Em 31 de agosto de 2016, os 81 senadores brasileiros assumiram o papel de julgadores da presidente Dilma Rousseff, em sessão comandada pelo então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski. Ao fim de seis dias e mais de 60 horas de julgamento, 61 votaram pela condenação por crime de responsabilidade e 20 pela absolvição. Dilma, afastada desde maio, perdeu o cargo dois anos e quatro meses antes do fim do segundo mandato.
Exatos dez anos depois, apenas 15 daqueles 81 integrantes continuam no Senado. Entre eles, 11 votaram pelo impeachment e quatro pela absolvição. Os demais foram para outros cargos, deixaram a política, morreram ou tentam retornar ao Legislativo.
Entre os favoráveis à cassação que permanecem no Senado estão Ciro Nogueira (PP-PI), Davi Alcolumbre (União-AP), Eduardo Braga (MDB-AM), Jader Barbalho (MDB-PA), Magno Malta (PL-ES), Omar Aziz (PSD-AM), Renan Calheiros (MDB-AL), Romário (sem partido-RJ), Sérgio Petecão (PSD-AC), Wellington Fagundes (PL-MT) e Wilder Morais (PL-GO). Do grupo contrário ao impeachment, continuam Humberto Costa (PT-PE), Otto Alencar (PSD-BA), Paulo Paim (PT-RS) e Randolfe Rodrigues (PT-AP).
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Mapa político desfeito
Dos 11 senadores que votaram pela cassação e continuam na Casa, ao menos quatro estão hoje no campo político de Lula: Eduardo Braga, Jader Barbalho, Omar Aziz e Renan Calheiros.
No Amazonas, Aziz e Braga integram a aliança eleitoral que apoia a reeleição de Lula. Aziz disputa o governo com apoio do presidente; Braga tenta renovar o mandato no Senado. Em Alagoas, Renan também busca a reeleição no campo de Lula. No Pará, o grupo dos Barbalho mantém relação próxima com o governo federal, e PT e MDB estão no mesmo palanque.
Davi Alcolumbre também se aproximou do Planalto. Preside o Senado pela segunda vez e contou com o apoio do PT para retornar ao comando da Casa, mas rejeita ser colocado em um dos polos. Neste ano, afirmou que "não atua como aliado nem como oposição".
Simone Tebet é outro exemplo da recomposição, embora já não esteja no Senado. Votou pela condenação de Dilma, disputou a Presidência em 2022 e apoiou Lula contra Jair Bolsonaro no segundo turno. Depois, tornou-se ministra do Planejamento e deixou o governo neste ano para concorrer ao Senado por São Paulo, agora pelo PSB.
No outro polo, Magno Malta, Wellington Fagundes e Wilder Morais estão no PL e identificados com o bolsonarismo. Ciro Nogueira foi ministro-chefe da Casa Civil de Bolsonaro e preside hoje um PP que adotou neutralidade na eleição presidencial.
Fora do Congresso
Ronaldo Caiado deixou o Senado para governar Goiás e, dez anos depois de votar pela cassação, disputa a Presidência da República para, segundo ele, "tirar o PT do governo". Antonio Anastasia, relator do impeachment, tornou-se ministro do Tribunal de Contas da União.
Aécio Neves, um dos principais líderes da oposição a Dilma, voltou à Câmara. Derrotado pela petista na eleição presidencial de 2014, chegou a questionar no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a regularidade daquela disputa. Hoje preside o PSDB. Após anunciar que não disputaria mandato este ano, deve se lançar novamente ao Senado.
Outros integrantes da Casa permaneceram em posições de destaque. Gladson Cameli (PP-AC) deixou o Senado para governar o Acre e tenta retornar ao Senado. Marcelo Crivella (Republicanos-RJ) tornou-se prefeito do Rio, voltou ao Congresso como deputado federal e disputa novamente o Senado. Eunício Oliveira (MDB-CE) presidiu a Casa entre 2017 e 2019 e retornou à Câmara. Ricardo Ferraço (MDB-ES) tornou-se vice-governador do Espírito Santo e assumiu o governo neste ano. É candidato à reeleição.
Três dos 61 senadores que votaram pela cassação morreram desde então: José Maranhão (PB), Maria do Carmo Alves (SE) e Benedito de Lira (AL).
Prisão domiciliar
Fernando Collor (AL) ocupa um lugar singular nessa história. Ex-presidente submetido a impeachment em 1992, renunciou antes do julgamento final, mas o Senado prosseguiu com o processo e o deixou inabilitado por oito anos para exercer função pública. Mais de duas décadas depois, como senador, votou pela cassação de Dilma.
Hoje, Collor cumpre pena decorrente de condenação pelo STF a oito anos e dez meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso da BR Distribuidora. Preso em abril de 2025, passou dias depois ao regime de prisão domiciliar humanitária.
O caminho dos 20 que votaram contra
Os senadores que tentaram manter Dilma na Presidência também seguiram destinos distintos.
Fátima Bezerra (PT) deixou o Senado para governar o Rio Grande do Norte por dois mandatos. Gleisi Hoffmann elegeu-se deputada federal, presidiu o PT, integrou o terceiro governo Lula e tenta voltar ao Senado. Lídice da Mata (PSB) e Lindbergh Farias (PT) retornaram à Câmara.
João Capiberibe (PSB-AP) e Jorge Viana (PT-AC), derrotados na tentativa de renovar os mandatos em 2018, disputam novamente o Senado em 2026. Roberto Requião (PDT-PR) concorre a deputado federal pelo Paraná.
Kátia Abreu (TO), ministra da Agricultura de Dilma e uma das principais defensoras da presidente durante o julgamento, deixou o Senado em 2023 e se filiou ao PT neste ano. Regina Sousa (PT) tornou-se vice-governadora do Piauí e comandou o Estado em 2022.
Paulo Rocha (PT-PA) assumiu a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), e Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) passou a dirigir a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA). Elmano Férrer (PP-PI) ainda exerceu mandato na Câmara como suplente. Angela Portela (RR), Armando Monteiro (PE), Cristovam Buarque (DF), José Pimentel (CE) e Roberto Muniz (BA) não voltaram ao Legislativo federal.
Dilma perdeu o cargo, mas manteve direitos
Depois de cassar o mandato, o Senado votou separadamente se Dilma ficaria inabilitada por oito anos para exercer função pública. Eram necessários 54 votos. A punição recebeu 42, contra 36, com três abstenções. Dilma perdeu a Presidência, mas manteve o direito de disputar eleições e ocupar funções públicas.
Renan Calheiros esteve entre os 61 que aprovaram a cassação, mas rejeitou a segunda punição. "Além da queda, coice", afirmou. "Nós não podemos ser maus, desumanos."
Dilma voltou às urnas em 2018 e concorreu ao Senado por Minas Gerais. Terminou em terceiro lugar, atrás de Rodrigo Pacheco e Carlos Viana. Em 2023, assumiu a presidência do Novo Banco de Desenvolvimento, o banco dos Brics, sediado em Xangai, e foi reconduzida ao posto em 2025.
O placar de 61 a 20 ficou congelado nos registros de uma das sessões mais importantes da história recente do Congresso. As alianças e trajetórias políticas que produziram aquele resultado, não.
O julgamento de 31 de agosto encerrou um processo iniciado em 2 de dezembro de 2015, quando o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, aceitou o pedido de impeachment no mesmo dia em que o PT anunciou que votaria pela continuidade do processo contra ele no Conselho de Ética. Em 17 de abril de 2016, a Câmara autorizou o prosseguimento da denúncia por 367 votos a 137. Em 12 de maio, o Senado abriu o processo e afastou Dilma temporariamente por 55 votos a 22. No dia 31 de agosto, por 61 a 20, os senadores cassaram definitivamente o mandato. Michel Temer, que ocupava a Presidência interinamente desde maio, foi empossado em definitivo no mesmo dia.