Dono da segunda maior votação para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro em 4 de outubro, o deputado estadual eleito Márcio Canella (União) é apontado pela Polícia Federal como o principal articulador político de uma organização criminosa suspeita de movimentar R$ 7,6 bilhões. De acordo com a investigação, o ex-prefeito de Belford Roxo usou sua influência para viabilizar nomeações em cargos estratégicos do governo estadual, garantindo proteção aos negócios do grupo.
O papel atribuído a Canella é detalhado na decisão de 107 páginas em que o ministro Alexandre de Moraes, do STF, decretou sua prisão preventiva e a de outros cinco investigados. O documento reproduz um organograma da PF que coloca o núcleo político-institucional no topo da estrutura criminosa investigada.
Segundo a polícia, Canella funcionava como elo entre empresários, operadores financeiros e agentes públicos. Sua atuação é apontada como fundamental para a ascensão do delegado Marcus Vinicius Amim Fernandes à presidência do Detran-RJ e, posteriormente, ao comando da Polícia Civil fluminense. Amim, também alvo de prisão preventiva, é acusado de utilizar a influência decorrente desses cargos para proteger os interesses da organização.
Repasses suspeitos
A investigação identificou anotações manuscritas com referências a pagamentos destinados a "Canela" e "Canella", interpretadas pela PF como registros de repasses ao deputado eleito. Entre maio de 2025 e abril de 2026, Canella recebeu aproximadamente R$ 1,4 milhão da Brumar Empreendimentos, empresa da qual é sócio. Segundo os investigadores, não foi possível esclarecer a origem primária dos recursos utilizados nessas transferências.
Os documentos apreendidos incluem ainda uma agenda com referências a "Emendas", "Pedro" e "Mota". A PF considera as anotações indícios da atuação política de Canella na estrutura investigada, mas a decisão não estabelece que tenham ocorrido desvios de emendas parlamentares.
No caso de Amim, foram identificados repasses de R$ 1,82 milhão da empresa ADM Oil para a Mamim Consultoria, entre abril de 2024 e maio de 2026. Os pagamentos, de aproximadamente R$ 70 mil mensais, seriam, segundo a PF, uma forma de remunerar a proteção institucional prestada ao grupo por meio de contratos de consultoria suspeitos de serem fictícios. A polícia também encontrou indícios de participação societária oculta do delegado em postos de combustíveis ligados à organização.
Mensagens e vazamento de fiscalizações
A decisão de Moraes detalha a suspeita de que a organização mantinha uma rede de informantes em órgãos públicos para antecipar fiscalizações em postos de combustíveis.
Em abril de 2026, o advogado Diogo Pacheco do Couto enviou a Pablo Russo, apontado como operador da rede de postos, uma mensagem informando sobre uma fiscalização do Procon-RJ prevista para o dia seguinte, em São Gonçalo.
"Boa noite, PABLO JUKIA! Amanhã vai ter fiscalização do PROCON/RIO em São Gonçalo", dizia a mensagem reproduzida na investigação.
Segundo a PF, funcionários do órgão repassavam antecipadamente datas, horários e endereços dos estabelecimentos que seriam fiscalizados. As informações permitiriam ao grupo tomar providências para dificultar a identificação de irregularidades.
Os investigadores identificaram ainda comunicações frequentes entre Amim e Pablo Russo, de abril a julho deste ano, envolvendo documentos sobre veículos, imóveis, obras e alterações societárias. A polícia considera os contatos indícios de uma relação de confiança e de vínculos econômicos que permaneciam ativos até pouco antes da operação.
Um escrivão da Polícia Federal também é suspeito de fornecer informações sigilosas ao grupo. Moraes determinou seu afastamento cautelar e proibiu o acesso do servidor aos sistemas e às dependências da corporação.
Prisões e bloqueio de bens
Além de Canella e Amim, Moraes decretou as prisões preventivas de Pablo Russo, José Carlos Alves de Souza Júnior e dos irmãos Christiano e Giovanni Gaspar Fernandes.
O ministro também autorizou buscas, a suspensão de atividades empresariais e o bloqueio de até R$ 700 milhões em contas bancárias e outros bens, incluindo imóveis, veículos e criptoativos. O valor corresponde ao limite global da medida, não a recursos já apreendidos. Os R$ 7,6 bilhões mencionados na investigação, por sua vez, representam movimentações financeiras consideradas suspeitas pela PF, e não um montante integralmente comprovado como ilícito.
Ao justificar as prisões, Moraes apontou risco de continuidade das atividades criminosas, ocultação de provas e interferência nas investigações. O caso é apurado no âmbito da Operação Unha e Carne, que investiga suspeitas de organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção, cartel de combustíveis e infiltração em órgãos públicos do Rio de Janeiro.
Processo: Inquérito 5020