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Em Lisboa, Lula critica resistência europeia a acordo com o Mercosul

Presidente volta a defender o acordo entre Mercosul e União Europeia, diz que europeus tentam "sufocar" a agricultura sul-americana e afirma que Brasil e Portugal vivem o melhor momento da relação bilateral.

21/4/2026
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O presidente Lula classificou nesta terça-feira (21), em Lisboa, como um "erro" a decisão do Parlamento Europeu de recorrer à Justiça da União Europeia contra o acordo entre o Mercosul e o bloco europeu. Ao lado do primeiro-ministro de Portugal, Luís Montenegro, Lula voltou a criticar o protecionismo europeu no debate comercial e afirmou que não faz sentido tratar a agricultura sul-americana como uma ameaça. Para o presidente, a resistência ao acordo ignora as oportunidades econômicas abertas pelos dois mercados e reproduz uma lógica equivocada de sufocamento comercial.

Lula e o primeiro-ministro português, Luís Montenegro, em Lisboa.Ricardo Stuckert/PR

"O que eu acho um erro, um equívoco muito grande do Parlamento Europeu", disse Lula, ao sustentar que os europeus ainda não compreenderam plenamente o potencial econômico do acordo. Em seguida, voltou a atacar a postura protecionista de setores da União Europeia. "É sempre uma bobagem achar que um vai acabar com a agricultura do outro. Não é assim que se faz comércio internacional. O comércio internacional só dá resultado se você não quiser sufocar o teu cliente", afirmou.

Por causa da resistência de países europeus, o acordo entre os dois blocos entrará em vigor de forma provisória em 1º de maio de 2026.

Crítica ao protecionismo europeu

A fala de Lula recoloca no centro da agenda externa brasileira uma das principais divergências nas negociações entre Mercosul e União Europeia: a resistência de setores europeus, especialmente ligados ao agronegócio, a uma abertura comercial mais ampla com os países sul-americanos. Na avaliação do presidente, o debate tem sido contaminado por um protecionismo disfarçado de cautela econômica. Ele argumentou que os sistemas agrícolas dos dois blocos não são incompatíveis e que, ao contrário, há complementaridade entre eles.

Ao defender o acordo, Lula insistiu que a lógica do comércio internacional exige equilíbrio entre as partes. Segundo ele, não há racionalidade em enfraquecer o parceiro comercial com barreiras que inviabilizem sua competitividade. A crítica mira diretamente a pressão europeia por salvaguardas e restrições que, na visão do governo brasileiro, esvaziam as vantagens do pacto.

Portugal como porta de entrada

A ofensiva retórica de Lula em defesa do acordo comercial veio acompanhada de um esforço para valorizar a relação estratégica com Portugal. O presidente afirmou que os dois países vivem "o seu melhor momento" e apresentou o território português como porta de entrada para empresas brasileiras interessadas em ampliar presença no mercado europeu. Na avaliação do petista, o ambiente bilateral hoje reúne condições favoráveis para aprofundar investimentos, cooperação industrial e circulação de capital.

Lula citou a Embraer como exemplo mais bem-sucedido dessa aproximação. Segundo ele, a atuação da companhia em Portugal demonstra como empresas brasileiras podem produzir, empregar mão de obra qualificada e usar o país como plataforma para acessar um mercado mais amplo. O presidente ressaltou que o acordo entre Mercosul e União Europeia envolve cerca de 750 milhões de pessoas e um PIB estimado em US$ 22 trilhões, o que amplia o peso econômico dessa integração.

Melhor momento da relação bilateral

Ao elogiar a parceria com Lisboa, Lula também imprimiu um tom político à visita. Disse que a história reservou uma "bela surpresa" ao aproximar Brasil e Portugal em um momento de alta densidade econômica e social. O presidente mencionou a presença crescente de brasileiros em território português, destacando a migração de profissionais qualificados, trabalhadores e famílias de classe média. "A história nos preparou uma bela surpresa. A surpresa é que Portugal e Brasil vivem seu melhor momento de relação", afirmou.

Na mesma fala, Lula elogiou a capacidade de adaptação e trabalho dos brasileiros que vivem em Portugal, buscando reforçar a ideia de que o intercâmbio entre os dois países vai além da política e do comércio e alcança também dimensões sociais e culturais. A mensagem procurou projetar uma relação bilateral mais madura, menos presa ao passado histórico e mais voltada para interesses concretos do presente.

Defesa do multilateralismo

A crítica ao Parlamento Europeu foi acompanhada de um discurso mais amplo em defesa do multilateralismo. Lula afirmou que o avanço do acordo entre Mercosul e União Europeia representa uma resposta política aos setores que apostam no enfraquecimento das instituições internacionais. Para ele, a concretização do pacto mostraria que a cooperação entre blocos ainda pode prevalecer sobre a escalada de nacionalismos econômicos e disputas geopolíticas.

O presidente voltou a defender a recuperação da Organização Mundial do Comércio. "Nós precisamos trabalhar de forma muito forte para recuperar a OMC e fazê-la funcionar", declarou. A cobrança se soma ao discurso recorrente de Lula em favor de uma governança global mais ativa e de instituições multilaterais capazes de arbitrar conflitos comerciais e políticos em um cenário internacional cada vez mais fragmentado.

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