O governo dos Estados Unidos anunciou que cassará o visto do delegado da Polícia Federal Marcelo Ivo de Carvalho e o expulsará do país em decorrência de sua atuação na detenção do ex-deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ), na Flórida. Em nota, o Departamento de Estado americano acusou o policial brasileiro de tentar usar o sistema migratório dos EUA para contornar o rito formal de extradição e ampliar ao território americano o que classificou como perseguição política.
Em meio ao desgaste diplomático, o governo brasileiro já anunciou a troca no posto. A delegada Tatiana Alves Torres foi nomeada para assumir a função de oficial de ligação da PF com o Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos, o ICE, em substituição a Marcelo Ivo, que ocupava o cargo desde 2023.
Acusação de "manipulação"
A manifestação americana foi divulgada pelo Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental, ligado ao Departamento de Estado. Embora não cite nominalmente o delegado, a nota afirma que nenhum estrangeiro pode "manipular" o sistema de imigração dos Estados Unidos para contornar pedidos formais de extradição ou estender ao território americano uma "caça às bruxas política".
A Polícia Federal e o Ministério das Relações Exteriores ainda não haviam se manifestado formalmente sobre o caso até o fechamento desta reportagem.
Prisão e soltura de Ramagem
O episódio aprofunda a crise em torno de Alexandre Ramagem, condenado a 16 anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal na mesma ação penal que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito e organização criminosa. Ex-diretor da Abin no governo Bolsonaro, Ramagem teve o mandato cassado no fim do ano passado e é considerado foragido pela Justiça brasileira. Segundo a PF, ele deixou o Brasil pela fronteira com a Guiana antes de seguir para os Estados Unidos.
Ramagem foi detido em 13 de abril por agentes do ICE. De acordo com a Polícia Federal, a ação decorreu de cooperação policial internacional. O diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, afirmou que o então oficial de ligação da PF na Flórida repassou às autoridades migratórias americanas informações sobre o paradeiro do ex-deputado, o que levou à abordagem. Dois dias depois, porém, Ramagem foi solto após pressão de aliados bolsonaristas radicados nos Estados Unidos, entre eles Eduardo Bolsonaro e o empresário Paulo Figueiredo.
Suspeita de atalho à extradição
Desde a detenção, autoridades americanas passaram a apurar como se deu a cooperação policial entre os dois países. O foco da investigação é saber se o acionamento do ICE buscava contornar o processo formal de extradição de Ramagem. Nos Estados Unidos, a extradição depende do Departamento de Estado, enquanto a deportação por irregularidades migratórias é tratada na esfera administrativa, sob responsabilidade do Departamento de Segurança Interna.
A suspeita é que a deportação por questões migratórias pudesse representar um caminho mais rápido para enviar Ramagem de volta ao Brasil, sem necessidade de uma decisão política da diplomacia americana.
Esse contexto é agravado por um histórico de dificuldades enfrentadas pelas autoridades brasileiras para obter, dos Estados Unidos, a extradição de investigados e condenados por ataques a ministros do STF e pelos atos de 8 de Janeiro. Entre os exemplos citados estão os pedidos envolvendo o próprio Ramagem, desde dezembro de 2025, e o blogueiro Allan dos Santos, expedido em 2021.
Monitoramento em solo americano
Além do impasse diplomático, o caso expôs o monitoramento feito sobre Ramagem em território americano. A PF também apura se Ramagem comprou um veículo usando passaporte diplomático já cancelado por determinação do STF. De acordo com o relato, foi a partir da identificação desse carro que a corporação descobriu seu paradeiro e passou a monitorá-lo de perto. Como a PF não pode prender brasileiros em outro país, o procedimento é reunir informações e repassá-las às autoridades locais, neste caso as dos Estados Unidos.