O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) participará na terça-feira (7) de uma audiência pública nos Estados Unidos sobre a possível aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros.
O parlamentar falará no segundo e último dia da sessão promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), responsável pela investigação comercial aberta contra o Brasil.
A apresentação está prevista para as 10h em Washington (11h em Brasília), antes da decisão final do Governo norte-americano, esperada até 15 de julho.
Flávio terá cerca de cinco minutos para defender a suspensão do tarifaço e uma solução negociada entre os dois países. Segundo o senador, a medida prejudicaria exportadores e consumidores brasileiros e acabaria fortalecendo politicamente o presidente Lula.
A participação ocorre após o envio de um documento de 86 páginas ao Governo americano, no qual Flávio pede a suspensão das tarifas e que o Pix fique fora da disputa comercial.
No texto, ele sustenta que a sobretaxa teria efeito contrário ao pretendido por Washington ao reforçar politicamente o governo Lula.
Investigação comercial
A audiência faz parte de uma investigação aberta com base na Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos.
O procedimento avalia se práticas brasileiras em áreas como comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, tarifas preferenciais, combate à corrupção e desmatamento ilegal prejudicam interesses comerciais norte-americanos.
Antes de decidir sobre a aplicação de sanções, o Governo dos Estados Unidos abriu uma fase de manifestações escritas e de depoimentos públicos.
A etapa reúne representantes de empresas, entidades setoriais, especialistas e organizações dos dois países.
Além de Flávio, o painel terá a participação de Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), que representará a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN).
Também estão previstas falas de representantes dos setores de calçados e de empresas norte-americanas.
No documento enviado ao USTR, Flávio propôs que os Estados Unidos suspendam a aplicação da tarifa e criem um mecanismo bilateral de negociação com agenda definida para os temas investigados.
A suspensão, segundo a proposta, não encerraria a investigação, mas manteria o processo aberto enquanto os dois países negociassem uma saída.
Pix e disputa política
O Pix aparece como um dos pontos sensíveis da crise.
Flávio afirma que o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos é uma infraestrutura pública soberana, e não uma empresa concorrente de companhias americanas. Por isso, defende que o mecanismo fique fora de qualquer sanção ou retaliação comercial.
O tema também foi citado por Lula em publicação nas redes sociais.
O presidente acusou integrantes da família Bolsonaro de tentarem submeter o Brasil aos interesses dos Estados Unidos e disse que o país não abrirá mão do Pix.
Lula também classificou como "atitude de traidores da Pátria" a defesa do adiamento da aplicação das tarifas sobre produtos brasileiros para depois das eleições de 2026.
Flávio reagiu às declarações e afirmou que Lula é quem "quer o tarifaço" contra produtos brasileiros.
Segundo o senador, o Governo teria provocado os Estados Unidos, deixado de negociar uma solução para a crise e passado a explorar politicamente o impasse comercial. Ele nega ter incentivado sanções contra o Brasil e diz atuar para impedir que a tarifa seja aplicada.
Governo não irá à audiência
O Governo brasileiro decidiu não enviar representantes oficiais à audiência.
A avaliação é de que a sessão organizada pelo USTR é voltada à participação de entidades privadas, empresas e representantes da sociedade civil, enquanto as negociações formais seguem por canais diplomáticos.
Nos últimos dias, integrantes do Governo Lula intensificaram críticas à articulação de Flávio nos Estados Unidos.
Para o Executivo, tratativas comerciais devem ser conduzidas pelo Estado brasileiro. A oposição, por sua vez, afirma que a presença do senador na audiência busca evitar prejuízos econômicos ao país.
Enquanto a consulta pública avança em Washington, o Governo brasileiro tenta negociar uma solução para evitar a entrada em vigor das novas tarifas.
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços apresentou propostas aos Estados Unidos para responder a pontos da investigação, mas mantém fora das negociações temas considerados estratégicos, como o Pix.