Notícias

Hugo Motta e a arte de construir pontes

Mesmo em um cenário de polarização política sem precedentes, marcado por votações difíceis e acirradas disputas eleitorais, o presidente da Câmara demonstrou habilidade diplomática na condução de negociações complexas, construindo consensos e aproximando posições divergentes.

14/10/2026
Publicidade
Expandir publicidade

A história política oferece exemplos de personagens que compreenderam o valor da negociação. Talleyrand, na Europa pós-napoleônica, fez da diplomacia um instrumento para reconciliar interesses antagônicos. Nelson Mandela, em circunstâncias incomparavelmente mais dramáticas, encontrou no diálogo com antigos adversários o caminho para a transição democrática da África do Sul. Em ambos os casos, uma lição atravessa os séculos: a política não se faz apenas entre os que concordam.

Guardadas todas as proporções, é essa disposição para construir pontes que ajuda a compreender o apoio anunciado nesta quarta-feira (14) à reeleição de Hugo Motta (Republicanos-PB) para a presidência da Câmara dos Deputados.

À frente da Casa desde fevereiro de 2025, Motta enfrentou um dos ambientes políticos mais polarizados da história recente do país. Divergências entre governo e oposição, embates institucionais e uma disputa presidencial particularmente acirrada transformaram a construção de consensos em exercício permanente de paciência e habilidade política.

Mesmo nesse cenário, a Câmara encontrou espaço para aprovar propostas de grande repercussão social. A isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil mensais, aprovada por unanimidade, foi uma delas.

Também avançaram a PEC da Segurança Pública, em março de 2026, e a proposta de fim da escala de trabalho 6x1, aprovada em dois turnos em maio, após intensas negociações.

Hugo Motta recebeu o Prêmio Congresso em Foco em Relações Institucionais e Diplomacia.Marina Ramos / Câmara dos Deputados

Nenhuma dessas conquistas pertence exclusivamente ao presidente da Câmara. São resultados do trabalho de parlamentares, relatores e lideranças de diferentes partidos. Mas cabe a quem preside a Casa uma tarefa decisiva: organizar a pauta, administrar divergências e criar as condições para que acordos se convertam em votos.

Motta procurou exercer esse papel sem transformar diferenças políticas em obstáculos intransponíveis. Não faltaram confrontos, obstruções ou críticas. Ainda assim, a atividade legislativa prosseguiu, inclusive quando o calendário eleitoral passou a disputar com o plenário a atenção dos deputados.

O reconhecimento político dessa trajetória aparece agora na articulação de um bloco de dez partidos, que reunirá 252 cadeiras na próxima legislatura e anunciou apoio à sua recondução. A aliança envolve, naturalmente, interesses partidários e a distribuição de forças na futura Mesa Diretora. Mas seus integrantes também apresentam a continuidade do diálogo institucional como fundamento da iniciativa.

A eleição ainda será disputada, e a nova composição da Câmara trará outros desafios. O apoio recebido por Motta, contudo, recoloca em evidência uma qualidade nem sempre valorizada no ambiente político contemporâneo: a capacidade de aproximar adversários sem exigir que deixem de ser adversários.

Em tempos nos quais a estridência frequentemente ocupa o lugar da argumentação, construir pontes pode ser uma das formas mais difíceis — e necessárias - de exercer a política.

Aliás, é bem o momento deste veículo, que acompanha diariamente os trabalhos do Congresso Nacional, registrar seu reconhecimento à serenidade, à habilidade diplomática e ao espírito público com que Hugo Motta tem conduzido a Câmara dos Deputados.

Em tempos nos quais o ruído frequentemente se sobrepõe à razão e as divergências ameaçam converter-se em antagonismos irreconciliáveis, sua atuação tem sido marcada pela disposição de ouvir, pela paciência de negociar e pela firmeza de decidir.

A aprovação unânime da ampliação da isenção do Imposto de Renda, os avanços nas discussões sobre segurança pública e a jornada de trabalho, tudo isso em meio às turbulências de um ano eleitoral, são exemplos concretos de sua capacidade de articulação.

Motta soube exercer a autoridade sem recorrer à imposição, dialogar sem abdicar das prerrogativas do cargo e preservar a dignidade institucional da Câmara em momentos de acentuada tensão. Não é pouca coisa.

Em uma época em que tantos confundem firmeza com intransigência e liderança com estridência, o presidente da Câmara oferece uma demonstração de maturidade política que merece ser reconhecida e enaltecida.

Com efeito, são virtudes que merecem reconhecimento e encômio, sobretudo em uma época tão pouco generosa com a arte da conciliação. Afinal, a autoridade política não se mede pelo volume da voz, mas pela capacidade de fazer com que vozes diferentes encontrem, apesar de tudo, um caminho comum.

Veja mais no portal
cadastre-se, comente, saiba mais

Notícias Mais Lidas

Artigos Mais Lidos