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Um terço dos candidatos ao Senado disputa fora do Estado em que nasceu

Levantamento mostra que 104 dos 315 concorrentes nasceram em outra UF. Grupo vai de políticos que mudaram recentemente de Estado, como Simone Tebet e Carlos Bolsonaro, a nomes que construíram há décadas sua trajetória política na unidade que representam.

24/8/2026
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Um em cada três candidatos ao Senado nas eleições de 2026 nasceu fora da unidade da Federação que pretende representar. Levantamento do Congresso em Foco a partir dos registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) identificou 104 nomes nessa situação entre 315 concorrentes, ou 33%. Outros 210, ou 67%, nasceram na unidade pela qual disputam a eleição.

A proporção é bem superior à verificada no conjunto das candidaturas (22%). Considerando governador e vice, senador e suplentes, deputado federal, estadual e distrital, 30% dos concorrentes nasceram em outra UF. No Senado, o índice é 11 pontos percentuais maior.

Carlos Bolsonaro, Marina Silva, Simone Tebet e Hélio Lopes são alguns dos candidatos que disputam o Senado por unidades da Federação diferentes daquelas em que nasceram. Renan Olaz/CMRJ | Fábio Vieira/FotoRua/Folhapress | Divulgação | Agência Câmara

O grupo reúne trajetórias bastante diferentes. Há políticos que migraram ainda crianças e construíram a vida pública no estado pelo qual concorrem, outros que fizeram carreira eleitoral em uma unidade e depois mudaram de território político e casos de transferência recente de domicílio eleitoral.Entre os exemplos estão Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB), candidatas por São Paulo. Marina nasceu no Acre, onde iniciou a carreira política, mas foi eleita deputada federal por São Paulo em 2022. Licenciada para comandar o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, reassumiu o mandato em abril deste ano. Simone construiu sua trajetória eleitoral em Mato Grosso do Sul antes de transferir recentemente o domicílio para São Paulo.

Ex-senadora por seu estado natal, Tebet afirma manter vínculos econômicos e fiscais com São Paulo. A mudança também teve componente político-eleitoral: ela aceitou disputar pelo estado após pedidos de Lula e Geraldo Alckmin e destacou que São Paulo foi onde obteve sua maior votação na eleição presidencial de 2022, com cerca de 1,6 milhão de votos. Marina ressalta que sua ligação com o eleitorado paulista é anterior à atual disputa: recebeu dos paulistas, em 2022, o mandato de deputada federal que exerce atualmente.

Constituição exige domicílio, não nascimento

Não há irregularidade em disputar o Senado por uma unidade diferente daquela onde se nasceu. A Constituição determina que a Casa seja composta por representantes dos estados e do Distrito Federal, mas não exige que o senador seja natural da unidade que representa.

O candidato precisa ter domicílio eleitoral na circunscrição e cumprir as demais condições de elegibilidade. Em 2026, o prazo geral para filiação partidária e domicílio eleitoral terminou em 4 de abril, seis meses antes do primeiro turno. Neste ano, serão renovadas 54 das 81 cadeiras do Senado.

De Carlos Bolsonaro a Jaques Wagner

Carlos Bolsonaro (PL) nasceu no Rio de Janeiro e construiu sua carreira eleitoral na capital fluminense, onde acumulou mandatos de vereador. Em 2026, disputa o Senado por Santa Catarina após transferir o domicílio eleitoral. "Eu não nasci aqui, mas foi aqui que eu renasci", afirmou ao justificar a mudança.

A escolha de uma nova unidade pode envolver também cálculo eleitoral e estratégia partidária. Em alguns casos, políticos migram para estados considerados mais favoráveis ao seu campo ou onde há espaço maior para determinada candidatura.

É o caso de Hélio Lopes (PL), deputado federal eleito pelo Rio de Janeiro que concorre ao Senado por Roraima. Lopes transferiu o domicílio eleitoral em março por orientação de Jair Bolsonaro, numa estratégia para ampliar a presença do grupo político no Senado. A mudança provocou resistência inicial do diretório local do próprio PL, que alegou a necessidade de vínculo com a realidade do estado.

O caso é diferente do de Jaques Wagner (PT), carioca que construiu há décadas sua carreira política na Bahia, onde foi deputado federal, governador por dois mandatos e senador. Randolfe Rodrigues (PT) nasceu em Pernambuco, mudou-se ainda criança para o Amapá e construiu no estado sua trajetória eleitoral.

Há outros exemplos pelo país. O senador Eduardo Braga (MDB) e o ex-governador Wilson Lima (União) nasceram no Pará e concorrem pelo Amazonas. Mauro Mendes (União) nasceu em Goiás e disputa por Mato Grosso, Estado que governou por dois mandatos. Carlos Fávaro (PSD) nasceu no Paraná e também concorre à reeleição pelo estado. No Tocantins, o senador Eduardo Gomes (PL) nasceu em Sergipe e o técnico de futebol Vanderlei Luxemburgo (Podemos), no Rio de Janeiro.

Os exemplos mostram que a mesma estatística reúne situações distintas: uma migração ocorrida na infância, décadas de trajetória política construída fora do estado natal ou uma mudança recente feita também em função da estratégia eleitoral.

Precedentes

A situação está longe de ser novidade. José Sarney, maranhense, representou o Amapá por três mandatos depois de já ter sido senador pelo estado natal; Fernando Henrique Cardoso, carioca, foi senador por São Paulo; Juscelino Kubitschek, mineiro, representou Goiás; e Fernando Collor, nascido no Rio de Janeiro, foi eleito senador por Alagoas.

Também passaram pelo Senado representando unidades diferentes das de nascimento Cristovam Buarque, pernambucano eleito pelo Distrito Federal, e Nelson Carneiro, baiano que representou a Guanabara e depois o Rio de Janeiro. O ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco, que desistiu de disputar a reeleição este ano, nasceu em Rondônia, embora seja represenante de Minas Gerais.

Os exemplos históricos e atuais mostram que nascer fora da unidade representada não significa, por si só, falta de vínculo político. Mas também evidenciam que, em alguns casos, a escolha do estado pelo qual concorrer envolve conveniência eleitoral, composição partidária e busca por um terreno mais competitivo.

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