A deputada estadual Sarah Poncio (Solidariedade-RJ) votou, em dezembro, a favor da revogação da prisão preventiva de Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj e um dos alvos da nova fase da Operação Unha e Carne, a mesma que prendeu nesta quinta-feira (2) o pai dela, o pastor e empresário Márcio Poncio. Sarah não aparece como alvo da operação, mas seu voto recoloca sob holofotes a relação política entre o clã Poncio e um dos principais personagens da investigação.
Bacellar havia sido preso em 3 de dezembro de 2025, por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, sob suspeita de vazar informações sigilosas da Operação Zargun, que mirava o então deputado estadual TH Joias, apontado pela investigação como ligado ao Comando Vermelho. Cinco dias depois, em 8 de dezembro, a Alerj votou um projeto de resolução para sustar a prisão preventiva do então presidente da Casa.
Solto e preso novamente
A proposta foi aprovada por 42 votos a 21, com duas abstenções. Sarah votou "sim", a favor da revogação da prisão. O resultado, porém, não soltou Bacellar automaticamente: a decisão da Assembleia foi encaminhada a Moraes, responsável pela ordem de prisão. No dia seguinte, o ministro concedeu liberdade provisória, mas impôs medidas cautelares, como uso de tornozeleira eletrônica, afastamento da presidência da Alerj, recolhimento domiciliar noturno, entrega de passaportes e proibição de contato com outros investigados.
Sete meses depois, Bacellar voltou a aparecer entre os alvos da Operação Unha e Carne. A quinta fase, deflagrada nesta quinta pela Polícia Federal, cumpriu três mandados de prisão preventiva, 14 de busca e apreensão e bloqueio de até R$ 22 milhões em bens e valores. Segundo a PF, a nova etapa aprofunda suspeitas de lavagem de dinheiro ligada à nova cúpula do jogo do bicho no Rio e a possíveis ramificações do esquema junto a integrantes dos poderes Executivo e Legislativo do estado.
Dívida bilionária
Reportagens publicadas em abril informaram que Sarah Poncio aparecia em registros da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional associada a uma dívida de cerca de R$ 1,7 bilhão com a União, em débitos tributários inscritos na dívida ativa. A assessoria da deputada negou, na ocasião, que ela tivesse dívida fiscal em seu nome e afirmou que a cobrança decorria de vínculo indevido com empresas das quais ela não teria participado. "À época dos fatos, inclusive, a deputada era menor de idade, o que afasta, de forma inequívoca, qualquer hipótese de responsabilização", declarou o gabinete.
Pai da deputada, Márcio Poncio é pastor, empresário e patriarca de uma família que se tornou conhecida pela combinação de religião, negócios, política, música, ostentação e exposição intensa nas redes sociais. Ele também é associado ao setor do tabaco, atividade que lhe rendeu o apelido de "pastor do cigarro". Em 2022, tentou uma vaga de deputado federal pelo Pros (hoje incorporado ao Solidariedade) no Rio de Janeiro, mas não se elegeu.