Após assistir aos desfiles de Carnaval do último domingo (15) na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, o presidente Lula publicou diversas fotos em suas redes sociais prestando homenagem a quatro das mais tradicionais escolas de samba fluminenses. Entre beijos nas bandeiras e abraços aos diretores, o chefe do Executivo buscou afastar qualquer indício de pessoalidade em relação à Acadêmicos de Niterói.
O gesto demonstra uma cautela estratégica do presidente, em meio atentamente observado pela oposição. Publicamente exaltado pela agremiação niteroiense, Lula pode enfrentar complicações na Justiça Eleitoral caso demonstre qualquer tipo de favoritismo.
A preparação para o Carnaval do Rio foi marcada por semanas de polêmica política. A Acadêmicos de Niterói anunciou seu samba-enredo "Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil", que retrata a história do presidente Lula desde seu nascimento até o atual mandato, exaltando sua trajetória.
A obra foi celebrada entre lideranças petistas, mas foi vista por rivais como uma campanha eleitoral antecipada, levando o caso ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A Corte autorizou o desfile com um alerta: a permissão não era um salvo-conduto para futuros ilícitos eleitorais. O governo optou pela cautela: ministros foram desautorizados a participar do desfile ou a subir nos carros alegóricos. A primeira-dama Janja, que planejava desfilar, desistiu da ideia. Lula assistiu ao espetáculo no camarote da prefeitura, sem fazer discursos.
Ao final, o presidente fez um gesto para evitar que sua presença fosse associada à escola que o exaltou. Lula interagiu com as comissões de frente de todas as agremiações que desfilaram naquela noite, beijando as bandeiras tanto da Acadêmicos de Niterói quanto da Imperatriz Leopoldinense, Portela e Estação Primeira de Mangueira.
Em suas redes sociais, expressou gratidão às quatro pela recepção. "A Marquês de Sapucaí mostra ao planeta a força das nossas escolas de samba, a criatividade do nosso povo e a capacidade que o Brasil tem de transformar cultura em desenvolvimento, emprego e renda. Tenho muito orgulho de ver o Brasil brilhando assim para o mundo inteiro", disse.
Veja a publicação:
Questão financeira
Outra polêmica explorada pela oposição diante do samba-enredo da Acadêmicos de Niterói foi o custeio do desfile. A escola de samba foi uma das agraciadas com parte do repasse de R$ 12 milhões da Embratur à Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), que distribuiu R$ 1 milhão para cada agremiação do grupo especial. O fomento chegou a ser contestado pelo Novo, em ação no Tribunal de Contas da União (TCU).
A resposta do governo sobre os repasses também buscou afastar a tese de que a letra do samba-enredo teria promovido algum favoritismo. Questionada sobre o tema, a ministra-chefe da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, ressaltou que o critério de distribuição de valores do fomento à Liesa era definido pela própria liga, e que todo o grupo especial foi igualmente agraciado.
O argumento do governo foi acolhido pelo relator, ministro Aroldo Cedraz, que rejeitou um pedido do Novo para que o repasse fosse suspenso. "Não há qualquer elemento presente nos autos que aponte qualquer favorecimento da escola Acadêmicos de Niterói em relação às demais componentes do Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro ou mesmo qualquer indício mínimo apontando que tais repasses tenham sido realizados em face de possível homenagem pessoal do presidente da República", afirmou na decisão.
Disputa prolongada
A demanda por acenos governistas de impessoalidade no trato com as escolas de samba não promete acabar tão cedo. Nesta segunda (16), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) anunciou que apresentaria uma nova ação ao TSE, contestando trechos do desfile que satirizaram a prisão de Jair Bolsonaro. Mais tarde, o líder da oposição no Senado, Rogério Marinho (PL-RN), também se pronunciou no mesmo sentido, antecipando o plano de acionar a Justiça Eleitoral.
"Não aceitaremos a normalização do uso indireto de eventos culturais de grande projeção como instrumento de promoção pessoal e eleitoral. Adotaremos todas as medidas judiciais cabíveis, com a provocação da Justiça Eleitoral, para que se apure eventual abuso de poder político e uso indevido de estruturas que deveriam servir a todos os brasileiros", disse Marinho.