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Lula elogia retirada de credencial de agente dos EUA: "Reciprocidade"

Presidente apoia retirada de credenciais de agente norte-americano em Brasília após expulsão de delegado da PF por causa de detenção de Alexandre Ramagem: "O que fizerem conosco, faremos com eles".

23/4/2026
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O presidente Lula elogiou a decisão da direção da Polícia Federal de retirar as credenciais diplomáticas de um agente de imigração dos Estados Unidos que atuava na sede da corporação, em Brasília. Segundo o presidente, a medida segue o princípio da reciprocidade, após o governo de Donald Trump determinar a saída de um delegado da PF do território norte-americano.

Em vídeo publicado nas redes sociais, ao lado do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, Lula afirmou que o Brasil apenas respondeu na mesma moeda à decisão norte-americana.

"Parabéns, Andrei, pela sua posição em relação ao delegado americano, colocando a reciprocidade, ou seja, o que eles fizeram conosco a gente vai fazer com eles, esperando que eles estejam dispostos a voltar a conversar e as coisas voltarem à normalidade", disse o presidente.

Segundo Lula, o objetivo do governo é restabelecer o diálogo e normalizar a cooperação policial entre os dois países.

Reciprocidade e reação do Itamaraty

Nessa quarta-feira (22), o Ministério das Relações Exteriores informou ter comunicado à representação diplomática norte-americana que o Brasil adotaria tratamento equivalente ao dado ao agente brasileiro. Em nota, o Itamaraty criticou a decisão dos Estados Unidos por ter sido tomada de forma sumária, sem pedido prévio de esclarecimentos nem tentativa de diálogo.

Para o governo brasileiro, a medida contraria o espírito do acordo bilateral de cooperação na área de segurança e rompe uma prática diplomática compatível com a relação histórica entre os dois países.

O estopim da crise

A crise teve origem na decisão dos Estados Unidos de cassar o visto do delegado da Polícia Federal Marcelo Ivo de Carvalho e expulsá-lo do país. A medida, segundo o governo norte-americano, decorre da atuação do policial brasileiro no caso que levou à detenção do ex-deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ), na Flórida.

Em manifestação divulgada pelo Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental, ligado ao Departamento de Estado, os EUA acusaram o delegado de tentar usar o sistema migratório dos Estados Unidos para contornar o rito formal de extradição. Embora a nota não cite nominalmente Marcelo Ivo, afirma que nenhum estrangeiro pode "manipular" o sistema de imigração dos Estados Unidos para ampliar ao território americano o que classificou como perseguição política.

A delegada Tatiana Alves Torres assumirá a função de oficial de ligação da PF com o Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos (ICE), em substituição a Marcelo Ivo, que ocupava o cargo desde 2023.

Ramagem no centro do impasse

O episódio aprofunda a crise em torno de Alexandre Ramagem, ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) no governo Bolsonaro. Condenado a 16 anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal na ação penal relacionada à trama golpista, ele é apontado como foragido da Justiça brasileira.

Em dezembro de 2025, o ministro Alexandre de Moraes determinou o envio do pedido formal de extradição de Ramagem aos Estados Unidos, por meio do Ministério da Justiça.

Ramagem foi detido em 13 de abril por agentes do ICE. Segundo a Polícia Federal, a ação ocorreu no âmbito da cooperação policial internacional entre Brasil e Estados Unidos. De acordo com a corporação, o então oficial de ligação da PF na Flórida repassou às autoridades migratórias americanas informações sobre o paradeiro do ex-deputado, o que levou à abordagem.

Dois dias depois, porém, Ramagem foi solto após pressão de aliados bolsonaristas radicados nos Estados Unidos, entre eles Eduardo Bolsonaro e o empresário Paulo Figueiredo.

Suspeita de atalho à extradição

Desde a detenção, autoridades norte-americanas passaram a apurar se a cooperação policial entre os dois países foi usada para contornar o processo formal de extradição. Nos Estados Unidos, pedidos de extradição passam pelo Departamento de Estado, enquanto deportações por irregularidades migratórias são tratadas na esfera administrativa, sob responsabilidade do Departamento de Segurança Interna.

A suspeita é de que a deportação por questões migratórias pudesse servir como atalho para devolver Ramagem ao Brasil, sem a necessidade de uma decisão política da diplomacia americana.

O caso se soma a dificuldades enfrentadas pelas autoridades brasileiras para obter, dos Estados Unidos, a extradição de investigados e condenados por ataques a ministros do STF e pelos atos de 8 de janeiro. Entre os exemplos estão os pedidos envolvendo o próprio Ramagem, desde dezembro de 2025, e o blogueiro Allan dos Santos, expedido em 2021.

Monitoramento em território americano

Além do impasse diplomático, o episódio expôs o monitoramento de Ramagem em solo norte-americano. A PF também apura se o ex-deputado comprou um veículo usando passaporte diplomático já cancelado por determinação do STF.

Foi a partir da identificação desse carro que a corporação descobriu seu paradeiro e passou a acompanhá-lo. Como a PF não pode prender brasileiros em outro país, o procedimento é reunir informações e repassá-las às autoridades locais.

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