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Usina de Energia Eólica (UEE) em Icaraí, no Ceará (CE) [fotografo]Divulgação/Ari Versiani/PAC [/fotografo]
Claudio J. D. Sales, Eduardo Müller Monteiro, Paulo Guilherme Coimbra e Laryssa Ferreira*
Anúncios sobre rentabilidade de empresas elétricas despertam muita atenção e, frequentemente, muitas paixões. Mesmo quando deixamos de lado os aspectos mais ideológicos que surgem ao se mencionar a palavra “lucro”, permanece sempre uma dúvida técnica: qual o melhor indicador para se avaliar se uma empresa ou um setor econômico está entregando rentabilidade adequada para seus acionistas, para a sociedade e para os governos? A resposta é simples: depende do tipo de empresa e de setor.
No caso de setores de infraestrutura, o cuidado mais importante ao se interpretar a rentabilidade envolve lembrar que esses setores são muito intensivos em capital e, portanto, um lucro de X bilhões de reais não pode ser avaliado sem antes sabermos quantos Y bilhões de reais foram investidos para propiciar o lucro obtido. Esse tipo de perspectiva não é revelado por indicadores mais conhecidos e intuitivos como Lucro Líquido.
Daí surge a importância do conceito de EVA (“Economic Value Added” em inglês, ou Valor Econômico Adicionado), métrica que é capaz de medir o valor econômico agregado acima do capital investido. Em outras palavras, o EVA é positivo se o retorno sobre o capital investido for superior ao custo de capital alocado na atividade. Em setores regulados, a expectativa de longo prazo é que o EVA, em média, flutue ao redor de zero, indicando um retorno sobre capital compatível com o custo de capital.
A fim de capturar o impacto da intensividade de capital sobre a rentabilidade de empresas do setor elétrico, acabamos de concluir a 5ª. edição do estudo desenvolvido pela KPMG e pelo Instituto Acende Brasil com o objetivo de estimar o EVA das empresas elétricas brasileiras a partir dos demonstrativos de resultado publicados entre 2017 e 2021, uma vez que os dados de 2022 só estarão disponíveis a partir de abril de 2023.
O estudo reflete o desempenho econômico de uma amostra de 47 empresas – 29 distribuidoras, 4 transmissoras, 10 geradoras e 4 geradoras/transmissoras – selecionadas a partir de um universo de 93 empresas que tinham dados disponíveis para todos os 5 anos do horizonte de análise.
Além da amostra de empresas e do horizonte de análise, outra escolha importante para se estimar o EVA é o custo de capital. A fim de fugir de controvérsias e permitir transparência e reprodutibilidade dos cálculos, adotamos como “proxy” do custo de capital o custo de capital regulatório (WACC regulatório) adotado pela Aneel para definir a tarifa: (a) de geradoras cotistas; (b) de transmissoras; e (c) de distribuidoras. Parte-se do WACC real definido e a inflação projetada para o ano para se obter o custo do capital nominal, que é então contraposto ao retorno sobre capital investido para se obter o EVA. A metodologia do estudo é detalhada no documento: www.acendebrasil.com.br/estudos.
Os resultados desta 5ª. edição do estudo requereram doses extras de cuidado e de análise para uma interpretação robusta porque, conforme apontado na Tabela 1 abaixo, no ano de 2021 houve desvio significativo entre a inflação projetada e a inflação efetiva do ano.
Tabela 1 – Inflação projetada e inflação efetiva
| Inflação Projetada | Inflação Efetiva (IPCA) | Diferença entre Inflações (Projetada – Efetiva) | |
| 2017 | 4,00% | 2,95% | 1,05% |
| 2018 | 3,77% | 3,75% | 0,02% |
| 2019 | 3,50% | 4,31% | -0,81% |
| 2020 | 3,24% | 4,52% | -1,28% |
| 2021 | 3,18% | 10,06% | -6,88% |
| R$ bilhões | EVA com Inflação Projetada | EVA com Inflação Efetiva | Diferença entre EVAs (Projetado – Efetivo) |
| 2017 | -18,2 | -13,6 | -4,7 |
| 2018 | -20,0 | -19,9 | -0,1 |
| 2019 | -10,6 | -14,7 | 4,1 |
| 2020 | +1,9 | -4,3 | 6,2 |
| 2021 | +24,4 | -13,7 | 38,1 |
| Total | -22,5 | -66,2 | 43,6 |