Um em cada três candidatos ao Senado nas eleições de 2026 nasceu fora da unidade da Federação que pretende representar. Levantamento do Congresso em Foco a partir dos registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) identificou 104 nomes nessa situação entre 315 concorrentes, ou 33%. Outros 210, ou 67%, nasceram na unidade pela qual disputam a eleição.
A proporção é bem superior à verificada no conjunto das candidaturas (22%). Considerando governador e vice, senador e suplentes, deputado federal, estadual e distrital, 30% dos concorrentes nasceram em outra UF. No Senado, o índice é 11 pontos percentuais maior.
O grupo reúne trajetórias bastante diferentes. Há políticos que migraram ainda crianças e construíram a vida pública no estado pelo qual concorrem, outros que fizeram carreira eleitoral em uma unidade e depois mudaram de território político e casos de transferência recente de domicílio eleitoral.Entre os exemplos estão Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB), candidatas por São Paulo. Marina nasceu no Acre, onde iniciou a carreira política, mas foi eleita deputada federal por São Paulo em 2022. Licenciada para comandar o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, reassumiu o mandato em abril deste ano. Simone construiu sua trajetória eleitoral em Mato Grosso do Sul antes de transferir recentemente o domicílio para São Paulo.
Ex-senadora por seu estado natal, Tebet afirma manter vínculos econômicos e fiscais com São Paulo. A mudança também teve componente político-eleitoral: ela aceitou disputar pelo estado após pedidos de Lula e Geraldo Alckmin e destacou que São Paulo foi onde obteve sua maior votação na eleição presidencial de 2022, com cerca de 1,6 milhão de votos. Marina ressalta que sua ligação com o eleitorado paulista é anterior à atual disputa: recebeu dos paulistas, em 2022, o mandato de deputada federal que exerce atualmente.
Constituição exige domicílio, não nascimento
Não há irregularidade em disputar o Senado por uma unidade diferente daquela onde se nasceu. A Constituição determina que a Casa seja composta por representantes dos estados e do Distrito Federal, mas não exige que o senador seja natural da unidade que representa.
O candidato precisa ter domicílio eleitoral na circunscrição e cumprir as demais condições de elegibilidade. Em 2026, o prazo geral para filiação partidária e domicílio eleitoral terminou em 4 de abril, seis meses antes do primeiro turno. Neste ano, serão renovadas 54 das 81 cadeiras do Senado.
De Carlos Bolsonaro a Jaques Wagner
Carlos Bolsonaro (PL) nasceu no Rio de Janeiro e construiu sua carreira eleitoral na capital fluminense, onde acumulou mandatos de vereador. Em 2026, disputa o Senado por Santa Catarina após transferir o domicílio eleitoral. "Eu não nasci aqui, mas foi aqui que eu renasci", afirmou ao justificar a mudança.
A escolha de uma nova unidade pode envolver também cálculo eleitoral e estratégia partidária. Em alguns casos, políticos migram para estados considerados mais favoráveis ao seu campo ou onde há espaço maior para determinada candidatura.
É o caso de Hélio Lopes (PL), deputado federal eleito pelo Rio de Janeiro que concorre ao Senado por Roraima. Lopes transferiu o domicílio eleitoral em março por orientação de Jair Bolsonaro, numa estratégia para ampliar a presença do grupo político no Senado. A mudança provocou resistência inicial do diretório local do próprio PL, que alegou a necessidade de vínculo com a realidade do estado.
O caso é diferente do de Jaques Wagner (PT), carioca que construiu há décadas sua carreira política na Bahia, onde foi deputado federal, governador por dois mandatos e senador. Randolfe Rodrigues (PT) nasceu em Pernambuco, mudou-se ainda criança para o Amapá e construiu no estado sua trajetória eleitoral.
Há outros exemplos pelo país. O senador Eduardo Braga (MDB) e o ex-governador Wilson Lima (União) nasceram no Pará e concorrem pelo Amazonas. Mauro Mendes (União) nasceu em Goiás e disputa por Mato Grosso, Estado que governou por dois mandatos. Carlos Fávaro (PSD) nasceu no Paraná e também concorre à reeleição pelo estado. No Tocantins, o senador Eduardo Gomes (PL) nasceu em Sergipe e o técnico de futebol Vanderlei Luxemburgo (Podemos), no Rio de Janeiro.
Os exemplos mostram que a mesma estatística reúne situações distintas: uma migração ocorrida na infância, décadas de trajetória política construída fora do estado natal ou uma mudança recente feita também em função da estratégia eleitoral.
Precedentes
A situação está longe de ser novidade. José Sarney, maranhense, representou o Amapá por três mandatos depois de já ter sido senador pelo estado natal; Fernando Henrique Cardoso, carioca, foi senador por São Paulo; Juscelino Kubitschek, mineiro, representou Goiás; e Fernando Collor, nascido no Rio de Janeiro, foi eleito senador por Alagoas.
Também passaram pelo Senado representando unidades diferentes das de nascimento Cristovam Buarque, pernambucano eleito pelo Distrito Federal, e Nelson Carneiro, baiano que representou a Guanabara e depois o Rio de Janeiro. O ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco, que desistiu de disputar a reeleição este ano, nasceu em Rondônia, embora seja represenante de Minas Gerais.
Os exemplos históricos e atuais mostram que nascer fora da unidade representada não significa, por si só, falta de vínculo político. Mas também evidenciam que, em alguns casos, a escolha do estado pelo qual concorrer envolve conveniência eleitoral, composição partidária e busca por um terreno mais competitivo.