A decisão do governo de Mato Grosso de utilizar um fundo administrado pela gestora Reag para viabilizar obras na BR-163 passou a ser alvo de questionamentos após a empresa entrar na mira de investigações. O caso ganhou dimensão política, com pedidos de apuração e suspeitas levantadas sobre a operação.
Mas, olhando para os fatos concretos, o cenário é menos simples do que a narrativa que vem sendo construída.
Em 2023, o governo estadual aportou R$ 447 milhões em um fundo estruturado para viabilizar a retomada da BR-163, principal corredor logístico do agronegócio no país. O mecanismo permitiu a compra de créditos da antiga concessionária e abriu caminho para a continuidade das obras.
À época dos aportes, não havia qualquer suspeita pública ou investigação conhecida envolvendo a gestora, o que torna ainda mais complexo exigir do Poder Público um juízo antecipado sobre riscos futuros, sobretudo diante da necessidade de destravar uma obra de grande impacto econômico e social.
Apesar da investigação em curso sobre a gestora, a operação teve efeitos práticos relevantes. O modelo adotado permitiu a compra de créditos da antiga concessionária, destravando a concessão e viabilizando investimentos.
Desde então, segundo dados da concessionária, cerca de 230 quilômetros da rodovia foram duplicados, além de uma redução de 28% nas mortes em acidentes em 2025.
A própria empresa destacou que a escolha da gestora seguiu critérios técnicos e que a operação gerou economia ao erário, além de diferimento tributário dentro das normas.
Narrativa de criminalização
A relação da Reag com entes públicos passou a ser alvo de apuração por uma CPI, que pretende aprofundar a análise de vínculos da gestora com outras operações financeiras.
O avanço das investigações é legítimo e necessário, especialmente diante da gravidade das suspeitas. No entanto, é preciso atenção para o risco de generalizações precipitadas.
Isso porque decisões tomadas à época podem ter seguido parâmetros legais e técnicos, além de terem produzido resultados concretos para o interesse público.
Em cenários como esse, a administração pública frequentemente precisa tomar decisões sob incerteza, equilibrando riscos com a urgência de soluções que impactam diretamente a vida da população, como a redução de acidentes e mortes em uma rodovia estratégica.
Trata-se de evitar simplificações: uma investigação não transforma, por si só, todas as operações relacionadas em irregularidades.
No caso da BR-163, há dados objetivos. Houve aporte, houve solução financeira para um ativo travado e houve entrega de obra, com impactos mensuráveis.
Isso não elimina a necessidade de apuração sobre a gestora, mas exige distinguir o que está sob investigação do que efetivamente foi executado.
Prudência no debate
A discussão sobre o caso não pode ignorar os resultados. A operação viabilizou uma solução para um ativo travado, gerou avanços concretos e melhorou indicadores relevantes.
Generalizar e tratar tudo como suspeito pode distorcer o debate e comprometer a análise de políticas públicas que, na prática, funcionaram.
O caso da Reag em Mato Grosso, portanto, mostra que é preciso cautela: nem toda operação ligada a uma investigação é, por si só, um problema. Em alguns casos, os resultados falam por si.