A sete meses da eleição presidencial, a bolsa brasileira acumula um rali que levou o Ibovespa para perto dos 190 mil pontos. Para gestores que participaram do painel "Outlook de Grandes Gestores", na CEO Conference 2026 do BTG Pactual, o movimento tem menos relação com o cenário político doméstico e mais com o fluxo internacional de capitais. O debate reuniu André Esteves, chairman do BTG Pactual, André Jakurski, sócio-fundador da JGP, Luis Stuhlberger, sócio-fundador da Verde Asset, e Rogério Xavier, sócio-fundador da SPX Capital.
Um dos temas debatidos no painel foi o contraste entre o ambiente eleitoral e o comportamento do mercado. André Esteves afirmou que o país vive uma "performance espetacular", com a bolsa próxima de 190 mil pontos, algo que poucos imaginavam dois meses atrás, mesmo com múltiplos ainda relativamente baixos em comparação internacional. Ao mesmo tempo, lembrou que o Brasil está a poucos meses de uma eleição "imprevisível", descrita como um "grosseiro fifty-fifty", ainda que com algum favoritismo do presidente Lula.
A questão colocada foi direta: se há eleição à vista, por que o mercado segue subindo? Para André Jakurski, a resposta é objetiva: o fluxo externo domina a formação de preços.
Segundo o sócio-fundador da JGP, há uma regra básica no Brasil: observar o que o investidor estrangeiro está fazendo. "Dinheiro está entrando, meu amigo, compra", resumiu. Na avaliação do gestor, os mercados financeiros reagem a uma variável de cada vez e, neste momento, a variável dominante é a entrada de capital.
Jakurski acrescentou que a percepção de preço também varia conforme o investidor. O que pode parecer caro sob a ótica doméstica pode não ser necessariamente caro para o estrangeiro, cujo custo de oportunidade é diferente. Ele também ponderou que, quando o ritmo de entrada de recursos diminuir, o mercado tende a voltar os olhos para a eleição. "Por enquanto, o mercado não está nem pensando."
O gestor afirmou ainda que não vê risco de um "cliff effect" como em 2002. "A deterioração do Brasil é lenta, mas contínua. Vai ser um plano inclinado." Luis Stuhlberger concordou que o fluxo global de diversificação tem peso maior que a eleição brasileira na precificação atual, mas disse que o tema político não está completamente fora do radar.
Ele relatou que, em conversas com investidores estrangeiros, há preocupação com a eleição, mas também uma percepção de continuidade institucional. "Já teve Lula 1, Lula 2, Lula 3, por que o Lula 4 vai ser tão ruim?", resumiu ao relatar o raciocínio que escuta.
Stuhlberger, porém, destacou que o ponto de partida fiscal é mais delicado do que em ciclos anteriores. Com dívida bruta na casa de 82% a 83% do PIB, juros elevados e carga tributária recorde, o espaço para ajustes seria menor. Ele questionou o limite para novos aumentos de impostos e disse que, caso Lula seja reeleito, o mercado pode conceder benefício da dúvida inicialmente, mas eventuais problemas tenderiam a aparecer depois.
"Aquela noção de que o day after seria caótico provavelmente é equivocada", afirmou. Para ele, o cenário mais provável é de um período ainda favorável ao mercado de capitais, com IPOs e emissões, antes de uma eventual deterioração mais adiante.
A leitura comum entre os participantes foi que a eleição não deixou de ser um fator relevante, mas está temporariamente ofuscada pelo ambiente externo e pela realocação global de portfólios. O risco político permanece no horizonte, mas por ora o fluxo de capital fala mais alto.