Antes de chegar ao Congresso, em fevereiro de 2023, o deputado Mario Frias (PL-SP) ganhou projeção nacional como ator de Malhação. Depois, comandou a Secretaria Especial da Cultura no governo Jair Bolsonaro e se elegeu deputado federal. Nesta quinta-feira (10), foi alvo de busca e apreensão da Polícia Federal na Operação Make Up, que apura suspeitas de desvio de recursos públicos relacionados ao filme Dark Horse, sobre a trajetória do ex-presidente.
Frias é roteirista e produtor executivo do longa e autor de emendas incluídas na investigação. Uma delas destinou R$ 1 milhão ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Gama, produtora do filme, para um projeto de empreendedorismo em Pirassununga (SP). A PF apura se recursos públicos repassados a entidades foram desviados por meio de subcontratações irregulares e serviços sem comprovação.
Uma frente da investigação, sob relatoria do ministro Flávio Dino, do STF, concentra-se no possível uso irregular de dinheiro público. Outra, relatada por André Mendonça, examina repasses feitos pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o longa.
Carioca, nascido em 1971, Frias interpretou em 1999 Rodrigo Chaves em Malhação. O personagem era namorado de Érica, vivida por Samara Felippo, e se envolvia com Tatiana, papel de Priscila Fantin.
Família de esportistas
Frias é sobrinho-neto de João Saldanha, jornalista, treinador da Seleção Brasileira e militante histórico do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Conhecido como "João Sem Medo", Saldanha classificou o Brasil para a Copa de 1970, mas foi demitido meses antes do Mundial após conflitos com a cúpula esportiva e o governo do general Emílio Garrastazu Médici.
Também é sobrinho de Bebeto de Freitas, ex-treinador da seleção brasileira de vôlei e ex-dirigente de futebol, morto em 2018, e primo de Heleno de Freitas, um dos maiores ídolos da história do Botafogo.
Secretário de Cultura
Depois de vários trabalhos na televisão, aproximou-se do bolsonarismo e, em junho de 2020, assumiu a Secretaria Especial da Cultura, onde permaneceu até 2022.
Durante viagem à Bienal de Arquitetura de Veneza, ao ser perguntado sobre Lina Bo Bardi, autora do projeto do Masp e homenageada no evento, respondeu: "Eu não conheço nada, desculpa! Me ajude."
Em outra ocasião, afirmou que o historiador e ativista negro Jones Manoel, hoje candidato a deputado federal pelo Psol de Pernambuco, precisava de "um bom banho". Após a repercussão, disse que se referia às posições políticas do historiador, e não à sua aparência.
Do governo à Câmara
Frias deixou a Cultura em 2022 para disputar uma vaga na Câmara e se elegeu com 122.564 votos.
No Congresso, acumulou confrontos. Durante audiência da Comissão de Comunicação, discutiu com o jornalista Guga Noblat e bateu no celular usado por ele para registrar o episódio. Noblat disse ter sido chamado de "anão"; Frias afirmou que usara a expressão "anão moral" e reagira a provocações.
Neste ano, documentos de uma ex-funcionária colocaram o gabinete sob suspeita de "rachadinha". Extratos e comprovantes indicaram devoluções de parte do salário a pessoas ligadas ao parlamentar. A ex-assessora afirmou que Frias sabia dos repasses. O deputado não respondeu à reportagem que revelou o caso; seu chefe de gabinete disse acreditar que ele os desconhecia.
Briga com atriz
A guinada política também produziu um rompimento público com Samara Felippo, sua colega em Malhação. Em 2023, a atriz publicou uma foto do antigo elenco e cobriu o rosto do deputado com emojis de palhaço, jumento e fezes.
A disputa chegou à Justiça. Em outra postagem, Samara comparou a existência de fãs de Frias à de pessoas condenadas por crimes. O deputado pediu R$ 30 mil por danos morais e a retirada do conteúdo.
Briga com Nikolas
Nesta semana, o conflito chegou ao próprio PL. Nikolas Ferreira (PL-MG) cobrou explicações sobre o financiamento de Dark Horse e disse que Frias estava "muito calado" e "muito sumido". "Se não tem nada, mostra tudo, gente. É simples assim", afirmou.
Frias respondeu chamando Nikolas de "suposto aliado". Disse que mais de 25 mil documentos sobre os gastos haviam sido entregues às autoridades e que a equipe contratou perícia independente. Em seguida, atacou: "talvez o problema esteja no seu caráter".
Em maio, Frias mudou a versão sobre o financiamento do filme. Depois de afirmar que não havia "um único centavo" de Daniel Vorcaro, do Banco Master ou de empresas ligadas a ele, passou, cerca de 20 horas depois, a dizer que os recursos tinham "origem formal".
A mudança ocorreu após a divulgação de um áudio em que Flávio Bolsonaro cobra Vorcaro por pagamentos atrasados relacionados ao longa. Segundo o The Intercept Brasil, o banqueiro teria destinado cerca de R$ 61 milhões à produção. Flávio confirmou que pediu dinheiro a Vorcaro, mas negou irregularidades.