Parentes dos próprios senadores, empresários com fortunas de centenas de milhões de reais, financiadores de campanha e políticos conhecidos estão entre os 108 suplentes das 54 chapas eleitas para o Senado neste domingo (4). Embora não recebam votação nominal própria, eles poderão ocupar uma cadeira na Casa em caso de afastamento ou vacância do titular ao longo dos próximos oito anos.
A lista inclui pai, mulher, filhos, irmãos e cunhado de senadores eleitos, além de atuais e ex-senadores, ex-deputados, ex-prefeitos e um ex-ministro. Entre os suplentes estão três empresários que declararam patrimônios de R$ 677,7 milhões, R$ 478,7 milhões e R$ 359,7 milhões à Justiça Eleitoral.
Cada senador tem dois suplentes, que integram a chapa escolhida pelo eleitor. Os 54 titulares eleitos neste domingo terão mandato de 1º de fevereiro de 2027 a 31 de janeiro de 2035.
Suplência em família
Entre as chapas vencedoras, ao menos oito têm parentes do titular entre os suplentes.
No Distrito Federal, as duas senadoras eleitas colocaram familiares na primeira suplência. Michelle Bolsonaro (PL) terá o irmão Diego Torres (PL), ex-militar da Aeronáutica que já ocupou cargos no Ministério da Defesa, no Senado e no governo de São Paulo. Bia Kicis (PL) terá o filho Samuel Kicis (PL), engenheiro que nunca exerceu mandato eletivo.
No Pará, ocorre uma inversão de gerações. O senador Jader Barbalho (MDB) será primeiro suplente do filho Helder Barbalho (MDB). Quando Jader chegou ao Senado, em 1995, seu próprio pai, Laércio Barbalho, era o primeiro suplente. Convocado após a renúncia do filho, em 2001, Laércio também abriu mão da vaga.
No Amazonas, Sandra Braga (MDB) permanecerá como primeira suplente do marido, Eduardo Braga (MDB). Ela já exerceu o mandato em 2015, quando o senador se afastou para comandar o Ministério de Minas e Energia.
Há ainda Pablo Gontijo (PL-MG), filho e segundo suplente de Domingos Sávio (PL); Dário Castro (MDB-PI), filho e segundo suplente de Marcelo Castro (MDB); e Kelly Valentim (Podemos-RN), irmã e primeira suplente de Styvenson Valentim (Podemos).
No Amapá, Neto Furlan (Podemos), primeiro suplente de Rayssa Furlan (Podemos), é irmão do marido da senadora eleita, o prefeito de Macapá, Dr. Furlan.
Levantamento do Congresso em Foco feito durante a campanha havia identificado ao menos 15 candidatos ao Senado com parentes entre os suplentes. Parte dessas chapas não venceu ou sofreu alterações na composição.
Fortunas de centenas de milhões
Entre os 108 suplentes estão três dos dez candidatos mais ricos que disputaram as eleições de 2026, segundo levantamento baseado nas declarações de bens apresentadas ao TSE.
O maior patrimônio é do empresário Luiz Osvaldo Pastore (PL-TO), primeiro suplente de Eduardo Gomes (PL), que declarou R$ 677,7 milhões. Pastore já exerceu mandato no Senado como suplente por Mato Grosso do Sul.
Na chapa de Deltan Dallagnol (Novo-PR), o primeiro suplente é Wilson Picler, o Professor Picler (PL), empresário ligado ao grupo educacional Uninter. Ele declarou R$ 478,7 milhões.
O terceiro é Odilio Balbinotti (PL-MT), primeiro suplente de Zé Medeiros (PL), com patrimônio declarado de R$ 359,7 milhões. Pastore, Picler e Balbinotti aparecem entre os dez candidatos mais ricos de todo o país.
Financiadores também estão nas chapas
Alguns dos suplentes participaram diretamente do financiamento eleitoral.
Picler destinou recursos à campanha de Dallagnol. Edvaldo Brito (PSD-BA), primeiro suplente de Jaques Wagner (PT), também contribuiu para a candidatura do titular. No Tocantins, Pastore fez doação à campanha de Eduardo Gomes.
Na Bahia, a família do empresário Ronaldo Carletto (Avante), primeiro suplente de Rui Costa (PT), também participou do financiamento da candidatura.
Há ainda suplentes que fizeram doações para outras campanhas. Renato Figueiredo (PL-DF), segundo suplente de Bia Kicis, destinou recursos a candidatos no Distrito Federal e ao diretório regional do PL.
Senadores, ex-ministro e políticos experientes
A lista também reúne nomes conhecidos da política que, desta vez, foram eleitos para a reserva.
Além de Jader Barbalho, Nelsinho Trad (PSD-MS), que encerra seu mandato no Senado em janeiro, será primeiro suplente de Reinaldo Azambuja (PL). Em Alagoas, Dra. Eudócia (PSDB), atualmente no Senado como suplente, foi eleita primeira suplente de Marina JHC (PSDB).
No Mato Grosso, Cidinho Santos (PP) será primeiro suplente de Mauro Mendes (União). Ex-prefeito de Nova Marilândia, ele já exerceu mandato no Senado como suplente de Blairo Maggi.
Em Goiás, Alexandre Baldy (PP) será primeiro suplente de Gracinha Caiado (União). Baldy foi deputado federal e ministro das Cidades no governo de Michel Temer. Atualmente é vice-presidente sênior da BYD Brasil.
Na Bahia, Edvaldo Brito (PSD), primeiro suplente de Jaques Wagner, já foi prefeito de Salvador e é pai do deputado federal Antonio Brito (PSD).
Em Pernambuco, Luciano Bivar (MDB), deputado federal e ex-presidente nacional do PSL, será primeiro suplente de Humberto Costa (PT).
No Espírito Santo, Marcelo Coelho (PP), primeiro suplente de Renato Casagrande (PSB), já foi vereador, vice-prefeito e prefeito de Aracruz, além de deputado estadual.
Em São Paulo, Vicente Santini (Republicanos) será primeiro suplente de Guilherme Derrite (PP). Advogado, Santini foi secretário-executivo da Casa Civil no governo Jair Bolsonaro e posteriormente ocupou cargos nos ministérios do Meio Ambiente e da Justiça.
Reeleitos trocaram 85,7% das posições de suplente
Nem todos os 108 nomes são novos nessa condição. Quatorze dos 54 senadores eleitos neste domingo foram reeleitos, mas a permanência dos titulares veio acompanhada de ampla troca dos substitutos. O Senado confirmou 40 novos integrantes e 14 reeleitos para as 54 cadeiras em disputa.
Levantamento do Congresso em Foco, a partir da comparação das chapas, mostra que, das 28 posições de suplente dos 14 reeleitos, 24 trocaram de ocupante — 85,7% do total.
Apenas quatro posições permaneceram com as mesmas pessoas. Eduardo Braga manteve os dois suplentes, Sandra Braga e Miguel Biango. Cid Gomes (PSB-CE) conservou Julio Ventura (PSB) na segunda suplência, enquanto Lucas Barreto (PSD-AP) manteve Paulo Albuquerque (PSD) como primeiro suplente.
Carlos Portinho (PL-RJ) é um caso particular. Em 2018, ele próprio era primeiro suplente de Arolde de Oliveira e tornou-se titular após a morte do senador, em 2020. Agora eleito para um mandato próprio, terá Samuel Malafaia (PL) e Marcelinho (PL) como suplentes.
Dez senadores chegaram ao mandato como suplentes
A possibilidade de um suplente exercer efetivamente o mandato está longe de ser excepcional. Às vésperas das eleições, dez dos 81 senadores em exercício haviam chegado à Casa como primeiro ou segundo suplentes, o equivalente a 12,3% do Senado.
Estavam nessa situação Carlos Portinho, Dra. Eudócia, Fernando Dueire, Giordano, Hermes Klann, Ivete da Silveira, Jussara Lima, Lourdinha Pereira, Roberta Acioly e Sargento Reginauro. Parte assumiu definitivamente e parte ocupava a cadeira temporariamente.
Portinho tornou-se titular após a morte de Arolde de Oliveira. Fernando Dueire assumiu definitivamente depois da renúncia de Jarbas Vasconcelos; Giordano, após a morte de Major Olímpio; e Ivete da Silveira, quando Jorginho Mello deixou o Senado para assumir o governo de Santa Catarina. Pela legislação, cada senador é eleito com dois suplentes. Eles podem ser convocados em situações de vacância ou afastamento do titular.