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Após 30 anos, reforma tributária chega à última parada no Congresso

Aprovado pelo Senado, último projeto de regulamentação da reforma volta à Câmara. Discussões sobre reforma começaram ainda no governo FHC. Veja a linha do tempo.

1/10/2025
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A reforma tributária avança para a reta final de uma corrida legislativa de três décadas, marcada por idas e vindas e pela resistência de estados, municípios e empresários. Com a aprovação pelo Senado do segundo e último projeto de regulamentação, a reforma volta à Câmara para sua última parada no Legislativo. O texto será reexaminado pelos deputados porque foi modificado pelos senadores. A proposta, relatada pelo senador Eduardo Braga (MDB-AM), trata de pontos centrais como o Comitê Gestor do IBS, a calibragem da alíquota de transição e normas gerais de tributos como o Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD) e o Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis (ITBI).

O que a reforma busca

O objetivo central da reforma, promulgada em 2023, é simplificar o sistema tributário brasileiro, considerado um dos mais complexos do mundo, com cinco tributos diferentes incidindo sobre o consumo. Trata-se de uma reforma sobre bens de consumo e serviços, não sobre renda. A expectativa é que a mudança reduza custos para empresas, aumente a segurança jurídica, diminua litígios e estimule investimentos. Também se espera que a reforma traga mais transparência sobre o que se paga de imposto e mais equidade, já que mecanismos como o cashback devolvem parte dos tributos para famílias de baixa renda. Veja abaixo as tentativas de aprovação da reforma tributária nos últimos 30 anos.

Linha do tempo: as tentativas de reforma tributária desde a redemocratização.Arte Congresso em Foco

Fernando Henrique Cardoso

No governo Fernando Henrique Cardoso, a primeira grande tentativa de aprovar uma reforma tributária ampla ocorreu em 1995, com a apresentação da PEC 175/95. A proposta, relatada pelo deputado Mussa Demes (PFL-PI), tinha como eixos centrais a unificação parcial dos tributos sobre o consumo, a criação de uma legislação nacional para o ICMS, eliminando as diferenças estaduais que alimentavam a guerra fiscal, e mudanças no sistema de repartição de receitas entre União, estados e municípios. A ideia era simplificar o modelo, reduzir distorções e dar mais transparência à cobrança de impostos. No entanto, o projeto enfrentou forte resistência dos governadores, sobretudo os que utilizavam benefícios fiscais como instrumento de atração de empresas. Sem consenso federativo, a PEC acabou travada no Congresso, tornando-se a primeira de uma série de tentativas frustradas que se arrastariam pelas décadas seguintes.

As primeiras tentativas no governo Lula (2003 e 2008)

A primeira grande proposta do Executivo para mudar o sistema tributário foi apresentada em 2003, no início do primeiro governo Lula, pelo então ministro da Fazenda, Antonio Palocci. O foco estava em simplificar o ICMS com uma legislação nacional unificada e reduzir a cumulatividade do PIS/Cofins. O texto chegou a ser aprovado na Câmara, mas travou no Senado diante da resistência dos governadores. A única parte que prosperou foi a criação do PIS/Cofins não cumulativo.

Em 2008, já sob a gestão de Guido Mantega na Fazenda, o governo voltou à carga com uma proposta para reduzir gradualmente as alíquotas do ICMS e criar fundos de compensação para estados menos desenvolvidos. Mais uma vez, a oposição de governadores impediu o avanço.

Dilma Rousseff e as mudanças no ICMS (2011–2016)

Sem força para propor uma PEC ampla, a presidente Dilma Rousseff concentrou esforços em mudanças no ICMS. O objetivo era uniformizar as alíquotas interestaduais e criar um fundo de compensação bancado pela União. O relator no Senado foi o senador Delcídio do Amaral (PT-MS). Mas a crise política e fiscal que marcou o período inviabilizou a proposta.

Michel Temer e o foco no PIS/Cofins (2017)

No governo Michel Temer, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, tentou avançar pela via mais simples: a unificação do PIS e da Cofins. O relator, deputado Luiz Carlos Hauly (na época, PSDB-PR), apresentou uma proposta nesse sentido, mas as denúncias contra o presidente e a crise política que se seguiu paralisaram a tramitação.

A tentativa de Paulo Guedes no governo Bolsonaro (2019–2022)

Com Paulo Guedes à frente da Economia, o governo Bolsonaro enviou em 2020 um projeto para substituir o PIS/Cofins pela CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços). O ministro também defendia a criação de um imposto sobre movimentações digitais, apelidado de "nova CPMF".

Paralelamente, a Câmara e o Senado discutiam as PECs 45/2019 (relator Aguinaldo Ribeiro, PP-PB) e 110/2019 (relator Roberto Rocha, PSDB-MA). Mas a falta de coordenação política e a resistência de setores empresariais fizeram com que a proposta de Guedes não prosperasse.

Lula retoma e aprova a reforma em 2023

De volta ao Planalto em seu terceiro mandato, Lula decidiu abraçar a PEC 45/2019 como base da reforma. Com articulação do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e do secretário extraordinário da Reforma Tributária, Bernard Appy, o governo construiu apoio com o então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e com governadores.

Em julho, a Câmara aprovou a proposta; em dezembro, o Senado confirmou. A Emenda Constitucional 132/2023 foi promulgada, criando o IVA dual: o IBS, de competência de estados e municípios, e a CBS, federal. Também ficou definido o Imposto Seletivo e os fundos de compensação e desenvolvimento regional. Foi a maior mudança no sistema tributário desde a Constituição de 1988.

A fase da regulamentação (2024–2025)

Depois da aprovação da PEC, o desafio passou a ser transformar as diretrizes constitucionais em regras práticas:

Primeiro projeto de regulamentação (2024): definiu itens da cesta básica com alíquota zero, a devolução de impostos para famílias de baixa renda (cashback), alíquotas do Imposto Seletivo e regimes específicos de tributação. Foi aprovado e já sancionado.

Segundo projeto de regulamentação (2025): trata da estrutura administrativa do sistema, como o Comitê Gestor do IBS, além da calibragem da alíquota de transição e regras para ITCMD, ITBI e Cosimp. O texto foi aprovado pela Câmara em agosto de 2024 e só teve sua análise concluída no Senado nessa terça-feira (29). Após ser reexaminado pelos deputados, será encaminhado à sanção presidencial, cruzando a linha de chegada de uma corrida histórica.

A implantação da reforma, no entanto, será gradual: entre 2026 e 2032 haverá um período de transição, quando o novo sistema vai coexistir com os impostos atuais. Em 2033, o país passará a operar apenas com dois tributos — o IBS (estadual e municipal) e a CBS (federal) — substituindo ICMS, ISS, IPI, PIS e Cofins.

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