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Dia da mentira
Congresso em Foco
1/4/2026 7:33
Em 1937, uma mentira ajudou a mudar o rumo da história política brasileira. Conhecido como Plano Cohen, um documento falso sobre suposta revolução comunista foi usado pelo governo de Getúlio Vargas para justificar a implantação de uma ditadura.
O episódio é um dos exemplos mais emblemáticos de como a desinformação pode ser instrumentalizada para concentrar poder e restringir liberdades.
O que era o Plano Cohen
Divulgado como um plano secreto do Partido Comunista, o documento descrevia uma iminente insurreição no país. Entre as ações previstas estariam assassinatos, incêndios e a tomada de instituições.
O conteúdo alarmista rapidamente se espalhou e gerou medo na população. Jornais repercutiram o suposto plano, enquanto autoridades reforçavam a narrativa de que o Brasil estava à beira do caos.
Anos depois, veio a confirmação: o documento era falso. O Plano Cohen havia sido elaborado pelo então capitão Olímpio Mourão Filho, ligado à Ação Integralista Brasileira, como um exercício interno, não como um plano real de golpe.
Pressão política e o caminho para o golpe
A crise institucional que abriu espaço para o uso do Plano Cohen vinha se desenhando desde o início da década. Pressionado pela Revolução Constitucionalista de 1932, Getúlio Vargas foi forçado a reabrir o Congresso e patrocinar a Constituição de 1934, que impôs limites ao poder presidencial.
O cenário começou a mudar novamente às vésperas das eleições de 1938. Com candidatos já em campanha, Vargas enfrentava a perspectiva real de deixar o poder. A necessidade de agir rapidamente para permanecer no cargo deu urgência à ruptura institucional.
O pretexto veio com a divulgação do Plano Cohen. A ideia de uma ameaça comunista encontrou terreno fértil em um país ainda marcado pela Intentona Comunista de 1935. Com isso, Vargas conseguiu sustentar o argumento de que precisava de poderes ampliados para evitar o colapso da ordem.
O uso político da mentira
Mesmo sem provas de uma conspiração real, o governo utilizou o documento como justificativa para decretar estado de guerra.
Pouco depois, em novembro de 1937, Vargas fechou o Congresso Nacional, cancelou eleições e instaurou o Estado Novo, regime autoritário que duraria até 1945.
A suposta ameaça comunista funcionou como base para legitimar medidas de exceção, com apoio de setores das Forças Armadas e da elite política.
Sem o Congresso, o governo centralizou decisões e implementou uma série de medidas estruturais. Foram instituídos o salário mínimo, o Código Penal e a Consolidação das Leis do Trabalho, além da criação da Justiça do Trabalho, da Aeronáutica e de empresas como a Vale e a Companhia Siderúrgica Nacional.
Para o historiador Boris Fausto, o período combina autoritarismo com avanço institucional. Segundo ele, trata-se de uma ditadura com traços desenvolvimentistas, mas que levanta uma questão central: se essas transformações não poderiam ter ocorrido em um ambiente democrático, com liberdades preservadas.
O papel da imprensa
Na época, grande parte da imprensa divulgou o conteúdo do Plano Cohen sem questionamento. As manchetes ajudaram a amplificar o clima de medo e urgência.
Exemplares de jornais da época mostram como a narrativa foi rapidamente incorporada ao noticiário, reforçando a percepção de uma ameaça iminente.
O ambiente de tensão também se refletiu nas decisões institucionais tomadas em seguida, já sob forte pressão política e social.
Segundo o historiador Paulo Sérgio da Silva, o apoio da imprensa naquele momento foi espontâneo. A censura só seria institucionalizada mais tarde, com a criação do Departamento de Imprensa e Propaganda, em 1939. Até então, jornais e parte da sociedade foram levados a acreditar que a centralização do poder era necessária.
Sem mecanismos rápidos de verificação e em um contexto de forte polarização, a narrativa oficial ganhou força e dificultou a contestação.
Um caso que ecoa no presente
Quase nove décadas depois, o Plano Cohen segue sendo referência em debates sobre desinformação. O caso mostra que o uso estratégico da mentira na política não é fenômeno recente.
A principal diferença está na velocidade e no alcance. Se em 1937 a disseminação dependia de jornais e discursos oficiais, hoje ela pode ocorrer em segundos, por meio de redes sociais e aplicativos de mensagem.
Ainda assim, a lógica permanece semelhante: explorar o medo, criar senso de urgência e justificar medidas com base em narrativas distorcidas.
A volta pelas urnas
O fim do Estado Novo não encerrou a trajetória política de Getúlio Vargas. Deposto em 1945, ele retornaria ao cenário institucional de forma paradoxal.
Na eleição daquele ano, foi eleito deputado por sete estados e senador por dois, com apoio de partidos que ele próprio ajudara a criar. Acabou tomando posse como senador pelo PSD do Rio Grande do Sul.
O episódio reforça uma das marcas da política brasileira: a capacidade de reinvenção de suas lideranças, mesmo após períodos de ruptura institucional.
O Plano Cohen não foi apenas um documento falso. Foi um instrumento decisivo na construção de um regime autoritário, e um lembrete duradouro dos efeitos que uma mentira pode ter sobre a democracia.
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