Mais de um em cada cinco candidatos nas eleições de 2026 nasceu em uma unidade da Federação diferente daquela pela qual disputa o pleito. Levantamento do Congresso em Foco a partir da base nacional do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) identificou 4.488 candidaturas nessa situação, equivalentes a 22% das 20.469 que permitem a comparação.
O cruzamento considerou governador e vice, senador e suplentes, deputado federal, estadual e distrital. Foram excluídos presidente e vice-presidente, porque a circunscrição é nacional, e 35 candidatos nascidos no exterior. A base utilizada foi gerada pelo TSE em 17 de agosto e compara a UF da candidatura com a de nascimento. Os registros ainda podem sofrer alterações durante a campanha.
A proporção varia conforme o cargo. Na disputa ao Senado, 33% dos candidatos nasceram em UF diferente daquela pela qual concorrem. Esse percentual é de 32% entre os postulantes a governador. O percentual é de 21% entre candidatos a deputado federal e de 20% entre os que disputam as assembleias legislativas.
Maioria nasceu fora em quatro unidades
O fenômeno é especialmente forte em unidades marcadas por intensos fluxos migratórios. Em Roraima, 235 das 394 candidaturas analisadas são de pessoas nascidas em outra UF, ou 60%. Rondônia e Distrito Federal aparecem em seguida, ambos com 56%. No Tocantins, são 52%. São as quatro únicas unidades em que mais da metade dos candidatos nasceu fora.
Mato Grosso aparece depois, com 45%, seguido pelo Amapá, com 41%. Goiás e Mato Grosso do Sul têm 31% cada, e Santa Catarina, 30%.
Na outra ponta está o Rio Grande do Sul, onde 9% dos candidatos nasceram fora. Pernambuco registra 10%; Minas Gerais, Ceará e Bahia, 11% cada; e Rio de Janeiro, 12%.
Em números absolutos, São Paulo lidera, com 608 candidatos nascidos em outra unidade da Federação, o equivalente a 24% das candidaturas no Estado.
Migrações aparecem nas urnas
As origens dos candidatos ajudam a retratar movimentos populacionais que também transformaram diferentes regiões do país. Dos 235 candidatos de Roraima nascidos fora, 57 são maranhenses, 39 amazonenses e 28 paraenses. Em Rondônia, o Paraná é a principal origem, com 60 candidatos. No Tocantins, 52 nasceram em Goiás e 42 no Maranhão.
No Amapá, a ligação com o Pará é ainda mais forte: 83 dos 129 candidatos nascidos fora são paraenses. Em São Paulo, os maiores grupos entre os 608 naturais de outras UFs são formados por baianos, com 109, e mineiros, com 101.
Os números não significam que essas pessoas tenham chegado recentemente às unidades pelas quais concorrem. O local de nascimento não mostra onde alguém viveu, estudou ou construiu sua carreira. Muitos migraram ainda crianças e passaram praticamente toda a vida na unidade pela qual hoje disputam a eleição.
De Tarcísio a Ciro
A situação alcança nomes de destaque nas disputas pelos governos estaduais.
O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), candidato à reeleição em São Paulo, nasceu no Rio de Janeiro. Ele transferiu o domicílio eleitoral para São José dos Campos em 2021 e, no ano seguinte, disputou seu primeiro cargo eletivo no Estado, vencendo a eleição para governador.
Situação diferente é a de Ciro Gomes (PSDB). Nascido em Pindamonhangaba (SP), mudou-se ainda criança com a família para Sobral e construiu no Ceará praticamente toda sua trajetória política. Foi deputado estadual, prefeito de Fortaleza e governador e tenta agora voltar ao comando do Estado mais de três décadas depois de deixar o cargo.
Também estão nesse grupo Felipe Camarão (PT), nascido no Rio de Janeiro e candidato no Maranhão; Eduardo Riedel (PP), carioca que disputa em Mato Grosso do Sul; Celina Leão (PP), nascida em Goiás e candidata no Distrito Federal; e Professora Dorinha (União), também goiana, que concorre ao governo do Tocantins.
Não há irregularidade em disputar uma eleição fora da UF de nascimento. A legislação exige domicílio eleitoral na circunscrição, e não naturalidade. Para concorrer em 2026, esse vínculo deveria estar estabelecido, em regra, até 4 de abril, seis meses antes do primeiro turno.