O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) participam neste domingo (18), às 20h15, do primeiro debate presidencial do segundo turno das eleições de 2026, promovido pela Band. O encontro acontece nos estúdios da emissora em São Paulo, a uma semana da votação marcada para o dia 25.
Este será o primeiro confronto direto entre os dois candidatos durante a campanha eleitoral. Lula e Flávio não participaram dos mesmos debates no primeiro turno, e o encontro deste domingo será a primeira oportunidade de ambos apresentarem suas propostas e confrontarem os programas de governo diante dos eleitores.
O debate será dividido em três blocos, com mediação dos jornalistas Adriana Araújo e Eduardo Oinegue. A programação inclui perguntas dos apresentadores, questionamentos entre os candidatos e um período de 30 minutos de confronto livre.
Veja o debate:
Pouco antes das 20h, os dois candidatos haviam chegado aos estúdios da Band. A equipe de transmissão informou em seguida que as perguntas começariam com um pequeno atraso, a partir das 20h15.
Segurança pública
O debate começou com questionamentos na área de segurança pública.
Flávio prometeu enquadrar o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho e as milícias como organizações narcoterroristas. Também defendeu o aumento das penas e a retomada de territórios dominados pelo crime organizado. "Eu vou construir mais de meio milhão de vagas no sistema penitenciário, porque esses marginais vão ficar presos. Quem vai andar com medo na rua são eles", declarou.
Lula cobrou de Flávio apoio à PEC enviada pelo Executivo ao Congresso e criticou a atuação dos governos estaduais no combate à criminalidade. "Acontece que os Estados fracassaram. Nenhum Estado conseguiu resolver o problema da segurança pública", disse. O presidente também afirmou que a repressão deve alcançar tanto os criminosos que atuam nas comunidades quanto os integrantes das organizações instalados em regiões de maior poder aquisitivo.
O petista defendeu a atuação coordenada entre União, Estados e municípios para recuperar territórios dominados pelas facções. "E agora, se o Senado votar a PEC da Segurança, eu criarei imediatamente o Ministério da Segurança Pública", prometeu.
Economia
Na sequência, os candidatos foram questionados sobre suas soluções para o crescimento econômico e atração de investimentos no Brasil.
Lula citou a criação do MEI, a ampliação do acesso ao sistema bancário e a formação de reservas internacionais durante seus mandatos anteriores. "Muito dinheiro na mão de pouco significa pobreza e miséria, e pouco dinheiro na mão de muito significa distribuição de riqueza, distribuição de renda", declarou. O presidente também apontou as economias digital, verde e criativa como prioridades para o desenvolvimento do país.
Flávio relembrou a longevidade das últimas gestões petistas, e questionou os efeitos da política econômica sobre o poder de compra da população. "Há quanto tempo você não coloca uma carne, um pedaço de carne no seu freezer, no seu congelador, porque simplesmente não tem mais carne na sua casa?", perguntou.
O senador também responsabilizou os gastos federais pelo endividamento das famílias e alegou que sua passagem ao segundo turno provocou uma queda de 2% nos juros futuros, o que permitiria abrir espaço de mais de R$ 200 bilhões no orçamento em uma eventual gestão. "Eu vou ajudar você a pagar a sua dívida. Eu vou ajudar o governo a pagar a própria dívida", prometeu.
Escândalo do INSS
O escândalo dos descontos indevidos nas aposentadorias provocou uma troca de acusações entre os candidatos. Após Lula questionar Flávio Bolsonaro sobre seu voto contrário à ampliação da licença-maternidade na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, o senador mudou de assunto e cobrou explicações sobre a empresária Roberta Luchsinger, investigada pela Polícia Federal por suspeitas de envolvimento no esquema.
Flávio mencionou a entrevista concedida pela empresária à CNN Brasil no sábado (17), na qual ela acusou o filho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, de participar de negócios com ela e manifestou a intenção de fazer uma delação premiada. "Lula, é melhor você não botar a mão no fogo pelo seu filho, não, porque ela falou que o seu filho é sócio dela", declarou o senador.
Lula respondeu que seu filho está sujeito às investigações e negou qualquer interferência na atuação da Polícia Federal. "Se tiver investigação, se tiver problema, será investigado. Seja meu filho, seja meu irmão, qualquer um", declarou. O presidente também acusou o governo de Jair Bolsonaro de ter permitido a formação do esquema de fraudes e afirmou que sua gestão descobriu a organização criminosa e promoveu a prisão de seus integrantes.
O petista também cobrou explicações sobre a ligação entre empresas de Flávio e do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, apontado como um dos principais operadores do esquema. A Bravo Grafeno, da qual o senador é sócio, possui registro no mesmo endereço de empresas ligadas a Antunes, em Brasília. Flávio negou ter mantido um escritório conjunto com o empresário e rebateu a acusação: "A sua campanha está sendo a base da mentira".
Caso Master e Dark Horse
O escândalo do Banco Master provocou uma troca de acusações entre os candidatos. Lula cobrou explicações de Flávio Bolsonaro sobre o financiamento do filme Dark Horse, enquanto o senador questionou o presidente sobre uma reunião reservada com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro no Palácio do Planalto.
Lula mencionou os R$ 134 milhões negociados por Flávio com Vorcaro para financiar a cinebiografia de Jair Bolsonaro. Segundo as investigações da Polícia Federal, cerca de R$ 62 milhões foram efetivamente transferidos para a produção, em operações que levantaram suspeitas de lavagem de dinheiro. "O que você fez com esse dinheiro? O que você fez? É só explicar", cobrou o presidente.
Flávio respondeu que já havia prestado esclarecimentos sobre os recursos e exaltou o pai. "Esse dinheiro foi para o filme do melhor presidente do Brasil que já existiu, que é Jair Messias Bolsonaro, você conhece? O melhor presidente do Brasil e vai ser um filme maravilhoso", declarou.
O senador também cobrou explicações sobre o encontro de Lula com Vorcaro em dezembro de 2024, do qual participaram ministros do governo e Gabriel Galípolo, que assumiria a presidência do Banco Central no mês seguinte. "O que você estava fazendo naquela reuniãozinha fechadinha?", questionou Flávio, que sugeriu um possível acordo para favorecer o Banco Master durante a transição de comando da autoridade monetária.
Lula respondeu que a prisão de Vorcaro ocorreu durante sua gestão e atribuiu ao governo Bolsonaro a expansão dos negócios do banqueiro. "Vocês fizeram ele um banqueiro e eu fiz ele um prisioneiro", declarou. Flávio rebateu que a prisão foi determinada pelo ministro André Mendonça, do STF, e acusou o presidente de tentar assumir o mérito da decisão judicial.
Troca de provocações
A troca de acusações entre Lula e Flávio Bolsonaro se intensificou durante o debate da Band. O senador afirmou que o presidente recebeu 73% dos votos dos presidiários nas eleições de 2022 e associou o eleitorado petista à criminalidade. "Você já teve o seu celular roubado? Já teve a sua bolsa roubada? Em quem você acha que o ladrão do seu celular vai votar?", questionou.
Lula cobrou explicações sobre a atuação de Flávio na discussão do projeto de lei que retirava exigências de identificação de munições. "Por que você queria tirar a marca das balas, o número da bala, para que não fosse identificada?", perguntou. O senador negou ter defendido a retirada dos registros e responsabilizou o governo federal pela entrada de armamentos ilegais pelas fronteiras.
O presidente também questionou o adversário sobre a contratação de familiares de um dos acusados de ordenar o assassinato da vereadora Marielle Franco. Flávio respondeu com críticas à presença de pessoas envolvidas em escândalos de corrupção em governos petistas. "As mesmas pessoas de lá de trás que participaram dos maiores esquemas de corrupção estão te assessorando", acusou.
Lula retomou o debate sobre a política armamentista do governo Jair Bolsonaro, afirmando que mais de 1 milhão de armas e 1,1 bilhão de munições foram liberadas durante a gestão anterior. O presidente sustentou que parte desse armamento chegou ao crime organizado. Flávio contestou os números e reagiu às referências ao ex-presidente. "Aqui é o Flávio, não é o Jair. Você tem que olhar para frente", rebateu, e provocou múltiplas vezes que "seu pai votou em mim".
Saúde pública
Questionado sobre propostas de aprimoramento do SUS, Flávio Bolsonaro prometeu implantar um prontuário eletrônico integrado, ampliar o uso da telemedicina e aplicar inteligência artificial no atendimento pelo SUS. O senador também anunciou que convidou Cláudio Lottenberg, ex-presidente do Hospital Israelita Albert Einstein, para assumir o Ministério da Saúde. "Aquele mesmo atendimento com tecnologia, com médicos, com hora marcada, sem fila, que tem na rede privada, eu quero levar para o SUS", declarou.
Lula reagiu com críticas à gestão da pandemia de covid-19 no governo Jair Bolsonaro e questionou se a proposta do adversário abriria caminho para a privatização do sistema público. "Será que ele quer privatizar o SUS? Será que ele quer privatizar o SUS?", perguntou. O presidente também acusou Flávio de desconhecer o funcionamento das unidades públicas de atendimento.
Os candidatos se desentenderam durante a resposta de Lula, após pessoas na plateia rirem de provocações feitas por Flávio pelas costas do presidente. Lula reclamou da postura do adversário e pediu direito de resposta. "Quem tiver palhaço aqui é ele, não sou eu", protestou. A mediadora Adriana Araújo precisou interromper o debate e advertiu o senador: "Candidato Flávio, o senhor já respondeu a essa pergunta. O senhor não tem o direito de se manifestar nesse momento".
Comparações a Milei
Lula cobrou de Flávio Bolsonaro esclarecimentos sobre a possível adoção do modelo econômico do presidente argentino Javier Milei, baseado em cortes de despesas públicas, redução da estrutura estatal e desregulamentação. "Você sabe o quanto é que tá a pobreza na Argentina? Você sabe o quanto é que tá o desemprego? Você tem acompanhado a economia?", questionou.
A cobrança fez referência ao "tesouraço" previsto no programa de governo de Flávio, que propõe eliminar pelo menos dez ministérios, reduzir despesas administrativas e retomar privatizações. O senador tem utilizado uma tesoura gigante durante a campanha, em referência à motosserra adotada por Milei como símbolo de sua política de austeridade.
Segundo o instituto oficial de estatísticas da Argentina (Indec), a pobreza atingiu 32,3% da população no primeiro semestre de 2026, contra 28,2% no semestre anterior. A taxa de desemprego chegou a 7,9% no segundo trimestre. Os indicadores foram utilizados pela campanha petista para questionar os efeitos sociais das políticas econômicas argentinas.
Flávio não respondeu diretamente se pretende seguir o modelo argentino e rebateu com críticas às relações internacionais do presidente. "E o seu amigo que é o Ortega da Nicarágua, um ditador? E o seu amigo que é o Maduro, que tá preso? Esses são seus amigos", provocou. Lula insistiu na pergunta e defendeu a continuidade de sua política econômica. "Sabe o modelo do Lula? É o modelo que cresce a economia. É o modelo que gera emprego", respondeu.
Política penal
Flávio Bolsonaro questionou Lula sobre as saídas temporárias de presos do regime semiaberto, conhecidas como "saidinhas". O senador citou os assassinatos de uma mulher e de um policial militar, atribuídos a condenados que haviam recebido autorização para deixar a prisão, e acusou o presidente de priorizar os direitos dos criminosos. "Lula, por que você está sempre pensando nos direitos dos bandidos e não está pensando nos direitos das vítimas?", questionou.
Lula defendeu a possibilidade de saída para presos com bom comportamento e em processo de ressocialização. "Não é porque um cidadão saiu e cometeu um erro que você vai punir milhares de pessoas que conquistaram o direito de sair diante da justiça brasileira", respondeu. O presidente ressaltou que condenados por crimes violentos, estupro e violência contra a mulher não devem receber o benefício.
Em 2024, Lula vetou o trecho do projeto de lei que proibia as saídas temporárias para visitas familiares, sob o argumento de que a restrição prejudicaria a ressocialização dos condenados. O Congresso derrubou o veto e restabeleceu a proibição, mantendo a possibilidade de saída para atividades educacionais nas condições previstas pela legislação.
Escala 6x1 e inflação
Flávio também justificou sua mudança de posicionamento sobre o fim da escala 6x1, que havia criticado como uma proposta eleitoreira antes de votar favoravelmente à PEC no Senado, na quarta-feira (14). O senador afirmou que mudou de ideia após percorrer o país e ouvir trabalhadores favoráveis à ampliação do descanso semanal. "Eu sou uma pessoa que, se for convencida, posso melhorar a minha opinião, se isso for melhor também para os cidadãos brasileiros", declarou.
O candidato também criticou a alta do custo de vida e acusou o governo de comprometer o poder de compra da população. "Nem os seus 600 reais do Bolsa Família, que, na época do presidente Bolsonaro, enchiam o carrinho, hoje você sabe que não enche mais", disse. Flávio prometeu adotar políticas para ampliar a renda das famílias e facilitar o pagamento de dívidas.
Lula respondeu que a inflação dos alimentos acumulada durante a gestão de Jair Bolsonaro foi de 56,17%, contra 13% registrados, segundo ele, em seu atual mandato. O presidente também defendeu a política de valorização do salário mínimo, com reajustes acima da inflação, para ampliar o acesso da população a produtos essenciais. "No meu governo, já está comprando 2,2 cestas básicas. Eu quero chegar a 2,5 ou 3 cestas básicas", afirmou.