Apenas 34 dos 513 deputados federais eleitos em 2026 tiveram votação nominal igual ou superior ao quociente eleitoral de seus respectivos Estados. Eles representam 6,6% da nova Câmara. Os outros 479 eleitos, ou 93,4%, ficaram abaixo desse patamar e chegaram à Câmara dentro das regras do sistema proporcional, que distribui as vagas conforme o desempenho dos partidos e federações.
O número de candidatos que alcançaram ou superaram o quociente com a própria votação cresceu em relação a 2022, quando foram 28 dos 513 deputados, ou 5,5% da Casa. O levantamento do Congresso em Foco considera a votação nominal dos eleitos e os quocientes eleitorais de cada unidade da Federação. O quociente é obtido pela divisão dos votos válidos para deputado federal pelo número de cadeiras em disputa em cada Estado e no Distrito Federal.
Em 2026, variou de 338.203 votos em São Paulo a 39.853 em Roraima. A comparação não significa que esses 34 deputados tenham sido eleitos fora do sistema proporcional. Todos dependem das regras de distribuição de cadeiras entre partidos e federações. A diferença é que, isoladamente, eles receberam votos em quantidade igual ou superior ao quociente eleitoral de seus Estados.
Nikolas supera quociente mineiro em mais de 14 vezes
O caso mais distante do quociente foi o de Nikolas Ferreira (PL-MG). Ele recebeu 3.119.318 votos, diante de um quociente eleitoral de 214.720 em Minas Gerais. A votação equivale a cerca de 14,5 vezes o quociente eleitoral mineiro e supera em aproximadamente 2,9 milhões o patamar correspondente ao quociente estadual. Na prática, a votação dele ajudou a puxar para a Câmara mais nove deputados.
Em São Paulo, Lucas Pavanato (PL) recebeu 3.038.438 votos, quase nove vezes o quociente paulista, de 338.203. Com essa votação, ele ajudou a eleger mais seis deputados do partido no Estado.
São Paulo concentrou o maior número de deputados acima do QE: seis. Além de Pavanato, aparecem Erika Hilton (Psol), Sâmia Bomfim (Psol), Kim Kataguiri (Missão), Tabata Amaral (PSB) e Renato Bolsonaro (PL), irmão do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O Rio Grande do Sul teve cinco; Minas Gerais, quatro; Ceará e Paraná, três cada; Pará, Pernambuco e Rio de Janeiro, dois cada; e Bahia, Distrito Federal, Espírito Santo, Paraíba, Piauí, Rondônia e Santa Catarina, um.
Em 12 Estados, nenhum deputado eleito alcançou individualmente o quociente eleitoral: Acre, Alagoas, Amapá, Amazonas, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Norte, Roraima, Sergipe e Tocantins.
Alguns passaram por margem mínima
Se Nikolas e Pavanato ficaram muito acima do quociente, outros chegaram praticamente no limite. Em Minas Gerais, Reginaldo Lopes (PT) teve 215.192 votos, apenas 472 acima do QE estadual, de 214.720. No Rio de Janeiro, Rick Azevedo (Psol) recebeu 191.371 votos, diante de um quociente de 190.082 — diferença de 1.289 votos.
O grupo dos 34, portanto, reúne situações bastante distintas: de candidatos com votação equivalente a várias vezes o quociente a outros que o superaram por poucas centenas ou milhares de votos.
Votação individual não garante mandato
O contraste entre os 34 e os outros 479 ajuda a explicar uma característica central das eleições proporcionais. As cadeiras não são distribuídas simplesmente pela ordem dos candidatos mais votados em cada Estado. A votação conjunta de partidos e federações define quantas vagas cada lista conquista, e só depois elas são preenchidas pelos candidatos mais votados dentro de cada grupo.
Por isso, um candidato pode receber mais votos do que outros que foram eleitos e ainda assim ficar fora da Câmara. Em São Paulo, por exemplo, Rui Falcão (PT) recebeu 106.443 votos e não se elegeu. Sua votação foi superior à de 22 candidatos eleitos no Estado, mas a federação da qual fazia parte não conquistou cadeiras suficientes para incluí-lo entre os eleitos.
Mais casos que em 2022, mas ainda uma minoria
O aumento de 28 para 34 deputados acima do quociente entre 2022 e 2026 representa uma alta de 21,4% no número de eleitos nessa situação. Ainda assim, eles continuam sendo exceção: mais de nove em cada dez deputados eleitos em 2026 ficaram abaixo do quociente eleitoral de seus Estados.
A fotografia da nova Câmara reforça, assim, o peso da votação coletiva de partidos e federações na definição dos mandatos. Mesmo em uma eleição marcada por alguns campeões de votos, alcançar individualmente o quociente eleitoral continua sendo incomum.