A história política oferece exemplos de personagens que compreenderam o valor da negociação. Talleyrand, na Europa pós-napoleônica, fez da diplomacia um instrumento para reconciliar interesses antagônicos. Nelson Mandela, em circunstâncias incomparavelmente mais dramáticas, encontrou no diálogo com antigos adversários o caminho para a transição democrática da África do Sul. Em ambos os casos, uma lição atravessa os séculos: a política não se faz apenas entre os que concordam.
Guardadas todas as proporções, é essa disposição para construir pontes que ajuda a compreender o apoio anunciado nesta quarta-feira (14) à reeleição de Hugo Motta (Republicanos-PB) para a presidência da Câmara dos Deputados.
À frente da Casa desde fevereiro de 2025, Motta enfrentou um dos ambientes políticos mais polarizados da história recente do país. Divergências entre governo e oposição, embates institucionais e uma disputa presidencial particularmente acirrada transformaram a construção de consensos em exercício permanente de paciência e habilidade política.
Mesmo nesse cenário, a Câmara encontrou espaço para aprovar propostas de grande repercussão social. A isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil mensais, aprovada por unanimidade, foi uma delas.
Também avançaram a PEC da Segurança Pública, em março de 2026, e a proposta de fim da escala de trabalho 6x1, aprovada em dois turnos em maio, após intensas negociações.
Nenhuma dessas conquistas pertence exclusivamente ao presidente da Câmara. São resultados do trabalho de parlamentares, relatores e lideranças de diferentes partidos. Mas cabe a quem preside a Casa uma tarefa decisiva: organizar a pauta, administrar divergências e criar as condições para que acordos se convertam em votos.
Motta procurou exercer esse papel sem transformar diferenças políticas em obstáculos intransponíveis. Não faltaram confrontos, obstruções ou críticas. Ainda assim, a atividade legislativa prosseguiu, inclusive quando o calendário eleitoral passou a disputar com o plenário a atenção dos deputados.
O reconhecimento político dessa trajetória aparece agora na articulação de um bloco de dez partidos, que reunirá 252 cadeiras na próxima legislatura e anunciou apoio à sua recondução. A aliança envolve, naturalmente, interesses partidários e a distribuição de forças na futura Mesa Diretora. Mas seus integrantes também apresentam a continuidade do diálogo institucional como fundamento da iniciativa.
A eleição ainda será disputada, e a nova composição da Câmara trará outros desafios. O apoio recebido por Motta, contudo, recoloca em evidência uma qualidade nem sempre valorizada no ambiente político contemporâneo: a capacidade de aproximar adversários sem exigir que deixem de ser adversários.
Em tempos nos quais a estridência frequentemente ocupa o lugar da argumentação, construir pontes pode ser uma das formas mais difíceis — e necessárias - de exercer a política.
Aliás, é bem o momento deste veículo, que acompanha diariamente os trabalhos do Congresso Nacional, registrar seu reconhecimento à serenidade, à habilidade diplomática e ao espírito público com que Hugo Motta tem conduzido a Câmara dos Deputados.
Em tempos nos quais o ruído frequentemente se sobrepõe à razão e as divergências ameaçam converter-se em antagonismos irreconciliáveis, sua atuação tem sido marcada pela disposição de ouvir, pela paciência de negociar e pela firmeza de decidir.
A aprovação unânime da ampliação da isenção do Imposto de Renda, os avanços nas discussões sobre segurança pública e a jornada de trabalho, tudo isso em meio às turbulências de um ano eleitoral, são exemplos concretos de sua capacidade de articulação.
Motta soube exercer a autoridade sem recorrer à imposição, dialogar sem abdicar das prerrogativas do cargo e preservar a dignidade institucional da Câmara em momentos de acentuada tensão. Não é pouca coisa.
Em uma época em que tantos confundem firmeza com intransigência e liderança com estridência, o presidente da Câmara oferece uma demonstração de maturidade política que merece ser reconhecida e enaltecida.
Com efeito, são virtudes que merecem reconhecimento e encômio, sobretudo em uma época tão pouco generosa com a arte da conciliação. Afinal, a autoridade política não se mede pelo volume da voz, mas pela capacidade de fazer com que vozes diferentes encontrem, apesar de tudo, um caminho comum.