e o PT para a campanha eleitoral de 2004 e a viagem para captar dinheiro para o PT e o PTB em Portugal. Segundo a lista de saques entregue pelo empresário Marcos Valério, Palmieiri sacou R$ 2,46 milhões, entre 16 de dezembro de 2003 e 12 de agosto de 2004. A lista da diretora-financeira da SMP&B, por sua vez, revela que ele retirou apenas R$ 200 mil entre os dias 7 e 14 de janeiro de 2004. Entretanto, o tesoureiro informal do PTB afirma que jamais sacou dinheiro das contas do Banco Rural. “Esse dinheiro jamais entrou no PTB”, disse à CPI do Mensalão.Palmieri afirmou à CPI que o empresário Marcos Valério levou, em dinheiro vivo, R$ 4 milhões referentes ao acerto para a campanha eleitoral do PTB em 2004. Foram duas levas, segundo o tesoureiro do partido: uma de R$ 2,2 milhões e outra de R$ 1,8 milhão, no início de julho do ano passado. Por último, a viagem que Palmieri e Valério fizeram para supostamente captar recursos.PTManoel Severino SantosNa lista apresentada pelo empresário Marcos Valério à Polícia Federal, Manoel Severino sacou R$ 2,6 milhões entre 19 de agosto de 2003 e 5 de julho de 2004. Em depoimento à CPI do Mensalão, o ex-coordenador da campanha de Benedita da Silva, contudo, admitiu ter sacado apenas R$ 100 mil, que foi para a candidata ao governo do Rio.

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