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Plano Cohen: a mentira que ajudou a instaurar o Estado Novo

Documento falso sobre ameaça comunista foi usado por Vargas para consolidar poder em 1937.

1/4/2026
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Em 1937, uma mentira ajudou a mudar o rumo da história política brasileira. Conhecido como Plano Cohen, um documento falso sobre suposta revolução comunista foi usado pelo governo de Getúlio Vargas para justificar a implantação de uma ditadura.

O episódio é um dos exemplos mais emblemáticos de como a desinformação pode ser instrumentalizada para concentrar poder e restringir liberdades.

O que era o Plano Cohen

Divulgado como um plano secreto do Partido Comunista, o documento descrevia uma iminente insurreição no país. Entre as ações previstas estariam assassinatos, incêndios e a tomada de instituições.

O conteúdo alarmista rapidamente se espalhou e gerou medo na população. Jornais repercutiram o suposto plano, enquanto autoridades reforçavam a narrativa de que o Brasil estava à beira do caos.

Anos depois, veio a confirmação: o documento era falso. O Plano Cohen havia sido elaborado pelo então capitão Olímpio Mourão Filho, ligado à Ação Integralista Brasileira, como um exercício interno, não como um plano real de golpe.

Getúlio Vargas usou o falso Plano Cohen como pretexto para dar o golpe de 1937.Arte Congresso em Foco

Pressão política e o caminho para o golpe

A crise institucional que abriu espaço para o uso do Plano Cohen vinha se desenhando desde o início da década. Pressionado pela Revolução Constitucionalista de 1932, Getúlio Vargas foi forçado a reabrir o Congresso e patrocinar a Constituição de 1934, que impôs limites ao poder presidencial.

O cenário começou a mudar novamente às vésperas das eleições de 1938. Com candidatos já em campanha, Vargas enfrentava a perspectiva real de deixar o poder. A necessidade de agir rapidamente para permanecer no cargo deu urgência à ruptura institucional.

O pretexto veio com a divulgação do Plano Cohen. A ideia de uma ameaça comunista encontrou terreno fértil em um país ainda marcado pela Intentona Comunista de 1935. Com isso, Vargas conseguiu sustentar o argumento de que precisava de poderes ampliados para evitar o colapso da ordem.

O uso político da mentira

Mesmo sem provas de uma conspiração real, o governo utilizou o documento como justificativa para decretar estado de guerra.

Pouco depois, em novembro de 1937, Vargas fechou o Congresso Nacional, cancelou eleições e instaurou o Estado Novo, regime autoritário que duraria até 1945.

A suposta ameaça comunista funcionou como base para legitimar medidas de exceção, com apoio de setores das Forças Armadas e da elite política.

Sem o Congresso, o governo centralizou decisões e implementou uma série de medidas estruturais. Foram instituídos o salário mínimo, o Código Penal e a Consolidação das Leis do Trabalho, além da criação da Justiça do Trabalho, da Aeronáutica e de empresas como a Vale e a Companhia Siderúrgica Nacional.

Para o historiador Boris Fausto, o período combina autoritarismo com avanço institucional. Segundo ele, trata-se de uma ditadura com traços desenvolvimentistas, mas que levanta uma questão central: se essas transformações não poderiam ter ocorrido em um ambiente democrático, com liberdades preservadas.

O papel da imprensa

Na época, grande parte da imprensa divulgou o conteúdo do Plano Cohen sem questionamento. As manchetes ajudaram a amplificar o clima de medo e urgência.

Exemplares de jornais da época mostram como a narrativa foi rapidamente incorporada ao noticiário, reforçando a percepção de uma ameaça iminente.

Correio da Manhã (1º de outubro de 1937) repercute o Plano Cohen e ajuda a espalhar o clima de ameaça no país.Hemeroteca

O ambiente de tensão também se refletiu nas decisões institucionais tomadas em seguida, já sob forte pressão política e social.

O Imparcial (2 de outubro de 1937) noticia a aprovação do estado de guerra, medida que abriu caminho para o Estado NovoHemeroteca

Segundo o historiador Paulo Sérgio da Silva, o apoio da imprensa naquele momento foi espontâneo. A censura só seria institucionalizada mais tarde, com a criação do Departamento de Imprensa e Propaganda, em 1939. Até então, jornais e parte da sociedade foram levados a acreditar que a centralização do poder era necessária.

Sem mecanismos rápidos de verificação e em um contexto de forte polarização, a narrativa oficial ganhou força e dificultou a contestação.

Um caso que ecoa no presente

Quase nove décadas depois, o Plano Cohen segue sendo referência em debates sobre desinformação. O caso mostra que o uso estratégico da mentira na política não é fenômeno recente.

A principal diferença está na velocidade e no alcance. Se em 1937 a disseminação dependia de jornais e discursos oficiais, hoje ela pode ocorrer em segundos, por meio de redes sociais e aplicativos de mensagem.

Ainda assim, a lógica permanece semelhante: explorar o medo, criar senso de urgência e justificar medidas com base em narrativas distorcidas.

A volta pelas urnas

O fim do Estado Novo não encerrou a trajetória política de Getúlio Vargas. Deposto em 1945, ele retornaria ao cenário institucional de forma paradoxal.

Na eleição daquele ano, foi eleito deputado por sete estados e senador por dois, com apoio de partidos que ele próprio ajudara a criar. Acabou tomando posse como senador pelo PSD do Rio Grande do Sul.

O episódio reforça uma das marcas da política brasileira: a capacidade de reinvenção de suas lideranças, mesmo após períodos de ruptura institucional.

O Plano Cohen não foi apenas um documento falso. Foi um instrumento decisivo na construção de um regime autoritário, e um lembrete duradouro dos efeitos que uma mentira pode ter sobre a democracia.

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